Musealizar o sagrado

“Conversas sobre arte: Musealizar o sagrado”, Museu Diocesano de Santarém, 25 abr. 2015.

A pretexto da apresentação do último número (n.º 10) da revista Invenire, o Secretariado para os Bens Culturais da Igreja promoveu uma sessão de “Conversas sobre Arte”, no Museu Diocesano de Santarém.

Invenire (10), jan.-jun. 2015.

Invenire (10), jan.-jun. 2015.

João Brigola, a quem coube a apresentação, destacou a relevância de uma revista portuguesa no domínio da cultura, com arbitragem científica e indiscutível qualidade gráfica, impressa em papel, mantendo uma periodicidade regular desde 2010 e cujos primeiros números estão já esgotados, face à tendência efémera da maioria deste tipo de publicações. E, além disso, a capacidade de não se esgotar no formato em si, propondo espaços de debate e reflexão, como iniciativa das “Conversas sobre Arte” intitulada “Musealizar o Sagrado” – ampliando o conteúdo do dossier temático da revista – com a participação de Emília Nadal, pintora de inspiração marcadamente cristã, e dos investigadores, historiadores de arte e museólogos António Filipe Pimentel, atual diretor do Museu Nacional de Arte Antiga e antigo diretor do Museu Grão Vasco em Viseu, e Dalila Rodrigues, que antecedeu António Pimentel na direção dos dois museus e coordena atualmente a Escola de Comunicação e Arte na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viseu. ((Enquanto moderadora, não pretendo fazer uma ata desta conversa, pelo que o relato que se segue é feito de memória e, portanto, sem qualquer possibilidade (nem sequer a intenção) de reproduzir de forma exata ou exaustiva as intervenções de cada um dos participantes.))

A musealização do sagrado parece envolver uma contradição, no sentido em que o sagrado é interdito e transcendente e no museu se expõe o imanente, intrínseco ao mundo material e concreto, o que suscita a necessidade refletir sobre o tema.

Museu Machado de Castro Foto: MIR, 2013.

Ostensório do Sacramento, Museu Machado de Castro, Coimbra
Foto: MIR, 2013.

A questão preliminar é, portanto, se o sagrado latu sense e, por conseguinte, os objetos ao serviço do sagrado, da religião, do culto ou da devoção podem ser expostos no museu. A resposta parte da evidência: a arte religiosa constitui um segmento importante de grande parte das coleções museológicas. Além disso, circunscrevendo o conceito de sagrado no âmbito do catolicismo stricto sensu, a santidade entitativa não se aplica aos objetos materiais, sejam eles benzidos ou consagrados pelo óleo do crisma, pelo que o Catecismo da Igreja Católica determina que todos os objetos litúrgicos adulterados ou retirados do culto são implicitamente execrados e podem assumir uma nova funcionalidade, nomeadamente, de cariz museológico.

A questão que se formula a partir daqui é acerca da forma como se expõem os objetos religiosos – iconografia, alfaias, paramentaria – no museu. Distingue-se, aqui, dois modelos museológicos: tesouros e museus de religião, a maioria de tutela eclesiástica, aos quais a Comissão Pontifícia para os Bens Culturais da Igreja tem vindo a aconselhar que assumam uma função evangelizadora e catequética; museus de arte com coleções de arte religiosa, onde, em função dos critérios que presidem à seleção, em regra, o objeto religioso torna-se um objeto artístico ou patrimonial. A exposição de apenas uma perspetiva, em detrimento, de outras trunca o sentido do objeto? Cabe ao museu, fornecer todas as “chaves de leitura”, segundo expressão de Emília Nadal, para a interpretação, compreensão do objeto que expõe, ou deve limitar-se a apresentar as componentes relativas ao próprio discurso museológico?

O museu, derivando de uma prática colecionista ancestral, é um fenómeno cultural do ocidente, surgido no contexto do Iluminismo e dos ideais revolucionários de finais do século XVIII como veículo de disponibilização do património a toda a sociedade. Foi consensual o conceito de museu como espaço universal, ou ecuménico, um lugar de memórias, mas também de paz, cuja importância, como emblema civilizacional, tem sido relevada pelos ataques “altamente performativos”, como referir António Pimentel, por parte do autodenominado Estado Islâmico. Dalila Rodrigues refletiu sobre a função do museu na sociedade atual, referindo o aspeto singular do culto da cultura e da transferência dos modelos comportamentais do espaço religioso para o espaço museológico “onde se faz silêncio”. Citando Jean Clair – que, na obra L’hiver de la culture (2011), classifica os museus como “abattoirs culturels” e “entrepôts de civilisations mortes” – Dalila Rodrigues questionava se, neste contexto, em simultâneo com a perda do sentido do sagrado e o abrandamento da prática religiosa, o museu, enquanto palco de crescente afluência de multidões heterogéneas, continua a ser o espaço mais adequado para esta fruição ou se os objetos aí expostos ainda fazem sentido para aqueles que os observam. Por outro lado, salientou a capacidade metafórica ou analógica do museu na representação do contexto original do objeto, ao mesmo tempo que o aproxima do observador.

