Iraque, um lugar de triste perplexidade

“My Nimrod, oh my Nimrod, am I still on earth, the place of sad perplexity?”
Jameson, 1848

Chegam notícias, já sem surpresa, de que, ontem, o grupo Estado Islâmico  do Iraque e do Levante (ISIL) terá saqueado e destruído a zona arqueológica de Dur Sharrukin (Korsabad), a “Fortaleza of Sargon”, construída no início do século VIII a.C. e capital da Assíria no tempo de Sargão II. Terão sido utilizadas várias escavadoras que, além dos palácios de Sargão II e do filho Senaquerib, atingiram outros edifícios e vários templos. No dia anterior, tinham destruído a antiga cidade de Hatra, datada do séc. I a.C, e declarada Património Mundial pela UNESCO; na quinta-feira, arrasaram a cidade de Nimrud, capital do império assírio depois de Senaquerib ter rejeitado Korsabad (Oates & Oates, 2001: 23) e considerada uma das principais descobertas arqueológicas do século XX; na semana anterior, invadiram, pilharam e destruíram o Museu da Civilização, em Mosul, e divulgaram um vídeo onde se viam alguns membros do ISIL a derrubar e partir esculturas pré-islâmicas. Algumas peças eram apenas réplicas, mas outras eram obras originais das épocas assíria e acádia, segundo confirmação da UNESCO.

Destruição em Nimrud.

Destruição em Nimrud.
Foto: The Independent, 8 mar. 2015.

Adel Shirshab, Ministro do Turismo e Antiguidades do Iraque tem vindo a alertar que o ISIL pretende esvaziar toda a região da sua herança humana (cfr. Dunn, 2015, 8 mar.); na conferência de imprensa do Conselho de Segurança da ONU, no passado domingo, afirmou que “The world should bear the responsibility and put an end to the atrocities of the militants, otherwise I think the terrorist groups will continue with their violent acts” (cit. in Agencies, 2015, 9 mar.).

O ISIL, que domina um auto-proclamado califado em território do Iraque e da Síria, defende uma interpretação purista e radical do islamismo sunita, que rejeita a existência de qualquer de santuários religiosos, esculturas e túmulos e procura eliminar todas as referências a cultos pré-islâmicos, considerados heréticos, através de uma limpeza étnica e cultural.

Templeo de Mrn, em Hatra, provavelmente destruído pelo ISIL. Foto: UNESCO World Heritage Site

Templeo de Mrn, em Hatra, provavelmente destruído pelo ISIL.
Foto: UNESCO World Heritage Site

Nada é mais trágico do que as execuções humanas: enquanto a história bélica nos consente a afirmação de que o homem tende desviar-se do confronto corpo a corpo, temos assistido à vontade assumida de infligir a morte em contato direto com a vítima, num registo de suprema crueldade, deliberadamente assumida e propagandeada. Mas a destruição deste património é igualmente devastadora da nossa identidade cultural e um golpe profundo nos valores de tolerância, que nos permitem valorizar as civilizações do passado e respeitar as do presente.

É a memória da nossa história – a de todos nós – que está a ser aniquilada. E se todos nós nos consideramos com direito ao património, também todos nós estamos implicados na sua defesa. Num comunicado divulgado após a destruição de Nimrud, Irina Bokova, diretora geral da Unesco, declarou que “We cannot remain silent. The deliberate destruction of cultural heritage constitutes a war crime.” (Bokova, 2015, 6 mar.), alertando que o património deve ser defendido e protegido não só no seu local de origem, como por toda a comunidade internacional.

A Convenção de Haia para a Proteção de Propriedade Cultural em Caso de Conflito Armado, assinada em 1954 na sequência da destruição provocada pela 2.ª Guerra Mundial e revista pelo Segundo Protocolo de 1999, determina um conjunto de obrigações, nomeadamente “a proibir, impedir e a fazer cessar, quando necessário, qualquer ato de roubo, de pilhagem e de apropriação indevida de bens culturais, qualquer que seja a forma de que venham revestidos esses atos” (art. IV, 3). Também a Convenção sobre a proteção do património mundial cultural e natural, da UNESCO, datada de 16 de nov. de 1972, decreta no mesmo sentido de responsabilização internacional. Contudo, a situação militar nas zonas controladas pelo ISIL tem sido invocada como impeditiva de qualquer tipo de intervenção direta por parte da comunidade internacional, deixando-nos, a todos, imobilizados face à destruição da memória do nosso passado coletivo.

