O não-museu dos Coches

Não, o novo Museu dos Coches ainda não abriu. O que abriu, no passado sábado (23 de maio), foi o novo espaço para onde transitaram os coches do antigo museu.

Ao longo do fim-de-semana, houve filas intermináveis, porque era novidade e era gratuito e, talvez sobretudo, porque a publicidade e toda a polémica geraram uma imensa curiosidade. Um comunicado da Direção Geral do Património Cultural, confirmava o afluxo de 19.865 visitantes e a realização de cerca de 250 visitas guiadas. Parece um bom prenúncio para as expetativas de Jorge Barreto Xavier, secretário de Estado da Cultura que, na conferência de apresentação do novo museu aos jornalistas, disse esperar pelo menos 350 mil visitantes por ano, o que significa um aumento exponencial face aos 207 mil que, em 2014, visitaram o museu nas antigas instalações.

Museu dos Coches Foto: MIR, maio 2015

Museu dos Coches
Foto: MIR, maio 2015

No primeiro dia de abertura a preços normais, a afluência junto às bilheteiras continuava a obrigar a tempos de espera. Até porque, dos quatro postos previstos só dois estavam ocupados – nas informações, são cinco postos, mas estavam todos vazios – e havia falta de trocos e os funcionários tinham de saber de onde era cada visitante (“where are you from?”). Se a envolvente é árida, mesmo numa manhã de amena primavera, e ainda com avisos de obras, por enquanto, paradas, o átrio de entrada é uma praça ampla, aberta e à sombra, propícia à multidão dos grandes grupos de turistas.

Numa pós-graduação em Museologia, em que era professora Natália Correia Guedes, então diretora do Museu dos Coches (ou ‘côches’, como nos ensinava a dizer), ouvi-a defender a criação de um novo espaço museológico, mais amplo e atualizado, reabilitando as instalações do antigo Picadeiro Real para exibições da Escola Portuguesa de Arte Equestre, à semelhança da Spanische Hofreitschule, em Viena. Na altura, pareceu-me bem. Em 1990, Natália Correia Guedes assumiu o cargo de Subsecretária de Estado da Cultura e, enquanto se fazia a compra dos terrenos das antigas Oficinas Gerais do Material do Exército, manteve latente o projeto, o qual, em 1995, chegou a ser anunciado por Manuel Frexes, um dos sucessores na pasta, tornando-se efetiva, já no Governo de Guterres, pela Resolução do Conselho de junho de 1998, que criava também a Comissão Novo Museu dos Coches e Picadeiro Real, presidida por Rui Vilar. Porém, só passados 10 anos, em 2008, o ministro da Economia Manuel Pinho decidiu o início efetivo da construção do novo museu, nas instalações das Oficinas Gerais do Exército, como parte integrante de um projeto estratégico do desenvolvimento da zona de Belém cuja conclusão se previa para 2015, utilizando verbas provenientes de receitas do Casino de Lisboa. O lançamento da obra em fevereiro de 2010, foi solenizado com uma cerimónia oficial, presidida pelo primeiro-ministro, José Sócrates, que classificou a obra como “um sinal claro de investimento na cultura” (cit. in Coelho, 2010, 2 fev.). A contestação e a polémica foram imediatas e têm sido constantes ao longo de todo o processo: contra a transferência dos serviços do Instituto Português de Arqueologia instalados nos edifícios a demolir, contra a construção de um silo automóvel em plena frente ribeirinha, contra o projeto de arquitetura entregue a Paulo Mendes da Rocha, contra a magnitude do edificado, contra a exorbitância dos custos da obra e da posterior manutenção… (Vd. historial em Pomar, 2010, 30 jan.)

Na altura, previa-se que o edifício estivesse concluído em finais de 2011, e Silvana Bessone, diretora do museu, anunciava que o museu iria “ter dois polos em Belém: nas instalações históricas, o antigo picadeiro, ficará um núcleo de oito coches do século XVIII; no novo edifício projetado por Mendes da Rocha ficarão perto de 80 coches. Em Vila Viçosa continuará a existir um terceiro polo, com 44 veículos mais ligados ao meio rural” (cit in Coelho, 2010, 2 fev.). Entretanto, as obras ficaram concluídas em 2012 e, no ano seguinte, deu-se início à transferência da coleção.

