É, outra vez, uma pintora chamada Josefa… Acerca dos textos da exposição no Museu de Arte Antiga

Exposição “Josefa de Óbidos e a Invenção do Barroco Português
Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 16 maio – 6 set. 2015

É a primeira vez que, neste blogue, escrevo duas vezes sobre o mesmo assunto. E não o faria se a Maria Vlachou não me tivesse referido – em comentário público no Facebook – que a experiência que teve nesta exposição não era assim tão positiva como a contava em Era uma vez uma Era uma vez uma pintora chamada Josefa. Acontece que Maria Vlachou é voz creditada em assuntos de comunicação cultural ((Dispensa apresentações, mas é a fundadora e diretora da Acesso Cultura e autora do blogue Musing on Culture.)) e as sua opiniões nesta matéria merecem ser ouvidas, até porque é das poucas pessoas entre nós a refletirem publicamente sobre isto.

Eu gostei da exposição; os “meus adolescentes”, que costumo usar como barómetro da eficácia comunicativa dos museus ou das exposições a que vamos, também gostaram a ponto de perder a noção do tempo.

Exposição "Josefa de Óbidos": entrada Museu Nacional de Arte Antiga Foto: MIR, 2014

Exposição “Josefa de Óbidos”: entrada
Museu Nacional de Arte Antiga
Foto: MIR, 2014

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O despertar da era da experiência, segundo Sarah Kenderdine: museus e humanidades digitais

“We are in the midst of a transformation, from a world of screens and devices to a world of immersive experiences”.
Brian Krzanich

Sarah Kenderdine, diretora adjunta do National Institute for Experimental Arts (NIEA) e diretora do Laboratory for Innovation in Galleries, Libraries, Archives and Museums ( iGLAM Lab), na University of New South Wales: Art & Design (Australia), esteve em Portugal para apresentar a palestra The age of experience: cultural heritage in future museums, organizadas por Helena Murteira (CHAIA/UE – Linha de História da Arte), Paula André (DINÂMIA’CET-IUL/ ISCTE-IUL – Linha Cidades e Territórios) e Daniel Alves (IHC/FCSH/UNL – Linha de Humanidades Digitais e Investigação Histórica), no passado dia 1 de junho, no auditório J.J. Laginha no ISCTE-IUL.

Sarah Kenderdine  ISCTE-IUL, 2015.

Sarah Kenderdine
ISCTE-IUL, 2015.

Partindo da epígrafe de Brian Krzanich, CEO da Intel Corporation, Sarah Kenderdine redefine o conceito de museu em função da transformação da nova era digital, no que respeita ao desenvolvimento de novos recursos quer para transmissão do conhecimento, quer para a criação de experiências imersivas centradas no sujeito.

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“Título, autor e data”: o que diz uma tabela?

A comunicação no museu passa pela decifrar o que está exposto. Mas pode uma tabela (( Tende a generalizar-se a designação tabela – há tempo, numas provas de mestrado, o arguente advertiu o aluno para o “erro” de designar “legenda”, um termo desatualizado, em vez de “tabela”. Não obstante, legenda significa, etimologicamente, “as coisas que são para ler, que devem ser lidas” e pode designar a informação escrita que informa, comenta ou ajuda a interpretar uma imagem, pelo que a sua aplicação em contexto museológico não pode ser considerada errada. )) com o registo do “título, autor e data”, por vezes, com o material e as dimensões, traduzir o significado da obra? Permitem, estes dados, descodificar o sentido da obra?

A informação, mesmo quando sucinta e redutora, pode ser redundante e inexpressiva. “Autor desconhecido” pode ser pertinente enquanto não-informação, ou seja, onde é a ausência dos dados o elemento significativo, mas será este um dado definitivo para a compreensão da obra? Também a referência à data, embora a situe numa linha cronológica, fornece, ao visitante comum, alguma informação sobre o contexto em que obra foi criada, ou sobre a complexidade de sistemas culturais, ideológicos, sociais, económicos, que a determinaram a ser daquela, e não de outra, forma?

Tabela da custódia de Belém no Museu Nacional de Arte Antiga Foto: MIR, 2014

Tabela da custódia de Belém no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA)
Foto: MIR, 2014

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O Museu de Arte Antiga em discurso direto

Tenho, com o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), uma antiga relação de amor. Como muitas relações de amor duradoras, também esta é um contínuo desenrolar de encontros e desencontros, de amuos e reconciliações, de exigências e desilusões.

Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga

Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga

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Olhar com diferentes modos de ver

A imagem de um grupo de adolescentes, sentados numa sala do Rijksmuseum, em Amsterdão, junto à Ronda da Noite (aliás A companhia militar do capitão Frans Banning Cocq e o tenente Willem van Ruytenburg), de Rembrandt, concentrados na consulta de smartphones tem sido alvo de muita polémica e ponto de partida para muitas discussões, desde que, no passado mês de dezembro, começou a circular nas redes sociais.

Rijksmuseum, Amsterdam  Foto: Gijsbert van der Wal, 27 november 2014

Rijksmuseum, Amsterdam
Foto: Gijsbert van der Wal, 2014

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Acerca do que (ainda) falta ao património

A articulação do património (do latim patrimonium, herança do pai) à cultura surgiu no século XVII, numa crescente tomada de consciência da necessidade de preservação dos bens herdados do passado, a partir do qual se desenvolveu o atual conceito de património cultural, no sentido de “conjunto de todos os bens que constituem os testemunhos de uma civilização ou de uma cultura, contribuindo para a construção da identidade cultural de um povo ou para a representação do pensamento, da criatividade e das realizações alcançadas pela humanidade” (Roque, 2012, p. 69).

Mosteiro de Alcobaça: deambulatório da igreja Foto: MIR, 2014

Mosteiro de Alcobaça: deambulatório da igreja
Foto: MIR, 2014

Embora seja corrente associar a emergência deste conceito com a depredação de alguns dos bens confiscados ao clero e à nobreza no contexto da Revolução Francesa, como uma reação à depredação sofrida pelos bens confiscados, em Portugal, as primeiras ações visando o enquadramento legal da proteção do património monumental são anteriores, remontando ao primeiro quartel do século XVIII, dado que, em 1720, o rei D. João V instituiu a Academia Real da História Portuguesa, à qual competia o estudo e a salvaguarda do património.

Na sequência deste conceito, definiram-se as funções patrimoniais: custódia, inventariação, estudo e salvaguarda, regulação da acessibilidade e classificação. Em síntese, distinguem-se duas linhas de atuação: a preservação, que envolve uma série de políticas de atuação e de procedimentos práticos para garantir a integridade do bem; a valorização, implicando a pesquisa e investigação, acesso e fruição, divulgação, sensibilização e comunicação ou mediação.

Sob pretexto de que o património não nos pertence, mas de que somos apenas os seus guardiões-intermediários com a incumbência de o transmitirmos às gerações futuras, criou-se uma ficção da função patrimonial imobilizada em torno do binómio “segurança-conservação”. Os agentes da ação museológica designam-se “conservadores” ou “curadores”, o que remete para a prática de zelo e conservação dos bens patrimoniais.

Em Portugal, nas últimas décadas ou, mais propriamente, após a criação de um organismo de tutela destinado especificamente ao património museológico – Instituto Português de Museus (IPM), Instituto dos Museus e da Conservação (IMC), Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), e no âmbito do Inventário dos Bens Culturais Móveis, coordenado por Maria José Moura, entrou nos museus uma nova geração de historiadores de arte que dinamizaram os museus para a investigação e estudo das coleções e que mantêm uma atividade relevante neste domínio, assumindo a curadoria científica de projetos de remodelação museológica e das mais algumas das mais marcantes exposições temporárias que se têm feito em Portugal.

Aparentemente, estão cumpridas vertentes matriciais das funções patrimoniais – a preservação e a investigação – tendo em conta que a exposição, ou a abertura à fruição pública, é uma funcionalidade implícita à condição de museu ou monumento. Mais ainda, este é um direito consagrado no articulado da Lei de Bases do Património: “Todos têm direito à fruição dos valores e bens que integram o património cultural, como modo de desenvolvimento da personalidade através da realização cultural.” (Lei n.º 107/2001, de e 8 de Setembro, tit. II, art,º 7.º, 1).

Temos obrigação de preservar o património para o transmitirmos, às gerações vindouras. E isso, de alguma forma, com mais ou menos situações pontuais, tem vindo a ser substancialmente cumprido. O futuro vai ter direito ao património que nos foi legado como herança.

