Mário Rita, "le voyeur” no caminho da luz

Exposição “Les Voyeurs”, de Mário Rita
Lisboa, Miguel Justino Contemporary Art, 24 set. – 24 out. 2015

São para mim verdades do Homem que se renova […] pela singularidade que alguns conseguem ver. Esses tenho a certeza que levam na frente a Luz.
Mário Rita, 2015

Em Mário Rita, sobressai a força com que liberta o seu universo introspetivo na linha, no traço, nas manchas, no gesto subentendido. Entre o abstracionismo mais minimalista, o figurativismo e o neoexpressionismo mais intuitivo, Mário Rita exercita a capacidade do desenho a carvão nas representações de figuras fragmentadas ou intersecionadas, em que se misturam pinceladas fluídas de cor e colagens, velaturas e opacidades, ou, nas obras mais recente, experimentando materiais inéditos como as colchas de seda com texturas e padrões que se insinuam sob a pintura. No desenho, ou na pintura, o impulso subjetivo do gesto predomina sobre a geometria da composição.

Exposição "Les voyeurs", 2015.

Exposição “Les voyeurs”, 2015.

Nesta exposição cruzam-se – e interpelam-se mutuamente – duas narrativas distintas. Os voyeurs são rostos a folha inteira, fragmentados, delineados ou com manchas sobrepostas a definir semblantes que se mantêm indistintos e herméticos, com olhos abertos, fechados, vendados, ou descobertos, impositivos no espaço que ocupam e pela forma como nos fitam, mesmo se não nos olham e se retêm no limiar do mistério. O expressionismo lírico que é comum na obra de Mário Rita está aqui por inteiro, nestes rostos introspetivos e melancólicos, para lá do que é imanente. Não sabemos quem são, mas representam-nos e desvendam-nos na intimidade do que somos. Não será em vão, mesmo que não tenha sido intencional, que o rosto escolhido para o convite da exposição tem a testa manchada de azul índigo, clarividente e iluminada…

Le voyeur  Mário Rita, 2015

Le voyeur
Mário Rita, 2015

 

São estes voyeurs que dão o título à exposição, numa manobra de diversão que quase nos distrai do essencial. Os voyeurs assistem e conduzem-nos à observação do registo religioso.

Numa abordagem inédita, Mário Rita debruça-se sobre temas de iconografia religiosa, de matriz tradicional cristã, redesenhando os símbolos e os mistérios segundo um imaginário pessoal, único e inédito. A espiritualidade transita entre o convencionalismo dos títulos e a reconfiguração das cenas: Anunciação; Entrada no templo; Gólgota; Crucificação; Descida da cruz I e II; Pietà; Ressurreição. Traça um itinerário entre o anúncio e o ingresso no mundo espiritual, numa reinterpretação do ideal de peregrinatio, um arquétipo universal da antropologia religiosa, concebido como um ritual de expiação para alcançar o sobrenatural, o espaço para lá da realidade profana do nosso quotidiano. As obras encerradas em caixas acrílicas, quase inaparentes, ainda que óbvias e refletoras do observador e do ambiente, ao impor uma separação sem possibilidade de transgressão, reforçam esta referência ao sagrado.

Gólgota Mário Rita, 2015 Exposição "Les Voyeurs"

Gólgota
Mário Rita, 2015
Exposição “Les Voyeurs”

A curadoria intervém na narrativa ou propõe uma leitura coletiva das obras expostas: o final de cada corredor/passagem, o epílogo da deambulação, configura-se como o expoente deste percurso espiritualizado.

Na primeira parte, a Entrada no templo, é um portal luminoso, dourado, atravessado por uma figura ascensional e mantendo à margem o perfil de uma cabeça, numa atitude de recolhimento e aceitação. O contraste entre o inferior e o superior, entre o profano e o sagrado, encontram aqui uma nova simbologia entre os pés enormes, descalços e telúricos e o diáfano vestidinho branco de menina.

Entrada no templo Mário Rita, 2015 Exposição "Les Voyeurs"

Entrada no templo
Mário Rita, 2015
Exposição “Les Voyeurs”

Este percurso iniciático culmina na apoteose branca da última sala, transfigurada num espaço teofânico, o lugar da luz que advém das colchas brancas com figuras delineadas a negro para a representação das cenas-tríptico Crucificação, Descida da cruz e Ressurreição. A figura angulosa do crucificado, suspensa em duas hastes verticais, numa evidência de queda e morte, não precisa da cruz, nem dos sinais de ferida e sangue, para evocar o sofrimento de uma absoluta solidão. A gestualidade mórbida, quase dançante, do corpo desfalecido, dobrado sobre si próprio, ao ser descido da cruz, confirmam esse solitário regresso ao início uterino. A figura torna-se quase incorpórea e desmaterializada no registo da ressurreição, a mais sublime e in-humana de todas as representações.

Descida da cruz Mário Rita, 2015 Exposição "Les Voyeurs"

Descida da cruz
Mário Rita, 2015
Exposição “Les Voyeurs”

Crucificação; Ressurreição Mário Rita, 2015 Exposição "Les Voyeurs"

Crucificação; Ressurreição
Mário Rita, 2015
Exposição “Les Voyeurs”

Completa-se o ciclo do percurso iniciático do “iluminado-humano-voyeur” ao “iluminado-espírito”. Para lá da angústia pressentida nalguns rostos, a deambulação por estas obras é um processo de íntimo reencontro, sereno e pacificado, ao encontro da luz, ao reencontro da epígrafe colhida nas palavras do artista.

Para trás ficaram alguns apontamentos de extraordinária e meticulosa execução: a mão da Descida da cruz II, o olhar de um voyeur, a face de outro…

Descida da cruz II Mário Rita, 2015 Exposição "Les Voyeurs"

Descida da cruz II
Mário Rita, 2015
Exposição “Les Voyeurs”

Descida da cruz II (detalhe) Mário Rita, 2015 Exposição "Les Voyeurs"

Descida da cruz II (detalhe)
Mário Rita, 2015
Exposição “Les Voyeurs”

A capacidade do desenho aponta para a progressão de um destino estético que não se confina à ideia ou ao conceito e se materializa na expressão gráfica e na modulação compositiva. O artista é pintor, em essência e em substância, reinventando-se na sua linguagem estética em constante e renovada atualização. Em constante e renovado aperfeiçoamento.

Atelier do pintor Foto: Mário Rita, 2015

Atelier do pintor

Como é costume em exposições de arte contemporânea, não há qualquer intervenção hermenêutica, para lá do texto do próprio Mário Rita na folha de sala. E, no entanto, a experiência resulta criativa e imersiva pela forma como envolve o recetor e o promove em agente ativo da mensagem: é através da leitura pessoal e íntima que a obra se cumpre e completa, tornando-nos a cada um de nós, simples espetadores, participantes do ato de criação.

Imagens de autoria de Mário Rita, 2015, e cedidas pelo autor.

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