Museu Diocesano de Santarém Foto: MIR, 2015.

Museu Diocesano de Santarém
Foto: MIR, 2015.

Todos os intervenientes concordaram na pertinência de apresentar a componente artística do objeto e, por conseguinte, na fruição estética do objeto no museu, sem prejuízo da referência ao seu conteúdo intangível. João Brigola já havia dado o mote para esta discussão ao referir a crescente iliteracia em assuntos religiosos: desconhece-se hoje, quase em absoluto, aquilo que era de conhecimento comum há algumas gerações. Foi também consensual que o cristianismo é uma componente matricial da nossa cultura, pelo que, como defendeu Emília Nadal, a referência às fontes religiosas é crucial para o conhecimento da obra de arte. Não se trata, portanto, de uma atitude confessional, relativa ao foro íntimo de cada um, mas uma circunstância que nos informa coletivamente e, como tal, deve ser assumida pelo museu no processo de mediação que estabelece com a pluralidade dos seus públicos. A representação do conteúdo intangível dos objetos integra-se no âmbito mais abrangente da função comunicacional do museu.

A comunicação tornou-se, assim, um ponto fulcral em todas as intervenções. É através das estratégias comunicacionais, complementares à exposição, que se veicula a informação relativa à semântica do objeto religioso. Não obstante, tal como referiu António Filipe Pimentel, a exaustão informativa criaria um aparato museográfico inviável e prejudicial à própria fruição. Apresentando, como referência, a custódia de Belém, o diretor do Museu de Arte Antiga salientou a pluralidade de leituras suscitadas por um objeto singular, como documento histórico, cultural, antropológico, patrimonial e artístico, a par da funcionalidade litúrgica que lhe é intrínseca. Dado que as tabelas são o elemento identificativo da peça exposta, sem pretensão de a definir integralmente, o que se aplica aos museus de tutela civil ou eclesiástica, António Pimentel relega a descodificação do objeto para a atividade mediadora do museu, a cargo dos serviços educativos, para, em seguida, referir as potencialidades comunicacionais das novas tecnologias para a apresentação dessa complexidade semântica. Salientou, ainda, a importância das exposições temporárias, como oportunidade de estudo, restauro e divulgação de um tema ou de um conjunto nuclear de objetos, propiciando a dissertação e análise, fomentando novas aproximações e releituras.

Consulta de tabela com QR Code, Museu Diocesano de Santarém Foto: MIR, 2015

Consulta de tabela com QR Code, Museu Diocesano de Santarém
Foto: MIR, 2015.

Talvez um dos pontos mais relevantes desta “conversa” foi o conceito implícito de que a musealização adequada pressupõe um corpus significativo de objetos. Trata-se de um argumento recorrente para a rentabilização das infraestruturas museográficas e para a otimização dos dispositivos de segurança, mas aqui foi também referido a pertinência de um conjunto alargado de objetos para a coerência do discurso museológico. Depois de termos assistido à euforia que presidiu à abertura de pequenos núcleos expositivos, sacristias musealizadas, que, em seguida, se viram forçados a encerrar por falta de condições e de público, é possível concluir a inviabilidade desta dispersão, propondo-se o modelo de museu centralizado como o mais adequado para reunir o espólio de uma região. Não terá sido sem fundamento que o Museu Diocesano de Santarém, onde decorreram estas “Conversas” sobre a musealização do sagrado, acaba de ser distinguido com o Prémio Vasco Vilalva, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Cumpre, por fim, felicitar Sandra Costa Saldanha pela iniciativa e pelo papel que tem vindo a desempenhar como  diretora do Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja e da revista Invenire.

Referências bibliográficas:
Invenire: Revista de bens culturais da Igreja (10), jan.-jun. 2015. Dir. Sandra Costa Saldanha. Lisboa: Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja.
Clair, J. (2011), L’hiver de la culture. Paris: Flammarion.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s