Almada Negreiros e Orpheu

Exposição “Almada Negreiros: o que nunca ninguém soube que houve
Lisboa, Museu da Eletricidade, 12 dez. 2014 – 29 mar. 2015

Exposição “Os caminhos de Orpheu
Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, 24 mar. – 20 jun. 2015

“Almada Negreiros: o que nunca ninguém soube que houve” esteve aberta ao público no Museu da Eletricidade, de Dezembro até 29 de Março de 2015, assinalando o centenário da revista Orpheu, na qual Almada (1893-1970) teve uma participação fundamental.

Exposição “Almada Negreiros: o que nunca ninguém soube que houve” Foto: Fundação EDP; contemporânea.pt

Exposição “Almada Negreiros: o que nunca ninguém soube que houve”
Foto: Fundação EDP; contemporânea.pt

 

Relevante, sobretudo, por apresentar cerca de 70 obras inéditas ou expostas pela primeira vez, entre desenhos, pinturas e livros, provenientes do espólio da família, de coleções privadas e de instituições públicas. Na realidade, não era uma grande exposição, sobretudo, se a compararmos com a exposição “Almada: a cena do corpo”, comissariada por José de Monterroso Teixeira e apresentada no Centro Cultural de Belém (CCB), entre outubro de 1993 e janeiro de 1994, assinalando o centenário do nascimento, e cujo catálogo constitui uma obra de referência, com os contributos de Eduardo Lourenço e Raquel Henriques da Silva, entre outros.

Desde 2013, a pretexto das comemorações dos 120 anos do nascimento de Almada e o centenário da primeira exposição, têm-se sucedido iniciativas de divulgação e análise da obra deste autor, reconhecido como uma das referências da arte portuguesa do século XX, com intervenção transversal em diversas áreas, nomeadamente, na pintura e no desenho, mas também na dança, no teatro, ou na produção de textos de intervenção e crítica.

Em novembro de 2013, o Colóquio Internacional Almada Negreiros, na Fundação Calouste Gulbenkian, reuniu cerca de meia centena de investigadores, entre os quais os Professores José-Augusto França, Rui Mário Gonçalves e Duarte Ivo Cruz, que puderam anexar o testemunho direto à investigação científica. Em meados desse ano, a Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) tinha apresentado a exposição “Almada por contar”, com peças provenientes do espólio da instituição e das coleções dos herdeiros e do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. No âmbito da exposição, foi apresentado o projeto Modernismo Online: Arquivo Virtual da Geração de Orpheu, levado a cabo pelo Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL), com a colaboração da BNP e financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), para a constituição de um arquivo virtual do Modernismo português, reunindo os arquivos digitais (ou as ligações para esses arquivos) dos autores e artistas de um dos principais movimentos culturais, literários e artísticos do século XX, em que se inclui Almada. Foi também na FCG e no CCB que decorreu, por estes dias (25 a 28 de março), o Congresso Internacional Luso-Brasileiro 100 Orpheu.

E, entretanto, é também na BNP que acaba de ser inaugurada, a 24 de março e em simultâneo a uma pequena mostra bibliográfica “Orpheu acabou. Orpheu continua”, a exposição “Os caminhos de Orpheu”, comissariada por Richard Zenith, e em cujo texto de apresentação se destaca a importância de Almada que, em 1935, dedicou grande parte do terceiro número dos seus cadernos Sudoeste à memória da antiga revista. A memória dos companheiros iniciais esteve presente num livro em harmónio, reproduzido na exposição que esteve patente no Museu da Eletricidade. Na inauguração da exposição, os CTT fizeram a apresentação da emissão filatélica comemorativa do centenário da revista Orpheu, com design do Atelier B2, e em que se inclui um selo elaborado a partir da obra Lendo Orfeu nº 2, que também se encontrava na exposição do Museu da Eletricidade. Porém, nenhuma destas referências é sequer enunciada no discurso expositivo.

Apresentação filatélica “Centenário de Orfeu”, a partir da obra Lendo Orfeu nº 2, de Almada Negreiros. Design: Atelier B2, 2015.

Apresentação filatélica “Centenário de Orfeu”, a partir da obra Lendo Orfeu nº 2, de Almada Negreiros.
Design: Atelier B2, 2015.

Numa altura em que a aquisição do conhecimento e da informação se faz através de conexões e cruzamentos de fontes, não deixa de ser perturbadora a forma paralela com que estes acontecimentos se sucedem sem estabelecer relações entre si. A exposição, por si só, cristaliza-se enquanto “mostra”: as obras, originais ou reprodução, sucedem-se afixadas nas paredes ou resguardadas em mesas-vitrina sem criar pontes, estabelecer pistas, despertar a curiosidade.

Exposição “Almada Negreiros: o que nunca ninguém soube que houve” Foto: MIR, 2015

Exposição “Almada Negreiros: o que nunca ninguém soube que houve”
Foto: MIR, 2015

A qualidade da exposição no Museu da Eletricidade revela-se no cumprimento do título, ao mostrar “o que ninguém soube que houve” (( Esta expressão inspira-se no título de um livro de Almada Negreiros, escrito entre 1921 e 1922 e apresentado, pela primeira vez, nesta exposição: O Pierrot que nunca ninguém soube que houve: História trágica ilustrada com sol e palmeiras. )), mas parece ficar-se por aí. Havia um desdobrável-roteiro com um excelente texto, sucinto e explícito, de autoria de Sara Afonso Ferreira, curadora da exposição e historiadora de arte , especialista em Almada Negreiros, mas críptico na referência ao desenho da exposição. Além disso, enquanto estive na exposição, foram muito poucos os inúmeros visitantes – e havia muita gente! – a lutar com o formato pouco amigável do desdobrável. A obrigação de inserir audiovisuais numa exposição cumpria-se numa tímida apresentação de imagens, a maioria pixelizada, sem leitura, nem interação. No percurso da exposição, perdia-se o fio condutor entre o que era mostrado, entre a maquete do cartaz Boxe, o estudo para a Disposição dos painéis de Nuno Gonçalves, os desenhos para os espetáculos de dança, ou entre a procura do cânone e as referências à revista Orpheu.

Exposição “Almada Negreiros: o que nunca ninguém soube que houve” Foto: MIR, 2015.

Exposição “Almada Negreiros: o que nunca ninguém soube que houve”
Foto: MIR, 2015.

Talvez Almada justificasse uma grande exposição antológica, onde se atualizasse o conhecimento e o inventário da obra. Enquanto não acontece, seria vantajoso que as várias iniciativas, parcelares, se estabelecessem em rede, possibilitando a complementaridade dos dados disponíveis em cada.

Será bom que, um dia, as instituições e os seus agentes ajam de forma interativa na divulgação da informação – a tecnologia existe – e possamos dizer que, por isso, passemos a saber melhor aquilo que houve.

Fontes das imagens:
Exposição: http://makingarthappen.com/2015/01/19/almada-negreiros-museu-da-electricidade/jz8f7291/
Selo: http://modernismo.pt/index.php/um-selo-para-comemorar-orpheu

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