O Museu de Arte Antiga em discurso direto

Tenho, com o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), uma antiga relação de amor. Como muitas relações de amor duradoras, também esta é um contínuo desenrolar de encontros e desencontros, de amuos e reconciliações, de exigências e desilusões.

Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga

Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga

Foi no Museu de Arte Antiga (e no Museu da Cidade) que, no âmbito de uma pós-graduação em Museologia e Património, fiz o meu primeiro trabalho de investigação neste domínio, um estudo de público para o trabalho final sob o tema “Comunicação no museu”. Foi, portanto, aí que despertou e consolidou um gosto que se mantém até hoje. Foi, desde aí, que aprendi os caminhos do museu, os sítios a que gosto de voltar, onde continuo a gostar de me sentar e ficar a ver, onde me surpreendo e aprendo, onde me sinto em casa. Talvez por isso mesmo, mantenho em relação ao MNAA uma atitude crítica mais ativa e exigente – porque é assim mesmo com aqueles que mais nos importam.

Durante muito tempo, andei zangada com um museu que não me correspondia, ou – literalmente – não respondia! Quer para o Mestrado, quer para o Doutoramento, pedi informações e autorizações que caíram no esquecimento, sem qualquer retorno. Outros tempos, outras políticas de atuação, outras perspetivas da função, em que o museu se assumia monológico e criava barreiras de comunicação muito para lá do razoável.

Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga. Foto: MIR, 2014.

Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga.
Foto: MIR, 2014.

Porém, ultimamente, são nítidos os sinais de mudança. A letargia do museu foi interrompida por uma programação mais dinâmica e abrangente. Nem sempre isenta de crítica ou, melhor, sujeitando-se ao escrutínio da análise, mas sempre com o benefício de uma postura proactiva, sem se centrar na passividade introspetiva, assente na manutenção e na conservação, para se focar em iniciativas de maior alcance e exteriorização. A crítica, mesmo quando desfavorável, é nesse sentido, positiva, dado que incide sobre a ação. Atualmente, o museu “faz” e “acontece”.

A mudança regista-se também no domínio da comunicação. Se, na museografia das exposições (mesmo nas temporárias) ainda subsistem modelos tradicionais na transmissão da informação, na divulgação da programação e da ação museológica, a diferença é enorme e é de assinalar.

“Something has changed, and the Faustian, Promethean (perhaps Oedipal) period of production and consumption gives way to ‘proteinic’ era of networks, to the narcissistic and protean era of connections, contact, contiguity, feedback and generalized interface that goes with the universe of communication” (Baudrillard, 1988: 127)

Não conheço pessoalmente o diretor do museu, o que me deixa muito à vontade neste apontamento. Conheço a obra do Prof. António Filipe Pimentel, como historiador; lembro-me da primeira vez que o ouvi numa conferência sobre o palácio e de lhe admirar a capacidade de comunicação. Porém, essas competências, por si só, não definem um diretor de museu. Deve o diretor do museu ser um gestor? Um investigador no domínio científico correspondente à coleção? Um museólogo? Tudo isso? Ou nada disso?

Neste caso, aquilo que se me afigura mais relevante é a aptidão de criar um discurso direto. O diretor é a face mais visível do museu. E, por conseguinte, contribui para a sua visibilidade. Com este diretor, o MNAA reivindica a capacidade comunicacional da cultura pós-pós-moderna e as diversas plataformas em que a comunicação se processa com públicos plurais, sejam reais, virtuais ou potenciais.

A presença de António Filipe Pimentel nas redes sociais, nomeadamente, no Facebook é uma estratégia tão inteligente, como eficaz, de estabelecer esse discurso direto: fala do museu em tempo real; conta o que, por lá, se passa; desvenda pormenores das obras que lá estão; relembra exposições antigas (“Quem se lembra desta exposição?”); informa e disponibiliza dados completares à notícia; suscita conexões e confrontos; partilha imagens; confirma e corrige, intervém e manifesta-se, interpela e convoca, reage e responde, mantendo-se numa conversa fluída e solta, num tom coloquial, como se estivesse a trocar impressões entre amigos…

O “discurso direto” é a marca da nova narrativa, dialógica, do MNAA, onde todas as personagens adquirem voz e o enunciado se constrói em função das circunstâncias. Tem, também, a ver com uma questão de ritmo/atualização da mensagem. A reação ao comentário é um indício de que considera relevante a participação das personagens e, por conseguinte, do valor que confere à participação do recetor/público. A lógica de comunicação presencial, facilitadora da apropriação do museu e dos seus conteúdos, tem o mérito de aproximar o museu das suas audiências. Quem dera mais diretores de museu assim!

Nota:

Já depois de ter escrito este apontamento, apercebo-me que a atual direção do MNAA cumpre hoje cinco anos. Ganha, assim, um outro propósito e completa-se com as felicitações ao Prof. António Filipe Pimentel. Será justo também, estender as felicitações a toda a equipa curadorial, onde me permito salientar antigos colegas, Luísa Penalva, Anísio Franco e Joaquim Caetano. Afinal, somos nós todos que beneficiamos com a função cultural do museu que todos promovem e constroem.

Referência bibliográfica:
Baudrillard, J., & Lotringer, S. (1988). The ecstasy of communication. Brooklyn, N.Y: Autonomedia.

Fonte da imagem (fachada do museu): http://www.movenoticias.com/wp-content/uploads/2014/04/Museu-Arte-Antiga.jpg

One thought on “O Museu de Arte Antiga em discurso direto

  1. O museu está mais aberto, divulga as iniciativas atempadamente mas ainda assim
    convém lembrar que de momento não existe uma exposição permanente de pintura e escultura portuguesas digna deste nome. O novo sítio web é mais apelativo graficamente mas em termos de conteúdos é muito inferior ao anterior: a informação referente ás colecções consiste numa selecção de peças, apresentadas de forma desconexa, sem textos mais desenvolvidos sobre as colecções. A referência à história do museu é quase nula…. As exposições permanentes continuam muito pouco didácticas.
    Ainda assim, sem dúvida que o museu está melhor que nunca e as críticas acima pretendem ser construtivas e servir a que o museu ainda seja melhor.

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