É, outra vez, uma pintora chamada Josefa… Acerca dos textos da exposição no Museu de Arte Antiga

Exposição “Josefa de Óbidos e a Invenção do Barroco Português
Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 16 maio – 6 set. 2015

É a primeira vez que, neste blogue, escrevo duas vezes sobre o mesmo assunto. E não o faria se a Maria Vlachou não me tivesse referido – em comentário público no Facebook – que a experiência que teve nesta exposição não era assim tão positiva como a contava em Era uma vez uma Era uma vez uma pintora chamada Josefa. Acontece que Maria Vlachou é voz creditada em assuntos de comunicação cultural ((Dispensa apresentações, mas é a fundadora e diretora da Acesso Cultura e autora do blogue Musing on Culture.)) e as sua opiniões nesta matéria merecem ser ouvidas, até porque é das poucas pessoas entre nós a refletirem publicamente sobre isto.

Eu gostei da exposição; os “meus adolescentes”, que costumo usar como barómetro da eficácia comunicativa dos museus ou das exposições a que vamos, também gostaram a ponto de perder a noção do tempo.

Exposição "Josefa de Óbidos": entrada Museu Nacional de Arte Antiga Foto: MIR, 2014

Exposição “Josefa de Óbidos”: entrada
Museu Nacional de Arte Antiga
Foto: MIR, 2014

E, no entanto, pelo menos em parte, concordo com a Maria Vlachou. Já tinha dito que os textos das tabelas não eram uniformes, o que significa que a informação de uns era mais relevante do que a de outros; não parece que tenham sido definidos, à partida, os campos de informação a seguir em cada uns, pelo que os dados parecem aleatórios, entre a descodificação do sentido iconográfico e os apontamentos historicistas, entre referências ao contexto e indicações de cariz mais episódico. Também mais do que uma narrativa linear, há uma pluralidade de narrativas cruzadas ou paralelas acerca da pintura de Josefa de Óbidos e o barroco, não apenas português, mas peninsular, cuja coerência discursiva apenas é sugerida através da leitura dos textos introdutórios dos vários núcleos.
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Não é fácil construir o discurso expositivo e é sobretudo difícil encontrar o equilíbrio entre o muito que pode ser dito e a necessidade de não dizer demais, sob o risco de se tornar excessivo e cansativo. Lembro-me sempre de uma exposição em que trabalhei onde, a determinada altura, a recolha de textos a incluir no espaço expositivo já ocupava cerca de 60 páginas A4 (!) – e como apenas o orçamento do trabalho gráfico e da impressão foram decisivos para o bom senso de os reduzir substancialmente. Não é fácil a elaboração de um discurso adequado e eficaz, até porque essa não é prática corrente dos museus de arte.

As últimas exposições no Museu de Arte Antiga têm agido ao arrepio desta corrente. Mesmo que ainda não tenham encontrado o método mais apropriado, mesmo que ainda continuem a ignorar algumas ferramentas que poderiam contribuir para uma maior eficácia e difusão da mensagem e, até, mesmo que nem todas as suas iniciativas tenham tido o mesmo propósito de esclarecer o público acerca do que está exposto.

A questão principal é, paradoxalmente, o facto de isto ainda não se assumir como questão. Ou como questão científica a conduzir a investigação teórica acerca da comunicação no museu, ultrapassando as metodologias mais convencionais de estudos de caso acerca do que que foi feito em circunstâncias dispersas e fragmentadas. Faltam estudos acerca da informação a fornecer em função das audiências cada vez mais diversificadas e alargadas. E que poderá não ser exatamente aquilo que os visitantes verbalizam como exigência ou expetativa, mas aquilo que a investigação nos domínios cruzados da museologia, da comunicação e das humanidades digitais, como nos domínios científicos a que a exposição se refere, vier a definir como o mais adequado para a satisfação intelectual, emocional e lúdica dessas audiências, tomadas como entidade global, mas também nas suas particularidades individuais.

