Dia de Portugal

O conceito moderno de nação surgiu no século XVIII, no contexto do Iluminismo e da Revolução Francesa e ao mesmo tempo que se criavam os primeiros museus com o objetivo de salvaguardar e disponibilizar, a toda a sociedade, o repositório patrimonial que materializava a sua cultura e identidade.

Em Portugal, no último quartel do século XIX, foram várias as comemorações que serviram como pretexto para a exaltação de acontecimentos e heróis que incrementassem o orgulho nacional, ao mesmo tempo que funcionavam como veículo de propaganda da ideologia anticlerical e republicana, das quais a mais relevante ocorreu em 1880, assinalando o centenário da morte de Camões, figura que se tornou um símbolo da luta pela independência do reino contra a presença e influência dos ingleses e baluarte das ideias republicanas. O ideal heroico e romântico do poeta que cantara a saga dos Lusíadas era o reverso positivo de um Portugal em crise e desesperançado.

Luiz de Camões Gravura de Joaquim Pedro de Sousa.  [Lisboa: Imprensa Nacional 1873]

Luiz de Camões
Gravura de Joaquim Pedro de Sousa.
[Lisboa: Imprensa Nacional 1873]

Assim, na sequência da implantação da República, a 5 de outubro de 1910, foi publicado, logo na semana seguinte, o decreto que estipulava os feriados nacionais, transferindo para os municípios a possibilidade de escolherem a data que melhor refletisse a sua história ou tradição. Lisboa escolheu, para feriado municipal, o dia 10 de junho, evocando as comemorações camonianas de 1880 e o papel que tiveram a divulgação do ideário republicano, ao mesmo tempo que, através da exaltação do mais celebrado dos poetas portugueses, procurava diminuir o impacto da festa de Santo António, padroeiro da cidade, a 13 do mesmo mês.

Durante o Estado Novo, Salazar transformou o dia em feriado nacional, com a designação de Dia de Camões, de Portugal e da Raça, acentuando o valor simbólico de Camões como epicentro da memória coletiva, dos seus heróis mais destacados e dos momentos mais gloriosos da história nacional, e anexando-lhe um inevitável propósito propagandístico do regime e do império colonial. Entretanto, em 1952, retomou a festividade do São Miguel Arcanjo, como Anjo Custódio do Reino, ou Anjo de Portugal – instituída em 1504 pelo papa Júlio II e a pedido do rei D. Manuel I – inserindo-a no Calendário Litúrgico também a 10 de junho, conferindo um caráter simbólico e religioso à celebração do dia nacional.

Após o 25 de abril, em que se esvazia o sentido dominante da anterior propaganda, o dia 10 de junho designa-se, a partir de 1978, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. As comemorações oficiais são presididas pelo Presidente da República, que todos os anos escolhe uma cidade para acolher as cerimónias oficiais e, em particular, a imposição de insígnias aos agraciados com graus das Ordens Honoríficas Portuguesas. Este ano, destaca-se a condecoração, a título póstumo, do Prof. Mariano Gago com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo. Provavelmente, todos concordam que é muito merecida, mesmo tendo como pano de fundo a destruição da sua obra em prol do conhecimento e da investigação científica.

No âmbito das artes e da cultura, foram agraciados Querubim Lapa e Alexandre Farto (Vhils; vd. texto que publicou no FB), o que parece indiciar alguma preferência pela arte pública e de rua – e isto seria um indício positivo de valorização de artes que algumas elites tendem a preterir. E foi também agraciada Isabel Silveira Godinho, antiga diretora do Palácio da Ajuda e figura arcaica de uma família (até em sentido literal) de conservadoras de museu que dominou a prática da museologia portuguesa… – o que já não parece ser indício de coisa alguma.

Sem título Querubim Lapa, 2013 Centro Português de Serigrafia

Sem título
Querubim Lapa, 2013
Centro Português de Serigrafia

Quanto às iniciativas culturais neste dia, bem que se pode procurar informações nos sítios web da Presidência ou do Museu da Presidência de Portugal, ambos ultrapassados e desatualizados – veja-se a página “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, cujas referências mais recentes remontam a 2012(!). No sítio do Museu da Presidência, na página de acolhimento, o primeiro ponto da agenda refere-se a mais uma exposição de Tapeçarias de Portalegre – que, de resto, tem sido o fulcro da ação deste museu, numa fusão de interesses entre o público e o privado que, no mínimo, se estranha por ser tão intensa – e, mais abaixo, a referência à exposição “Santiago por Portugal”, patente no Museu Diocesano de Lamego, “a propósito das comemorações oficiais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesa” – numa serena convivência entre o civil e o religioso, que se sublinha por se tratar da Presidência dum país laico. São pequenos eventos, de acanhada perspetiva e baralhados num cenário de indecisão, incapazes de transmitir algo de novo ou de motivador no marasmo em que o país nos deixa irremediavelmente mergulhados. Neste Dia de Portugal, são metáfora da relação entre o poder e a cultura e da forma como o poder nos projeta enquanto nação.

Nação que escolheu, como dia principal, aquele em que se assinala a data (incerta) da morte de um poeta.

Fontes das imagens:
http://purl.pt/1127/2/e-3548-p_JPG/e-3548-p_JPG_24-C-R0150/e-3548-p_0001_1_t24-C-R0150.jpg https://www.cps.pt/Default/pt/Homepage/ObraGraficaOriginal/Obra?id=33362

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O despertar da era da experiência, segundo Sarah Kenderdine: museus e humanidades digitais

“We are in the midst of a transformation, from a world of screens and devices to a world of immersive experiences”.
Brian Krzanich

Sarah Kenderdine, diretora adjunta do National Institute for Experimental Arts (NIEA) e diretora do Laboratory for Innovation in Galleries, Libraries, Archives and Museums ( iGLAM Lab), na University of New South Wales: Art & Design (Australia), esteve em Portugal para apresentar a palestra The age of experience: cultural heritage in future museums, organizadas por Helena Murteira (CHAIA/UE – Linha de História da Arte), Paula André (DINÂMIA’CET-IUL/ ISCTE-IUL – Linha Cidades e Territórios) e Daniel Alves (IHC/FCSH/UNL – Linha de Humanidades Digitais e Investigação Histórica), no passado dia 1 de junho, no auditório J.J. Laginha no ISCTE-IUL.

Sarah Kenderdine  ISCTE-IUL, 2015.

Sarah Kenderdine
ISCTE-IUL, 2015.

Partindo da epígrafe de Brian Krzanich, CEO da Intel Corporation, Sarah Kenderdine redefine o conceito de museu em função da transformação da nova era digital, no que respeita ao desenvolvimento de novos recursos quer para transmissão do conhecimento, quer para a criação de experiências imersivas centradas no sujeito.

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