O dilema do museu: permitir, regular ou proibir?

O museu nasceu com o duplo propósito de constituir um repositório da identidade cultural de território – na mesma altura em que também se firmava o conceito de nação e intensificava o desejo imperialista – e de torna-lo acessível a toda a sociedade. O museu tornou-se, assim, um espaço onde as classes mais baixas, pelo menos teoricamente, podiam usufruir de um património que até então tinha sido privilégio exclusivo da aristocracia, do clero ou da alta burguesia. Por conseguinte, o museu instituiu-se como um espaço de prestígio social e cultural, a par do consumo de outros produtos culturais considerados eruditos, como o teatro, a música, o bailado e a ópera.

Mostra Vaticana, 1888.

Mostra Vaticana, 1888.

Manteve-se, assim, como espaço simultaneamente acessível e reservado, ao longo de quase duas centúrias. A ida ao museu tornou-se uma quebra na rotina do quotidiano até ao limite da representação da imagem em que o indivíduo se projeta, bem como da sua capacidade de integração num grupo onde se pretende afirmar.

In reality, the museum visitor experience is no more than a series of snapshots of life, artificially bounded by our own need to frame what happens in the museum as not only important but separate. However, for the public that visits museum these experiences are often neither readily delineated nor seen as singular events. (Falk, 2009: 35)

O desenvolvimento das rotinas de entretenimento após a Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, após o intensivo aparecimento de novas indústrias de lazer, de aprendizagem e de comunicação propiciadas, a partir da última década do século XX, incutiram nos profissionais de museu uma crescente inquietação em torno do público. Além do propósito de fixar o público convencional, o museu enfrenta o desafio de conquistar novas audiências face à concorrência de outras atividades mais próximas e imediatas e, sobretudo, com um cunho de modernidade que padroniza uma nova promoção e reconhecimento social.

O museu assume, por conseguinte, o objetivo contingente de modernizar as suas próprias dinâmicas, superando-se para lá da conservação e exposição dos espólios. Reinventa-se através de novas estratégias performativas, ao mesmo tempo que se adequa a uma maior fluidez de condutas e procedimentos. Enquanto alguns louvam este refrescamento e outros temem o fim do ambiente formal e reflexivo – intimista ou intimador? –, quase solene do museu tradicional.

Além disso, ainda, enquanto alguns se interrogam se isto se traduz não só no aumento, mas na melhoria da audiência, há quem questione se é possível estabelecer categorias de qualidade dos públicos, defendendo que a missão principal do museu é alargar a acessibilidade e as perspetivas de fruição a todos, dos mais eruditos aos mais convencionais, dos mais interessados aos mais apáticos em relação ao património, criando-lhes novas alternativas e fomentando novas perspetivas e abordagens.

Para lá de todas as controvérsias, é inevitável a constatação de que o museu tende a democratizar-se: não apenas o cumprimento da função primordial do museu de proporcionar a fruição do património a todos, mas de se tornar num espaço efetivamente aberto a todos.

O museu pretende-se inclusivo e a imagem das salas cheias de visitantes heterogéneos, a par da divulgação do aumento percentual do público, é vista como uma das mais eficazes estratégias de promoção. Por isso, a maioria dos museus permite a utilização de dispositivos móveis e, portanto, não apenas permite a captação de imagens, como toma a iniciativa de as divulgar nas redes sociais, despenalizando e encorajando procedimentos idênticos por parte do público, com a valia acrescida de uma publicidade convincente e gratuita.

Ou permitia…

Ontem, o The New York times publicou um artigo intitulado “Museum rules: Talk softly, and carry no selfie stick”, no qual William Grimes reflete que:

Museums have always struggled with an intrinsic conflict: how to expose their collections to the maximum number of visitors while protecting their priceless treasures. Their efforts are generally encoded in a set of guidelines, some universal – a do not touch the art, do not smoke, do not bring food, do not talk on a cellphone – and some quite particular. (Grimes, 2015. 14 fev.)

A proibição destes acessórios nos museus norte-americanos, mais do que debatida, tem sido defendida, elogiada e extrapolada.