Por outro lado, a difícil articulação entre a síntese do que pode ser dito no espaço físico da exposição e o conjunto de dados disponíveis é, cada vez mais, uma falsa questão. O museu não pode submergir as obras que apresenta num aparato informativo exagerado. Contudo, um dos princípios mais consolidados na teoria museológica, frequentemente reiterado por Georges Henri Rivière, assenta que a obra deve ter espaço para que possa ser apreendida visualmente, sem ruído, mas que a informação pode ser cada vez mais extensa e completa, à medida que se avança para espaços marginais ao percurso. Hoje em dia, através do recurso às tecnologias da informação, o museu pode disponibilizar todos os dados relevantes, quer para o conhecimento da obra, quer para as relações semânticas que possa estabelecer com outras, permitindo que cada visitante construa a sua própria narrativa. Isto é, cada visitante poderia dispor de um vasto conjunto de informações, em registos textuais ou gráficos, que lhe permitissem identificar o sentido do discurso expositivo e a pluralidade semântica de cada uma das obras expostas, a partir do que lhe seria possível a construção dos seus próprios argumentos. Mas isso só será possível quando, nas equipas curatoriais, se integrem especialidades que têm estado arredadas ou cuja missão tem sido reduzida a aspetos mais superficiais da comunicação, ou da divulgação do evento.

A exposição “Josefa de Óbidos” parece ser definitivamente melhor do que muitas outras exposições que teimam em limitar-se à identificação da peça sem qualquer indicação acerca dos seus significados intrínsecos e não explícitos.

O facto de haver opiniões divergentes acerca da eficácia da função comunicativa do museu prova que há, ainda, um longo caminho a percorrer para encontrar esse equilíbrio entre a síntese informativa dos textos e os imperativos da sua função comunicativa. E, entretanto, há também muitas perspetivas a considerar e muitas ideias a debater.

4 thoughts on “É, outra vez, uma pintora chamada Josefa… Acerca dos textos da exposição no Museu de Arte Antiga

  1. Maria Isabel, obrigada por dar continuidade à nossa sucinta troca de impressões de forma tão estimulante.

    Foi no seguimento desta troca que senti a necessidade de voltar a folhear o “Exhibit Labels” de Beverly Serrell. Havendo sempre, por um lado, muitas ideias e problemáticas sobre as quais reflectir, no que diz respeito aos textos de exposições e à interpretação em museus em geral, por outro, não podemos esquecer que existe já muita reflexão sobre esta temática, estudos de públicos e vários textos práticos que nos possam orientar no nosso trabalho. Não sei se estaremos a aproveitá-los o suficiente. Não sei quantas das pessoas envolvidas na criação de exposições, e concretamente na escrita de textos, terão lido Beverly Serrell, Freeman Tilden, Helen Coxall.

    Sinto que o MNAA está um passo à frente em relação a outros museus. A incerteza que senti na tentativa de construção de uma narrativa, tanto no caso da exposição da Josefa como no caso do FMR, faz-me acreditar tratar-se da procura de um caminho – que espero que o museu possa encontrar, será muito bom.

    Considero-me uma espécie de barómetro também e não uma “autoridade” na matéria. Visito a maioria das exposições em museus de arte, e também de ciência, história, etc., com plena noção da minha ignorância sobre a matéria apresentada, mas com muita curiosidade. Em qualquer exposição, haverá sempre pessoas capazes de usufruir e apreciar sem necessidade propriamente de recorrer aos textos. Haverá outras para quem os textos serão fundamentais na descoberta e compreensão, na construção de significado. São estas últimas que me interessam em particular, como profissional mas também… porque sou uma delas.

    Obrigada, mais uma vez.