Numa altura em que se intensificava o debate acerca do direito dos museus à posse de bens deslocados e se começava a formular a eventualidade da sua restituição aos locais de origem, a salvaguarda de espólios das antigas civilizações da Mesopotâmia em museus internacionais, como o Louvre, em Paris, o British, em Londres, o Metropolitan, em Nova Iorque, o Pergamon, em Berlim, ou o Oriental Institute, em Chicago, confere um novo pretexto à continuidade das coleções nos sítios onde se encontram.

Lamassu, séc. VIII a.C., palácio de Sargão II, em Korsabad. Foto: Alamy

Lamassu, séc. VIII a.C., palácio de Sargão II, em Korsabad.
Foto: Alamy

Os lamassu, ancestrais guardiões mitológicos, figuras colossais de leões ou touros alados e rosto humano, a franquear as portas do palácio, ou da cidade, já não foram capazes de os proteger das forças do mal ou da maldade dos homens.

Referências bibliográficas:
Agencies. (2015, 9 mar.). Third ancient site of Khorsabad ‘attacked by Isil’ as coalition strike on Syria oil refinery kills 30. The telegraph. Acedido em http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/islamic-state/11458343/Third-ancient-site-of-Khorsabad-attacked-by-Isil-as-coalition-strike-on-Syria-oil-refinery-kills-30.html
Bokova, I.  (2015, 6 mar.). UNESCO Director General condemns destruction of Nimrud in Iraq. UNESCO (sítio official). Acedido em http://www.unesco.org/new/en/unesco/about-us/who-we-are/director-general/singleview-dg/news/unesco_director_general_condemns_destruction_of_nimrud_in_iraq/#.VP1-JfmsXWQ
Dunn, J. (2015, 8 mar.) Isis launches assault on third archaeological site in three days in a bid to destroy centuries of human knowledge. The independent. Acedido em http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/is-are-hellbent-on-destroying-centuries-of-human-knowledge-that-challenge-interpretation-of-islamic-law-10094297.html
Jameson, R. W. (1848). Nimrod: A dramatic poem in five acts. London: W. Pickering.
Oates, J., & Oates, D. (2001). Nimrud: An Assyrian imperial city revealed. London: British School of Archaeology in Iraq.

Fontes das imagens:
Nimrud: http://www.independent.co.uk/incoming/article10089805.ece/alternates/w620/Nimrud-AFP-2.jpg
Hatra: http://www.independent.co.uk/incoming/article9563878.ece/alternates/w620/hatratemple.jpg
Korsabad: http://i.telegraph.co.uk/multimedia/archive/03224/Khorsabad_BFNY33_3224447b.jpg

2 thoughts on “Iraque, um lugar de triste perplexidade

  1. Enquanto isso, os estados-unidos, como não vêm petróleo à vista, vão fazendo vista grossa… Esta é a herança de andar a esbardalhar o médio oriente desde a primeira guerra mundial. Primeiro os ingleses, que desfizeram o império otomano por interesse. Depois a criação do estado de israel, afastando e retirando terras aos palestinianos e cirando instabilidade na região.

    E mais recentemente, as ajudas aos “mujahedin” contra a urss, que mais tarde viriam a ser os taliban, trasnformando um país que nos anos 70 era dos mais modernos na região, num antro de extremistas retrógrados. Para continuar, a guerra do iraque de 91 e depois a invasão do afeganistão e a segunda guerra do iraque… Isto tudo criou o estado islâmico. E os culpados disto tudo agora não fazem NADA para ajudar. Quando foi para ir lá destruir e tomar conta dos poços de petróleo valeu tudo, até mentir dizendo que havia armas de destruição massiva.

    Agora que têm legitimidade para lá ir, contra uma ameaça REAL que é o ISIS e a destruição de antiguidades, nem piam. E também, os palestinianos estão a ser dizimados pelos israelitas e mais uma vez, os estados-unidos, bem caladinhos estão. Não dá lucro né?

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