Museu dos Coches Foto: MIR, maio 2015

Museu dos Coches
Foto: MIR, maio 2015

O novo edifício, com um investimento de 40 milhões de euros já gastos, abriu agora, cerca de quatro anos após a data inicialmente prevista e mais de dois após a conclusão dos trabalhos de construção. O projeto foi desenvolvido em consórcio com os ateliês MMBB Arquitetos (Brasil), Bak Gordon Arquitetos e Nuno Sampaio Arquitetos (Portugal), ocupa mais de 15.000 metros quadrados e o edificado distribui-se em torno de uma praça interna, incluindo uma nave suspensa para as galerias de exposições, um anexo com administração do museu, restaurante, auditório e, ainda por executar, uma nova passagem pública pedestre e ciclável até ao Tejo.

Que “museu” é este, construído ao arrepio de opinião de museólogos, curadores, especialistas e técnicos? Que “museu” é este que, para lá de todas as polémicas acolhe uma autêntica multidão no fim-de-semana de abertura?

Museu dos Coches Foto: MIR, maio 2015

Museu dos Coches
Foto: MIR, maio 2015

Num artigo de opinião no Público, Raquel Henriques da Silva dava conta deste absurdo de vaidades e intenções propagandísticas, contrapondo, a este investimento milionário, a penúria do panorama cultural e museológico (Silva, 2015, 22 maio). O museu dos Coches precisava de ampliação e de uma renovação museológica, tal como precisam tantos outros museus a braços com a falta de pessoal e a exiguidade dos orçamentos. Só ali perto, o Museu de Arte Popular continua vazio, o Museu de Arqueologia reclama intervenção …

Talvez não precisasse desta ampliação e, quanto, à renovação museológica continua a precisar porque só estará concluída em finais do ano. Um “museu” sem museologia não é um museu; neste caso, é um amplo armazém convertido numa sumptuosa, embora minimalista, reserva visitável.

Museu dos Coches Foto: MIR, maio 2015

Museu dos Coches
Foto: MIR, maio 2015

A área expositiva, com 6.000 metros quadrados, quase triplica a que tinha no antigo picadeiro, compreende duas vastas naves com 135 por 20 metros e um pé direito de quase 8,5 metros. Paredes brancas, interrompidas por vãos de ligação e vitrinas cujo perfil oblíquo deriva das treliças estruturais, chão em betão afagado, teto suspenso em rede metálica a dissimular as infraestruturas técnicas e de onde proliferam os tubos de suporte à iluminação. A conceção volumétrica e a utilização do betão deixado aparente ou pintado de branco para evidenciar a geometria formal do edifício são referências da arquitetura brutalista de Mendes da Rocha. O edifício procura articular os espaços desconexos entre a Junqueira e rio, entre os monumentos históricos e a contemporaneidade, como polo de um eixo estabelecido com o Centro Cultural de Belém que, na década de 1980, suscitou idêntica polémica, mas que hoje está pacificamente integrado no tecido urbano e na vida da polis.

Aproveitando o aumento da área expositiva, foi possível trazer parte da coleção colocada em Vila Viçosa – a que não terá sido alheia a ligação de Natália Correia Guedes à Fundação da Casa de Bragança. Estão expostos 78 exemplares da coleção de viaturas de gala e de passeio dos séculos XVI a XIX.

Os veículos estão maioritariamente dispostos em fila, numa sequência que se adivinha cronológica, separados por baias com correias negras a impedir a aproximação excessiva do visitante, alguns, poucos, com tabelas de formato A4 com informação básica em três línguas (português, francês, inglês). O ambiente é sombrio por razões de conservação dos materiais mais sensíveis, mas a iluminação com focos orientáveis cria fortes contrastes de luz e sombras.

Este não é um “museu”: a arrumação dos veículos não tira partido do espaço; os objetos nas vitrinas estão simplesmente colocados, sem ordem, nem escala; a informação é quase inexistente e é pouco relevante. Este é apenas um lugar onde se armazenaram as peças provenientes do antigo Picadeiro Real e de Vila Viçosa.

Não se trata da criação de um ambiente analógico com o excesso decorativo do barroco, contexto original de grande maioria das peças expostas: a caixa branca pode criar um fundo propício ao relevo das formas, das cores, dos materiais. Não ó o caso desta disposição longitudinal, sem aparato museográfico, cuja ausência é interrompida por equipamentos descabidos, como as parelhas de cavalos, em modelos “ao natural”. A utilização destes modelos, condenada por Georges-Henri Rivière, está longe das encenações propostas pelo museólogo e que, hoje, embora possam ser consideradas desatualizadas, eram muito mais claras e eficazes, a remeter para o essencial e sem gerar informação visual supérflua. Não há museografia e, quando há, entre baias e modelos, torna-se excessiva e desadequada.

