Lamento pelos homens e pelas pedras

Templo de Bel Palmira, Síria Foto: Bernard Gagnon, 2010.

Templo de Bel
Palmira, Síria
Foto: Bernard Gagnon, 2010.

O templo de Bel, na antiga cidade síria de Palmira, foi destruído pelos militantes do Estado Islâmico: tinha havido a notícia de uma grande explosão no passado fim-de-semana, surgiu a hipótese de o templo ter sido poupado, veio agora a confirmação através da imagem de satélite, que mostra a desolação de duas colunas solitárias, no que antes havia sido um complexo arqueológico monumental. O templo, consagrado ao deus semita Bel, foi erguido no ano 32 sobre templos anteriores e era considerado um dos mais importantes edifícios religiosos da região e um dos mais relevantes exemplares da síntese entre os modelos arquitetónicos greco-romanos e a influência dos estilos vernáculos do Próximo Oriente.

Templo de Bel Palmira, Síria Foto: Zeledi, 2005.

Templo de Bel
Palmira, Síria
Foto: Zeledi, 2005.

Templo de Bel, Palmira: imagens de satélite, antes e depois do ataque.

Templo de Bel, Palmira: imagens de satélite, antes e depois do ataque.

A importância de Palmira – antiga cidade semita, conhecida como pérola do deserto, situada no centro da Síria, na província de Homs – justificou a sua classificação, em 1989, como Património Mundial da Humanidade. Em maio passado, o autoproclamado Estado Islâmico, que controla partes da Síria e do Iraque, ocupou a cidade e provocou a preocupação internacional acerca do destino deste património, temendo a destruição que, infelizmente, se tem vindo a confirmar.

Em finais de agosto, os extremistas islâmicos destruíram o templo de Baal Shamin, datado do século XVII a.C. e ampliado no ano 130, no tempo do imperador romano Adriano. Este constituiu o primeiro ataque dos jihadistas a uma estrutura complexo arquitetónico de Palmira.

Khaled al-Assad Foto: SANA via AP

Khaled al-Assad
Foto: SANA via AP

Há duas semanas, Khaled al-Assad, arqueólogo responsável pelas antiguidades e pelos museus de Palmira entre 1963 e 2003, foi considerado infiel e decapitado publicamente aos 81 anos e ao fim de mais de um mês de interrogatórios, por se ter recusado a dizer onde tinha escondido, desde maio, algumas centenas de peças arqueológicas face à eminência dos ataques dos extremistas islâmicos. Um sobrinho, Khaled al-Homsi, citado pelo The Telegraph, contou que Assad se recusou a seguir os conselhos daqueles que os aconselhavam a sair da cidade: “We knew they would not leave him alone. We used to stand together and watch the trenches and the barricades go up … he couldn’t stop his tears. He’d say they were punishing everything – even the stone.” (cit. in Loveluck & Samaan, 2015, 20 ago.) Irina Bokova, diretora geral da Unesco, confirmou em comunicado que “They killed him because he would not betray his deep commitment to Palmyra” (2015, 19 ago.). Logo depois de tomar o controlo de Palmira, o Estado Islâmico executou mais de 200 pessoas, vinte das quais no cenário simbólico do teatro antigo, também da época de Adriano.

Esta é uma época inquietante, em que assistimos à tragédia destas execuções e observamos a multidão daqueles que procuram escapar ao terror desse destino implacável. Somos testemunha dos refugiados que arriscam a vida ao atravessar o Saara e o Mediterrâneo em condições miseráveis para fugir aos perigos que os ameaçam e acabam por cair na armadilha dos traficantes para, finalmente, verem erguer-se, à sua frente, em pleno “sonho europeu”, armas e muros de arame farpado. Choramos por eles, de braços cruzados, frente aos dramas individuais e aos corpos sem vida. Somos solidários com esta crise humanitária, mas não deixamos de ter presente que estes fenómenos são uma constante ao longo da história, em sucessivas guerras, perseguições, fugas e diásporas. O ódio e a intolerância originam a brutal violência dos massacres e dos homicídios que se sucedem aos nossos olhos, infiltrando-se cada vez mais no nosso quotidiano.

Por outro lado, não é comum esta violência extrema contra os testemunhos inertes do passado. Houve movimentos iconoclastas, manifestações fundamentalistas e intolerantes que danificaram e alteraram vestígios de crenças antagónicas. Não obstante, a destruição a que agora assistimos, tão intencional, quanto infundada, ganha contornos de uma dimensão alarmante. E de uma incrível ambiguidade, se atendermos à sua falta de propósito e de racionalidade.

Presenciamos a derrocada maciça desse vasto património da humanidade, enquanto começam a surgir notícias de uma sistemática pilhagem dos sítios arqueológicos situados ao longo do vale do Eufrates, em território sírio, a qual é intencionalmente camuflada atrás da destruição monumental. O roubo das antiguidades existentes nesses sítios, esse, não tem nada de gratuito, nem é divulgado, mas correm rumores de um mercado negro que as receciona e guarda até que seja oportuno apresentá-las sem explicitar o lugar de origem e já valorizadas enquanto raridade. As antiguidades que possam ser transferidas e comercializadas não estão a ser destruídas e algumas surgirão um dia em coleções privadas e em museus – tal como vimos acontecer com as antiguidades saqueadas no Iraque durante a invasão americana – e, nessa altura, talvez indiferentes ao que hoje nos indigna, haja quem se sinta aliviado por, afinal, terem escapado algumas.

Relevo no templo de Bel Palmira, Síria Foto: Bernard Gagnon, 2010.

Relevo no templo de Bel
Palmira, Síria
Foto: Bernard Gagnon, 2010.

Choremos a sorte dos homens, mas também a dessas pedras. Lamentemos todos aqueles que ignoram que morremos de cada vez que alguém apaga a memória do nosso passado.

Referências bibliográficas:
Bokova, I. (2015, 19 ago.). UNESCO Director-General Irina Bokova deplores the loss of two leading scholars of Syrian antiquity. Unesco [sítio official]. Disponível em http://www.unesco.org/new/en/media-services/single-view/news/unesco_director_general_irina_bokova_deplores_the_loss_of_two_leading_scholars_of_syrian_antiquity/#.VeXGUPntmkp
Loveluck, L. & Samaan, M. (2015, 20 ago.). Isil murders scholar who hid treasures of Palmyra. The Telegraph. Disponível em http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/islamic-state/11811061/Islamic-State-jihadis-behead-top-archaeologist-in-Palmyra.html

Fontes das imagens:
Templo de Bel:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Temple_of_Bel_in_Palmyra.JPG
https://commons.wikimedia.org/wiki/Palmyra#/media/File:Temple_of_Bel,_Palmyra_15.jpg
https://commons.wikimedia.org/wiki/Palmyra#/media/File:Temple_of_Bel,_Palmyra_09.jpg
Fotos de satélite: http://www.bbc.com/news/world-middle-east-34111092
Khaled al-Assad: https://s3.amazonaws.com/media.wbur.org/wordpress/11/files/2015/08/0819_khaled-al-asaad.jpg

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