Os museus da Gulbenkian na rota de um novo ciclo

Penelope Curtis será a primeira estrangeira a dirigir o Museu Calouste Gulbenkian e anuncia-se uma inédita articulação com o Centro de Arte Moderna (CAM). Foi escolhida através de um concurso, igualmente pouco comum entre nós, percebendo-se a intenção de recrutar alguém de perfil internacional, ao ser amplamente divulgado no estrangeiro através da parceria com a  Liz Amos Associates, uma empresa de recrutamento britânica especializada na área cultural.

Museu Calouste Gulbenkian

Museu Calouste Gulbenkian

O anúncio de Penelope Curtis foi acolhido entre o entusiasmo e a reserva. Houve quem se insurgisse com o facto de se ir buscar alguém lá fora, em detrimento dos valores locais, esquecendo que o mundo em que vivemos é global e que é isso que tem permitido a presença de curadores portugueses em museus internacionais, como o João Fernandes, no Reina Sofia, de Madrid, ou Pedro Gadanho, no MoMA, em Nova Iorque. Houve quem invocasse a atuação polémica de Penelope Curtis na Tate, para argumentar que, com esta escolha, se aproveitava o refugo dos outros. Houve quem se congratulasse com a perspetiva da renovação anunciada.

Subjacente a todos os discursos, a alusão à forma como Penelope Curtis dirigiu a Tate Britain ao longo dos últimos anos, numa atuação talvez demasiado pessoal e, por isso, quase sempre envolta em polémica e com resultados que, atendendo a dados quantitativos, foram bastante desfavoráveis para a imagem do museu.

Penelope Curtis, Diretora da Tate Britain Foto: Marc Atkins

Penelope Curtis, Diretora da Tate Britain
Foto: Marc Atkins

Penelope Curtis, historiadora de arte e especialista em escultura contemporânea, arriscou na imposição das suas preferências ao promover os trabalhos de Henry Moore – antes da Tate, esteve no Henry Moore Institute – e de outros escultores britânicos. A atual exposição Sculpture Victorious é uma revisão antológica que procura reabilitar a escultura britânica da segunda metade do século XIX. “Sculpture Victorious brings out the best and the worst of a patriotic era. It is one long striving after something more stirring, ingenious, complex, inspiring […] it is everything you might expect, interspersed with the weirdest of novelties.” (Cumming, 2015, 1 mar.) E anuncia-se, entretanto, a primeira grande exposição dos trabalhos da escultora modernista Barbara Hepworth.

Jonathan Jones, editor de arte no The Guardian, sintetiza as críticas que lhe são feitas num registo quase cruel: “It is arrogant to so ostentatiously push your personal taste as the official Tate Britain view, when in my opinion, that taste is so poor.” (Jones, 2015, 1 abr.) E remata: “Tate Britain has become nothing special – nothing unique. It lacks passion, purpose, focus, energy. Above all, it lacks fun.” (Id. Ibid.)

Curiosamente, fala-se da estreiteza informativa e dos excessos em função do propósito de sobriedade, contribuindo com um muito premente argumento na discussão em torno da mediação do museu e forma como comunica os seus conteúdos. “These places offer richness, while Tate Britain, ever since it became Tate Britain, has always felt thin and parched. Its displays – despite their improvement – have a didactic narrowness.” (Id. Ibid.)

No entanto, mesmo os seus detratores (Jonathan Jones incluído), reconhecem aspetos positivos na curadoria recente da Tate. Depois da reformulação da Tate Britain, Penelope Curtis apostou na exposição da coleção permanente e melhorou os dispositivos museológicos, apostando na informação complementar multimedia.

Para lá de toda a discussão, a presença de Penelope Curtis na Gulbenkian anuncia-se como uma alternativa ao estabelecido. Ocorrerá uma inevitável mudança no paradigma museológico, quer do museu, quer do CAM, desde logo, pela articulação entre os dois polos, algo que, em certa medida, é idêntico à estrutura da Tate. Apesar da tutela comum, os domínios de cada um são diferentes, ainda que complementares: o museu, com a coleção do fundador; o CAM, com a coleção de arte moderna e contemporânea. A articulação entre ambos pode trazer uma nova visão à dinâmica de ambos os espólios. A preferência de Penelope Curtis pela arte contemporânea poderá ampliar a projeção do CAM, que tem sido preterido na adesão do público, apesar da importância da coleção e da programação das exposições temporárias. Se, pelo menos, isto for cumprido, a vinda de Penelope Curtis é bem-vinda.

Um novo olhar sobre as coleções e sobre a museografia dos locais, aliado à intenção de intensificar as relações com outras instituições, configuram um sentido de mudança, sempre benéfico à dinâmica museológica. Para lá de eventuais erros ou fracassos, aquilo que se exige ao museu, a par da exposição dos espólios, é a capacidade de se reformular em novas estratégias discursivas. Reside, aqui, a nossa expetativa face à vinda de Penelope Curtis para o Museu Calouste Gulbenkian: a abertura de um novo ciclo.

Referências bibliográficas:
Cumming, L. (2015. 1 mar.). Sculpture Victorious review: Everything here was made to make us marvel. The Guardian. Disponível em: http://www.theguardian.com/artanddesign/2015/mar/01/sculpture-victorious-tate-britain-review-observer-best-and-worst-patriotic-era
Jones, J. (2015, 1 abr.). As its director quits, Tate Britain must find the fun factor: or shut its doors. The Guardian. Disponível em: http://www.theguardian.com/artanddesign/jonathanjonesblog/2015/apr/01/tate-britain-penelope-curtis?CMP=share_btn_fb

Fonte da imagem (P. Curtis): http://www.artfund.org/assets/what-we-do/museum-of-the-year/2014/shortlist%202014/Artfund-Tate-director.jpg

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