Selfie no American Museum of Natural History Foto: Hiroko Masuike/The New York Times

Selfie no American Museum of Natural History
Foto: Hiroko Masuike/The New York Times

Jonathan Jones, colunista no The Guardian, já tinha referido numa das suas crónicas que “At last, someone has stood up to the swilling tide of pseudo-democracy that threatens to turn museums into playgrounds and shopping malls. The selfie stick is now banned in many New York museums.” (Jones, 2005, 6 fev.)

As razões da proibição são compreensíveis: o selfie stick é um bastão que, impelido acidental ou deliberadamente contra uma obra, pode causar danos sérios, além poder constituir uma ameaça à segurança pessoal do público, incluindo de quem os usa. Por isso, alguns museus proíbem o uso dos selfie sticks, mas não as selfies.

"No Selfie-Sticks" but selfies Foto: shootbklyn, jan. 2015.

“No Selfie-Sticks” but selfies
Foto: shootbklyn, jan. 2015.

Mas, mais do que isso, a proibição dos selfie sticks constitui um pretexto rapidamente aproveitado para relançar a questão em torno dos comportamentos no museu. Enquanto o artigo do The New York Times coloca ao mesmo nível o “falar baixo” e “não levar o  selfie stick”, Jonathan Jones vai mais longe, ao afirmar que “selfie sticks are not just a physical danger to museum collections. They are also a spiritual menace – as are selfies themselves, and cameras, and smartphones” (Jones, 2005, 6 fev.). E justifica: “A museum should be a place of calm contemplation. (…) Art is serious. It is not light entertainment.” (Id., íbid.) E insiste: “some freedoms, in museums, need to be denied. Museums ought to be places with strict rules.” (Id., íbid.)

O museu é um lugar regulado, definido por um conjunto de regras que limitam as manifestações mais espontânea e, em extremo, configuram um comportamento metódico e ritualizado.

John H. Falk, nas conclusões da sua pesquisa acerca da experiência no museu (( Falk identificou cinco categorias de público nos museus: os Explorers, que vão ao museu por uma curiosidade dispersa; os Facilitors, que são levados ao museu sob o pretexto de que isso os beneficia; os Experience Seekers que cumprem uma obrigação social; Professionals/Hobbiests que vão por motivos profissionais ou por um interesse pessoal; e os Rechargres, que encaram a ida ao museu como uma oportunidade de descompressão e deleite introspetivo. )) definiu a experiência no museu como um processo de interação entre o museu e o visitante: “The museum is not na island onto itself, but a dynamic interation between visitors and museums (…). The museum’s impact in a community is the sum of the individual perceptions” (Falk, 2009: 241). No confronto entre estas conclusões e as recentes considerações acerca do comportamento adequado a observar no museu, nomeadamente em relação ao uso de dispositivos móveis (vd. Olhar com diferentes modos de ver), parece lícito a discussão acerca da relação entre o museu e o público, bem como acerca da função do museu na contemporaneidade.

Referências bibliográficas:
Falk, J. H. (2009). Identity and the museum visitor experience. Walnut Creek, Calif: Left Coast Press.
Grimes, W. (2015. 14 fev.) Museum rules: Talk softly, and carry no selfie stick. The New York times. Acedido em: http://www.nytimes.com/2015/02/15/us/museum-rules-talk-softly-and-carry-no-selfie-stick.html?smid=fb-share&_r=0
Jones, J. (2005, 6 fev.) New York museums are banning selfie sticks? What a heroic idea. The guardian. Acedido em: http://www.theguardian.com/artanddesign/2015/feb/06/selfie-sticks-banned-new-york-museums-moma

Referências das imagens:
Rondina, F. S. (1888). La Mostra Vaticana: álbum illustrato dei doni offerti a Sua Santità Leone XIII. Roma: Gustavo Bianchi e Comp. Editori, p. 294.
http://museumselfies.tumblr.com/post/108204809646/shootbklyn-no-selfie-sticks-but-photography
http://www.nytimes.com/2015/02/15/us/museum-rules-talk-softly-and-carry-no-selfie-stick.html?smid=fb-share

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