Era uma vez uma pintora chamada Josefa…

Exposição “Josefa de Óbidos e a Invenção do Barroco Português
Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 16 maio – 6 set. 2015

A exposição “Josefa de Óbidos e a Invenção do Barroco Português” é mais do que a apresentação da pintora e da sua obra. A propósito desta exposição, apetece dizer “era uma vez”, porque aqui se conta uma história, entre tramas e contextos que se cruzam, narrativas que se sucedem acerca dos seus lugares, dos tempos, das relações e das referências que construíram a vida e a arte de Josefa de Óbidos.

Há muito tempo que não gostava tanto de uma exposição. E devo confessar que não sou (ou não era) apreciadora de Josefa de Óbidos, apesar da revelação iniciada por Nuno Vassalo e Silva, numa visita sem pressas, em 1991, na Galeria D. Luís, já deserta após o fecho da exposição. Mesmo assim, não consegui ultrapassar o preconceito acerca de uma pintura aparentemente monocórdica e ingénua, com uns Meninos corados, de corpinho rechonchudo percetível sob a camisinha rendada, barros decorados com laços de seda e cestas de flores e frutas…

Menino Jesus, Salvador do Mundo (3) Exposição "Josefa de Óbidos..." Foto: MIR, 2015

Menino Jesus, Salvador do Mundo (3)
Exposição “Josefa de Óbidos”
Museu Nacional de Arte Antiga
Foto: MIR, 2015

Passados mais de vinte anos sobre essa exposição monográfica, na Galeria de Pintura do Rei D. Luís I, no Palácio da Ajuda, coordenada por Vítor Serrão, Josefa de Óbidos é novamente objeto de uma grande exposição comissariada por  Joaquim Oliveira Caetano, Anísio Franco e José Alberto Seabra Carvalho no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, com mais de 130 obras de pintura, escultura e artes decorativas, provenientes de várias instituições e coleções públicas e privadas, nacionais e internacionais. Não é fácil fazer duas exposições sobre a mesma figura e em tão curto espaço de tempo, sem se sujeitar à inevitabilidade da comparação e à eventualidade de não trazer nada de novo.

As peças são quase todas as mesmas, a informação também não difere substantivamente. E, no entanto, o discurso atualiza-se e reformula-se através de novas perspetivas e conexões. Há obras inéditas, nomeadamente, a tão falada Maria Madalena confortada pelos Anjos, recentemente adquirida por Filipe Mendes, lusodescendente e galerista de arte antiga em Paris, que a doou ao Museu do Louvre; tal como há obras que estiveram na Galeria D. Luís e que não integram agora esta exposição. Mas é, sobretudo, através da reorganização do guião que se retoma a dissertação. O enredo é o mesmo, mas o desenvolvimento é inédito, através dos confrontos estabelecidos entre as unidades encadeadas.

S. João Batista (detalhe) Exposição "Josefa de Óbidos" Museu Nacional de Arte Antiga Foto: MIR, 2015

S. João Batista (detalhe)
Exposição “Josefa de Óbidos”
Museu Nacional de Arte Antiga
Foto: MIR, 2015

A história é linear, em função dos dados biográficos conhecidos: Josefa de Ayala Figueira, nasceu em Sevilha no ano de 1630, filha do pintor português Baltazar Gomes Figueira e da andaluza Catalina de Ayala e Cabreira; a vinda para Óbidos, em 1634, onde Baltazar se assumiu como pintor de naturezas mortas, à semelhança dos “bodegón” sevilhanos, género continuado depois por Josefa; as primeiras pinturas, ainda muito jovem, aos 16 ou 17 anos de idade; em 1661, tornou-se “donzela emancipada”, adquirindo independência económica e revelando-se como mulher de negócios na compra de rendas e propriedades; a provável colaboração com o pai, na série dos “Meses”, datada de 1668; a morte do pai, em 1674, tornando-se herdeira da Quinta da Capeleira, cenário de quase toda a vida; a predileção pelas naturezas-mortas, cenas religiosas e figuras de Menino-Jesus; a morte em 1684. O contexto é provinciano, marginal, apesar de vitalidade cultural que se atribui a Óbidos por essa época.

O propósito da exposição, conforme se lê à entrada, é precisamente “Corrigir a ideia de uma pintora curiosa mas provinciana e apresenta-la antes como um evidente reflexo da espiritualidade da época”. E, de facto, “A maior parte das obras […] revelam uma artista de rara precocidade, atenta a um tenebrismo de origem mais nórdica do que italiana e rendida, nas últimas décadas, a uma luminosidade aberta e a um colorido franco […]” (id.).

