“Título, autor e data”: o que diz uma tabela?

A comunicação no museu passa pela decifrar o que está exposto. Mas pode uma tabela (( Tende a generalizar-se a designação tabela – há tempo, numas provas de mestrado, o arguente advertiu o aluno para o “erro” de designar “legenda”, um termo desatualizado, em vez de “tabela”. Não obstante, legenda significa, etimologicamente, “as coisas que são para ler, que devem ser lidas” e pode designar a informação escrita que informa, comenta ou ajuda a interpretar uma imagem, pelo que a sua aplicação em contexto museológico não pode ser considerada errada. )) com o registo do “título, autor e data”, por vezes, com o material e as dimensões, traduzir o significado da obra? Permitem, estes dados, descodificar o sentido da obra?

A informação, mesmo quando sucinta e redutora, pode ser redundante e inexpressiva. “Autor desconhecido” pode ser pertinente enquanto não-informação, ou seja, onde é a ausência dos dados o elemento significativo, mas será este um dado definitivo para a compreensão da obra? Também a referência à data, embora a situe numa linha cronológica, fornece, ao visitante comum, alguma informação sobre o contexto em que obra foi criada, ou sobre a complexidade de sistemas culturais, ideológicos, sociais, económicos, que a determinaram a ser daquela, e não de outra, forma?

Tabela da custódia de Belém no Museu Nacional de Arte Antiga Foto: MIR, 2014

Tabela da custódia de Belém no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA)
Foto: MIR, 2014

Este modelo de tabelas corresponde a uma ideia elitista que remonta aos primórdios do museu moderno. Mesmo quando se assumia a função pedagógica do museu, como instituição complementar ao ensino, prevalecia o conceito de que identificar a obra era mais importante (ou básico) do que interpretá-la. A historiografia, influenciada pela obra de Johann Joachim Winckelmann, reformulada pelos estudos formalistas de Alois Rieg e  Heinrich Wölfflin, impôs um discurso museológico assente na evolução dos estilos e, por conseguinte, no agrupamento das linguagens formais e nas suas ligações a um determinado grupo, época ou região. Porém, enquanto a reflexão historiográfica se desenvolvia noutros parâmetros, cruzando várias influências e domínios do conhecimento, a museografia, neste âmbito, deixou-se cristalizar em cânones que se tornavam cada vez mais anacrónicos e desadequados.

A semiótica (ou, de forma mais radical e abrangente, a pansemiótica de Umberto Eco) propõe uma abordagem epistemológica para lá dos dados factuais e do registo das componentes materiais, formais e visuais. Tudo tem um significado para lá da imanência. E é na formulação desta meta-informação que falha a maioria dos discursos museológicos.

MNAA, exposição FMR Foto: MIR, 2015

MNAA, exposição FMR
Foto: MIR, 2015

Há, porém, indícios de mudança no sentido de elucidar para lá do óbvio, como se depreende do artigo “Labels, digital included, assume new importance at museums”, de autoria de David Wallis (jornalista, que não aborda especificamente estes temas), publicado no The New York Times. Wallis, aliás, dá conta de uma atividade pouco usual entre nós: “Specialists often write, edit and design labels, and some museums impanel focus groups to test them. Many cultural institutions have also turned to digital technology to transform static labels into compelling interactive attractions.” (2015, 17 mar.)

Legenda do Retrato de Antonio Ghidini e família MNAA, exposição FMR Foto: MIR, 2015

Legenda do Retrato de Antonio Ghidini e família
MNAA, exposição FMR
Foto: MIR, 2015

Embora esta tendência também se verifique entre nós, nomeadamente, nas últimas exposições do Museu Nacional de Arte Antiga, ou do Museu Calouste Gulbenkian, não se encontra, ainda, a este nível de sistematização e investigação. Mesmo nestes casos, esporádicos, o discurso tende à fragmentação, sem que seja nítida a lógica ou a coerência da informação analisada globalmente. Em compensação, também não se regista o exagero de algumas situações citadas por David Wallis: nem a estratégia de comunicação se sobrepõe ao conteúdo, nem esgotam a informação disponível em exercícios de erudição académica, inteligível inter pares.

Os recursos digitais podem, no limite, perverter (ou anular) a função da tabela: numa exposição de pintura europeia antiga, em 2013, o Worcester Art Museum, em Massachusetts, aboliu as tabelas, substituindo-as por guias impressos e iPads disponibilizados ao visitante:

Instead, the museum set up iPad stations that focused on individual paintings and printed guides listing basic information, like the title, the artist’s name and the date it was acquired. Trained docents and museum guards milled about to act as truly interactive labels and provoke discussions with visitors about the art (Wallis, op. cit.)

Exposição sem tabelas Worcester Art Museum in Massachusetts Foto: Erb Photography, 2013

Exposição sem tabelas Worcester Art Museum in Massachusetts
Foto: Erb Photography, 2013

A alteração do suporte não foi acompanhada pela reformulação do conteúdo, nem é percetível se provocou alguma valia substantiva à experiência do visitante ou à compreensão da obra. O diretor do museu, Matthias Waschek, justifica que “Our ultimate goal in removing labels from the gallery walls was to create a deeper museum experience (…) We want our visitors to slow down and experience the art on their own terms.” (cit. in id., ibid.) A informação apensa à obra é remetida para a posse direta do visitante, sublinhando o conceito já estafado do museu como ambiente neutro onde as obras falem por si só em função do universo cognitivo da audiência.

A questão é que o ambiente, assim descrito, pode tornar-se demasiado estéril e artificial, sobretudo se o recetor-visitante reivindicar chaves de leitura para a compreensão das obras e do discurso enunciado pela exposição. Ficará, então, muito aquém da experiência imersiva que o museu tem vindo a anunciar. As tabelas fazem falta, tal como urge uma reflexão crítica e teoricamente fundamentada acerca da informação pertinente e adequada, bem como acerca do papel inevitável dos recursos da informação digital, dentro e fora do espaço museológico.

Referência bibliográfica:
Wallis, D. (2015, 17 mar.). Labels, digital included, assume new importance at museums. The New York Times. Disponível em http://www.nytimes.com/2015/03/19/arts/artsspecial/labels-digital-included-assume-new-importance-at-museums.html?ref=artsspecial&_r=2

Fonte da imagem (Worcester Art Museum): http://static01.nyt.com/images/2015/03/19/arts/artsspecial/19LABEL1/19LABEL1-master675.jpg

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