Apontamentos: vias da arte contemporânea portuguesa após o 25 de Abril

Em Portugal, com um atraso em relação aos contextos europeu e norte-americano, costuma marcar-se a década de 1970 como ponto de viragem da arte contemporânea pós-moderna, coincidindo com a maior abertura política e cultural da época marcelista e a com as vanguardas emergentes após a revolução de 25 de abril de 74. Logo em 1977, a exposição Alternativa Zero, concebida e comissariada por Ernesto de Sousa constitui uma ocorrência decisiva na contemporaneidade da arte portuguesa, introduzindo o conceito de arte intermedia, isto é, a arte que articula variadas formas de expressão visuais e performativas. Esta exposição, ao mesmo tempo que faz o um balanço da produção artística portuguesa mais alinhada com a arte contemporânea internacional, revela também os artistas – Alberto Carneiro, Clara Menéres, João Vieira, Helena Almeida, Julião Sarmento, Ângelo de Sousa, Noronha da Costa e Fernando Calhau, entre outros – e as tendências mais relevantes das décadas seguintes, em que a rutura se conjuga com a hibridez dos meios, dos processos e das próprias expressões artísticas.

Vista da exposição Alternativa Zero, 1977.  Foto: Col. Fundação de Serralves.

Vista da exposição Alternativa Zero, 1977.
Foto: Col. Fundação de Serralves.

Alberto Carneiro explora o campo da instalação, ou, como ele refere, uma “escultura natural”, para onde importa as evocações do mundo rural e de uma primordial relação com a terra, num percurso telúrico que mantém até à atualidade. Carneiro é considerado pioneiro na articulação arte-ecologia, embora se mantenha autónomo dos desenvolvimentos da land art.

Uma floresta para os teus sonhos Alberto Carneiro, 1970 Instalação: Troncos de madeira de pinho tratados. Foto: FCG/CAM

Uma floresta para os teus sonhos Alberto Carneiro, 1970
Instalação: Troncos de madeira de pinho tratados.
Foto: FCG/CAM

Em contrapartida, João Vieira e Helena Vieira perseguem uma via mais conceptual e híbrida na utilização de materiais menos comuns, na conjugação de técnicas e no envolvimento do próprio corpo. João Vieira desenvolve uma pintura letrista, assente na componente gráfica do texto e nas possibilidades das conexões entre o significado e o significante. Helena Vieira envereda pela intervenção da pintura ou do desenho sobre a representação fotográfica do próprio corpo. Na série Inhabited Painting, de 1975, encena autoretratos, sublinhados por traços ou manchas de tinta azul.

Instauram, desta forma, uma pesquisa de vanguardas em torno do conceito subjacente à criatividade que, nas décadas seguintes, tende a ampliar-se e a dominar as restantes expressões artísticas.

A conjuntura pós-revolucionária impulsionou o aparecimento de uma nova dinâmica no âmbito da arte portuguesa nos finais do século XX: a consolidação em Portugal e no plano internacional de artistas como Paula Rego, Luís Pinto Coelho, Júlio Pomar e Julião Sarmento; a pesquisa em torno das tendências de vanguarda no âmbito do minimalismo, abstracionismo e pós-conceptualismo, por parte de autores como Eduardo Batarda e Álvaro Lapa; o chamado “regresso à pintura”, com novas figurações, com o predomínio da figura humana, em expressões realistas, líricas, espontâneas, de Graça Morais, Menez, António Palolo, Leonel Moura ou António Dacosta. No âmbito da escultura, destaca-se o grupo de Pedro Calapez, José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis e Rui Sanches.

Desenham-se, aqui, duas tendências genéricas para uma possível caraterização da arte contemporânea desde finais do século XX: a representação da figura em novos moldes, no sentido em revelam um universo introspetivo diferente de autor para autor; a pesquisa orientada para a arte concetual baseada na apropriação de outras expressões.

Nota: Estes são apenas “apontamentos”, num eventual ponto de partida para futuras análises e desenvolvimentos. Fica a porta aberta a todos (e, em particular, aos implicados no processo) os que quiserem também quiserem contribuir, em comentário, com referências acerca dos autores e grupos de trabalho.

2 thoughts on “Apontamentos: vias da arte contemporânea portuguesa após o 25 de Abril

  1. O artigo é correcto em alguns pontos mas extraordinariamente redutor e incompleto na sua análise.
    Ignora, ao que parece deliberadamente,alguns autores e grupos de trabalho,sem os quais a tal “história” que conta não faz sentido.

    • Completamente de acordo com o seu comentário: são apenas “apontamentos”, ponto de partida para futuras análises e desenvolvimentos. A “história” creio que ainda está dispersa e fragmentada. Fica a porta aberta a todos (e, em particular, aos implicados no processo) os que quiserem contribuir com referências e comentários acerca dos autores e grupos de trabalho.

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