Exposição "Josefa de Óbidos": entrada Museu Nacional de Arte Antiga Foto: MIR, 2014

Exposição “Josefa de Óbidos”: entrada
Museu Nacional de Arte Antiga
Foto: MIR, 2014

Sem obedecer a uma habitual sequência cronológica, é a partir daqui que a história de constrói, cruzando a obra de Josefa de Óbidos com a invenção do Barroco Português, a confirmar o título da exposição. E é também por aqui que se se atinge um dos contributos mais relevantes desta mostra: a obra de Josefa não é apresentada isolada, mas segue uma organização temática que a insere nos contextos histórico, cultural, artístico e doméstico da época, reportando as influências e estabelecendo confrontos visuais de perceção imediata.

Natureza-morta com papagaio (2) Josefa de Ayala Exposição "Josefa de Óbidos" Museu Nacional de Arte Antiga Foto: MIR, 2015

Natureza-morta com papagaio (2)
Exposição “Josefa de Óbidos”
Museu Nacional de Arte Antiga
Foto: MIR, 2015

O barroco português revela-se através da escultura, mobiliário, cerâmica, têxteis, quer nacionais, quer influenciadas por estéticas longínquas dadas a conhecer pelas viagens ultramarinas; o contexto devocional, num ambiente de encenação e emotividade, é premente nas faces dos relicários de Alcobaça; os “bodegones” de fundos tenebristas a realçar o colorido dos produtos naturais atestam a influência dos pintores espanhóis no universo pictórico de Baltazar e Josefa; o papel de ambos na introdução do género de natureza-morta em Portugal e a existência de uma oficina em Óbidos evidenciam-se através da replicação, fragmentação e conjugação de modelos em conjuntos de obras, que se conjugam com o rol de bens de Baltazar Figueira e comprovam o artificialismo da pintura, não “ao natural”, mas a partir de um reportório restrito de painéis; a mística adocicada dos Meninos e Agnus Dei, rodeados por opulentas cartelas e grinaldas de flores a sugerir uma linguagem simbólica e metafórica que amplia o sentido imediato da representação; na fase madura da pintura de retábulos, inscreve-se na reconstituição conceptual do espaço da igreja, recuperando a geometria original da composição das obras, em particular, no caso do retábulo da Misericórdia de Peniche, cujos painéis se encontravam dispersos e que aqui estão reagrupados pela primeira vez desde o século XVIII.

Ao longo de todo o percurso, é imanente essa doçura, intimista e serena, sem arroubos, apenas interrompida pela violência crua de um Cristo flagelado (1670, col. Banco de Portugal). Porém, confirma-se que a pintura de Josefa de Óbidos é mais do que a representação de naturezas mortas repletas de doces de ovos e queijadas ou de flores em torno de figuras sagradas.

O complemento textual à entrada de cada núcleo é breve, adequado ao ritmo da visita, mas é eficaz na apresentação dos temas; nas tabelas, os textos que completam os dados identificativos, embora não sejam uniformes, funcionam como apostos que esclarecem a função da obra individual no conjunto discursivo. Podemos dizer que falta a elaboração de aplicativos digitais, de novas formas de informação e mediação… podemos sempre querer mais! Mas o que está, cumpre o propósito da musealização.

Natureza-morta Juan Van der Hamen y Léon, 1625 Exposição "Josefa de Óbidos" Museu Nacional de Arte Antiga Foto: MIR, 2015

Natureza-morta
Juan Van der Hamen y Léon, 1625
Exposição “Josefa de Óbidos”
Museu Nacional de Arte Antiga
Foto: MIR, 2015

Tabela Exposição "Josefa de Óbidos" Museu Nacional de Arte Antiga Foto: MIR, 2015

Tabela
Exposição “Josefa de Óbidos”
Museu Nacional de Arte Antiga
Foto: MIR, 2015

Esta exposição conta uma história, a partir da qual se constroem outras. O Filipe e a Bia, de 11 e 14 anos, percorreram a exposição num dia em que não havia mais visitantes: puderam ver à vontade, fazer perguntas, formular novas ficções, voltar atrás para rever, comparar, relembrar, parar e seguir. Levaram o tempo que quiseram e, no fim, percebemos que tínhamos lá estado durante quase duas horas. Como diz o Filipe: “o tempo passou tão rápido, que nem demos por ele passar”. E com isto, diz-se tudo acerca de uma exposição.

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