Museu dos Coches Foto: MIR, maio 2015

Museu dos Coches
Foto: MIR, maio 2015

Trata-se de ter espaço a mais. Num museu feito de raiz (não terá sido?), esperava-se que o espaço refletisse a coleção e o projeto museológico que lhe estivesse associado. No entanto, parece que o ocupante se deparou com uma sala imensa que foi necessário preencher. Parece até que, na expetativa de vazios insuportáveis, se abalançou a recolher tudo aquilo de que dispunha, sem outro critério ou razão para lá da imperiosa necessidade de os colmatar. Um projeto museológico é um processo de seleção. Não é necessário mostrar tudo o que se tem, mas expor em função da lógica do discurso, eliminando as redundâncias que o possam tornar impreciso ou excessivo. A repetição de veículos idênticos, a mistura de peças menos relevantes, acabam por sufocar o espaço com zonas sobrecarregadas. Trata-se de coisas em demasia e sem nexo. A exposição dos três principais coches do museu repete a museografia utilizada no Picadeiro, mantendo o coche dos Oceanos comprimido entre os coches Embaixador e Coroação de Lisboa, a exigir espaço entre eles, destacando-os na sua individualidade e riqueza de informação visual, sem prejuízo da observação do conjunto.

Coches dos Oceanos, do Embaixador e da Conquista de Lisboa Museu dos Coches Foto: MIR, maio 2015

Coches dos Oceanos, do Embaixador e da Conquista de Lisboa
Museu dos Coches
Foto: MIR, maio 2015

Trata-se, sobretudo, da ausência da narrativa. Não há textos, não há informação, não há conexões, não há histórias… Não se contextualiza, não se interpreta, não se descodifica. Não sabemos como eram usados aqueles veículos, por quem e em que ocasiões. Sabemos que há o coche dos Oceanos “integrava o cortejo, com cinco coches temáticos e dez de acompanhamento, da Embaixada por D. João V a Clemente XI”, que “é um exemplo do barroco italiano” e tem “como tema, a ligação dos Oceanos Atlântico e Índico”. Acerca dos restantes, sabemos muito pouco ou nada.

Museu dos Coches Foto: MIR, maio 2015

Coche dos Oceanos 
Foto: MIR, maio 2015

Assim, não valeu a pena a pressa e a pompa desta inauguração. Dizem-nos que se aguarda a museografia, a qual deverá estar concluída no final do ano, mas, sem museografia, não há museu. Tal como não há uma segunda oportunidade para criar uma primeira boa impressão.

Referências bibliográficas:
Coelho, A. P. (2010, 2 fev.) Sócrates lançou obra do Museu dos Coches, “sinal claro de investimento na cultura”. Público. Disponível em: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/socrates-lancou-obra-do-museu-dos-coches-sinal-claro-de-investimento-na-cultura-1420885
Pomar, A. (2010, 30 jan.) Coches: A primeira pedra. Alexandre Pomar. Disponível em: http://alexandrepomar.typepad.com/alexandre_pomar/2010/01/dia-funesto.html
Silva, R. H. (2015, 22 maio) O rei nu na cultura em Portugal e uma proposta para fazer diferente. Público. Disponível em: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-rei-nu-na-cultura-em-portugal-e-uma-proposta-para-fazer-diferente-1696375

7 thoughts on “O não-museu dos Coches

  1. O Museu Nacional de Etnologia não “está meio fechado…”. Está aberto ao público no horário normal de qualquer outro museu nacional, com três exposições patentes e dois espaços de reserva acessíveis com visita guiada, se previamente marcada. Não é por não ter as suas colecções totalmente visitáveis (nenhum museu o tem), que se deva menosprezar o trabalho lá feito.

    • Agradeço-lhe a informação e já corrigi o texto.
      Aliás, lembro-me de ter visto notícias, creio que da “reabertura” da coleção permananente, mas não retive a informação. É uma chamada de atenção para lá voltar quanto antes… Muito obrigada.
      Isabel

    • Cara Paula, deixe-me dizer que não basta um museu estar “aberto ao público no horário normal de qualquer outro museu nacional, com três exposições patentes e dois espaços de reserva acessíveis com visita guiada, se previamente marcada.” para um museu estar aberto…. É preciso que se saiba que o museu existe; é preciso que o museu se publicite; é preciso que tenha visitantes…. e que estes tenham desejo de lá ir! Assim sendo, provavelmente o Museu de Etnologia, como a maioria dos museus de Portugal, não são museus “meio fechados” mas sim museus mortos! Se não concorda, compare com o que se faz noutros lugares.

  2. Pingback: O não-museu dos Coches | TriploV Blog

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      Thank you very much!
      Best regards,
      Maria Isabel

  3. Pingback: Para onde vamos? Ou melhor para onde queremos ir | Mouseion

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