    • Maria Vlachou, obrigada pelo seu comentário e por também dar continuidade a esta troca de ideias.
      Qualquer um de nós, na maioria das situações, não é especialista na matéria abordada pela exposição. Por isso mesmo, para cada um de nós que constituímos a audiência do museu, o texto é o complemento que permite ou facilita a compreensão daquilo que é captado pelo olhar.
      Deviam estar subjacentes, à elaboração dos textos, conhecimentos biológico e neurológico do processo de perceção visual. Além de Rudolph Arnheim, lembro-me de um pequeno texto de Minnie Abercrombie, The anatomy of judgement: an investigation into the processes of perception and reasoning (1.º ed. de 1960) que, ao descrever os processos de aquisição da informação através da perceção visual, adverte que cada indivíduo apenas vê em função da experiência pessoal; face à inexistência de referências ou de memórias que descodifiquem o visível, é através do texto que este se torna compreensível.
      Há um referencial teórico sobre o assunto e a Maria Vlachou refere os contributos fundamentais de Beverly Serrell, Freeman Tilden, Helen Coxall. Acrescento, ainda, a obra seminal de Eilean Hooper-Greenhill (The Educational Role of the Museum, 1999), ou as obras de Louise Ravelli (Museum Texts: Comunication Frameworks, 2006), de Lisa Brochu (Personal Interpretation: Connecting Your Audience to Heritage Resources, 2002), de Sam Ham (Interpretation-Making a Difference on Purpose Paperback, 2013), entre outros. Curiosamente, nenhum português, porque entre nós a investigação teórica em museologia é, ainda, muito incipiente. Será talvez por isso que, muito provavelmente, as “pessoas envolvidas na criação de exposições, e concretamente na escrita de textos” não terão lido nenhum destes autores.
      Os profissionais de museus são especialistas no domínio científico do museu, pelo que, no caso do museu de arte, o discurso é elaborado pelo historiador de arte, o que, em essência, parece estar correto: é o historiador de arte que detém o conhecimento erudito sobre o assunto. Porém, o discurso que elabora não se destina a uma comunicação inter pares. E é, neste ponto que falha o processo de comunicação no museu. Nessas equipas, não comunicadores culturais, que adequem a mensagem ao visitante comum e que explorem estratégias comunicacionais mais eficazes, tal como não há a presença de informáticos ou, mais especificamente, especialistas em humanidades digitais, que viabilizem o acesso à informação, ou disseminação e recuperação dos dados.
      A verdade é que as equipas curatoriais não o são: os curadores são-no por função e não por formação. Poderá um museu cumprir-se sem museólogos?

  2. Tem razão, muita e muita pesquisa feita, pouco aproveitada por aqui. Não me parece que o facto de ser na sua maioria escrita em inglês impede os profissionais de museus portugueses de a consultar. E já temos muitas pessoas formadas em museologia no país.

    Sinto que é sobretudo uma questão de visão e mentalidade. As equipas de museus devem ser multidisciplinares, precisamente porque o museu, de acordo com a definição do ICOM, tem várias funções e nem todas podem ser desempenhadas, como é natural, por especialistas na temática/colecção do museu. Algumas equipas já são multidisciplinares, ou porque as pessoas que nesses museus trabalham procuraram formar-se nas áreas que lhes faziam falta ou porque procuraram integrar nas equipas as especialidades das quais necessitavam. Assim, podemos dizer que temos já alguns bons exemplos ou tentativas mais bem sucedidas nesta matéria. Penso que o melhor exemplo em Portugal, entre os que conheço, é o do Museu do Benfica. O exemplo de como um tema a priori sem grande interesse (para mim) se tornou em algo fascinante e manteve-me no museu durante 2h30, precisamente porque os colegas que trabalharam os textos fizeram-no com a intenção de comunicar também comigo. E porque esta preocupação se integra na missão geral do museu.

    Sinto, sinceramente, que hoje em dia é mais uma questão de mentalidade e vontade do que outra coisa. Suporte científico não nos falta, nem bom exemplos, em Portugal e no estrangeiro.

  3. Na minha opinião, a exposição “Josefa de Óbidos e a Invenção do Barroco Português” é uma exposição esteticamente muito interessante mas muito difícil de compreender quanto aos conteúdos. A começar pelo título, a invenção do barroco português…. o barroco em Portugal não começa com a Josefa, nem se pode alegar que ela seja a artista mais representativa, pois estaríamos a regredir no conhecimento da história da arte portuguesa. Talvez o objectivo fosse contextualizar a obra da autora em relação aos seus contemporâneos, daí os apontamentos de outras modalidades artísticas, outros artistas e produções…. Quanto ao textos de sala, não parecem seguir um fio condutor coerente, como se via na exposição AS IDADES DO MAR (Museu Gulbenkian). O próprio catálogo é confuso e pouco homogéneo. Ainda assim, sem dúvida que é uma exposição interessante, que apela aos sentidos pela cor, pela luz, pelo brilho, pelo conteúdo, assim como apela ás emoções, pela ternura inerente a muitas das representações.

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