E nós? Também temos direito a usufruir do património? Ou a obrigação de preservar o património acaba por ocultar o direito que todos nós temos à sua plena fruição? Ou a obrigação de estudar o património que nos foi legado, o remete para uma plataforma de conhecimento erudito que definitivamente o afasta da comunicação para uma audiência mais genérica?

O que falta ao nosso património? Definitivamente a capacidade de se desvendar, de se mostrar na globalidade das suas facetas, de esclarecer os enigmas que a maior parte de nós não consegue compreender, de contar o que não sabemos, de nos devolver a memória do que foi.

O que falta ao nosso património? Que, nos museus e monumentos, o trabalho dos conservadores e dos investigadores, seja complementado com as competências de museologia e de mediação e de comunicação cultural. Que, em cada sítio, haja quem assuma a função de identificar e interpretar o que está ao alcance do nosso olhar, mas não da nossa compreensão. Que haja quem transforme a epistemologia numa linguagem acessível ao grande público e a disponibilize em complemento ao património exposto. Que haja equipamentos de acessibilidade física e intelectual à cultura.

Texto informativo no Convento de Cristo, em Tomar. Foto: MIR, 2013.

Texto informativo no Convento de Cristo, em Tomar.
Foto: MIR, 2013.

Ao entrar num monumento, quero saber a história daquele lugar e as histórias de quem lá viveu, quero saber a razão e a função de cada aposento, a lógica dos espaços; ao entrar num museu, quero identificar o que vejo, a conotação para lá do que é aparente; ao visitar uma exposição, quero compreender a narrativa inerente ao discurso. Será que queremos todos?

E mesmo que sejam apenas alguns a querer ir um pouco mais além no conhecimento do que está exposto, não têm os museus e os monumentos a obrigação de dar resposta cabal às expetativas dos seus públicos plurais e de disponibilizar os instrumentos, quer para a aquisição do conhecimento, quer para a criação de uma impressão sensível ou de experiência imersiva? Ao nosso património, falta quem desenvolva a capacidade de interlocução e possa cumprir a competência comunicacional e mediadora. Falta captar o interesse e a atenção. Falta a formulação de uma mensagem acessível e inteligível na descodificação dos significados e das conotações que lhe são intrínsecas. Falta a criação de laços e conexões, através das quais se desenvolve a consciência do indivíduo face àquilo que o rodeia.

Túmulo de Inês de Castro. Mosteiro de Alcobaça. Foto: MIR, 2014

Túmulo de Inês de Castro.
Mosteiro de Alcobaça.
Foto: MIR, 2014

Antes das gerações vindouras, estão as gerações de agora. É a estas que importa transmitir o gosto e o conhecimento do património, porque são elas as mais imediatas destinatárias do que o passado nos legou e serão elas que o irão transmitir ao futuro. É às gerações de agora que o património pertence, é a elas que compete gostar, compreender, experimentar, saber, para que o possam transmitir a quem nos suceder. Afinal, o que falta ao nosso património é a capacidade de manter viva a memória junto de quem irá passar o seu testemunho.

Referência bibliográfica:
Roque, M. I. R. (2012). O museu de arte perante o desafio da memória. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 7(1), 67–85. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/bgoeldi/v7n1/a06v7n1.pdf 

La religion comme culture

Conferência apresentada no colóquio « Patrimoines religieux, cultures nationales et pratiques touristiques », Universidade de Évora, 11-12 dez. 2014.

À l’Ancien Testament, Dieu a averti Moïse qu’Il va descendre sur le Mont Sinaï et lui demande de pas laisser l’approximation du peuple: « Tu fixeras au peuple des limites tout à l’entour, et tu diras: Gardez-vous de monter sur la montagne, ou d’en toucher le bord. Quiconque touchera la montagne sera puni de mort.» (Ex 19, 12). Le concept d’interdit s’étend à tout ce qui prend part au rituel de liaison au divin.

Moïse recevant les Tables de la Loi Schedel, Hartmann (1440-1514) - Liber Chronicarum. Miguel Wohlgemuth, Guillermo Pleydenwurff, Albert Durer (?), il. et grav. Nuremberg: Anton Koberger, 1493, fl. 75v.

Moïse recevant les Tables de la Loi
Schedel, Hartmann (1440-1514) – Liber Chronicarum. Miguel Wohlgemuth, Guillermo Pleydenwurff, Albert Durer (?), il. et grav. Nuremberg: Anton Koberger, 1493, fl. 75v.

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