Olhar com diferentes modos de ver

A imagem de um grupo de adolescentes, sentados numa sala do Rijksmuseum, em Amsterdão, junto à Ronda da Noite (aliás A companhia militar do capitão Frans Banning Cocq e o tenente Willem van Ruytenburg), de Rembrandt, concentrados na consulta de smartphones tem sido alvo de muita polémica e ponto de partida para muitas discussões, desde que, no passado mês de dezembro, começou a circular nas redes sociais.

Rijksmuseum, Amsterdam  Foto: Gijsbert van der Wal, 27 november 2014

Rijksmuseum, Amsterdam
Foto: Gijsbert van der Wal, 2014

Também tem sido publicada repetidamente no grupo do Facebook “Arte, museus e Património”; a última foi ontem e suscitou uma série de comentários, alguns bastante inflamados, a maioria contra os adolescentes. Há quem lhes chame “idiotas de m…”; há quem diga que estão “embriagados em net”; há quem fale “ da forma como hoje as pessoas são educadas para não ver o que as rodeia”; há quem advirta que a imagem pode ser enganadora e que o grupo pode estar, simplesmente, a consultar o guia multimédia elaborado pelo museu e para acompanhar as visitas de estudo…

Seria interessante perceber se, em vez de smartphones, estes adolescentes estivessem concentrados sobre folhas de papel, as reações seriam as mesmas. Se a indignação tem a ver com a alheação face à obra de arte ou com a resistência – ou o medo! – em relação ao predomínio das novas tecnologias no nosso quotidiano.

Seria também curioso comparar a imagem destes adolescentes absortos com as imagens de grupos de passantes que percorrem as salas, cumprindo um programa sem olhar, nem ver. Há quanto tempo há gente que cumpre o ritual da ida ao museu, sem o propósito de olhar e ver?

Público no Metropolitan Museum of Art Foto: MIR, 2014.

Público no Metropolitan Museum of Art
Foto: MIR, 2014.

Em 2009, Marcel Berlins descrevia esta mudança de comportamentos, dizendo que “These people were at the museum not to admire the art, but to take snaps to prove they were there”, para concluir que “Anyone wanting to snap an exhibit ought to be forced to look at it first for at least a minute – or be fined” (Berlins, 2009, 13 mai.) Porém, já uma década antes, lembro de ver hordas de visitantes japoneses a posar junto da Gioconda, ou nos grandes museus de Paris, Londres, Roma, Florença, e seguir… Lembro-me, na Expo’98, da quantidade de gente que percorria os pavilhões de máquina de filmar em punho, olhando apenas através da câmara – e lembro-me de gente a cair à água, na reconstituição do batistério paleocristão existente numa plataforma elevada no Pavilhão da Santa Sé, por simplesmente não o terem visto, distraídos que estavam a filmar à volta…

Não ver o que nos rodeia não é apanágio de agora, nem é um exclusivo desta geração milenial. Mas também não significa o fim da nossa capacidade percetiva. Talvez se tenha perdido algo de uma idealizada experiência imersiva na arte, das competências de uma concentração multissensorial e da apreciação essencialmente estética. Talvez se tenha perdido uma forma de sentir a realidade de forma direta e absoluta, sem recurso a conetores artificiais. E, no entanto, já Platão, em finais do século IV a.C., escreveu a alegoria da caverna (A República, VII, 514 a, 2 – 517 a, 7), como uma metáfora da prevalência da ignorância ou de uma falseada perceção da realidade, demonstrando que, afinal, a alienação é um fenómeno tão antigo como a aquisição do conhecimento.

Agora, é através do confronto entre a tradição da pintura de Rembrandt e a contemporaneidade deste grupo de adolescentes, que nasce o pretexto para o debate acerca dos efeitos da sociedade de informação.

Afinal, o que estão estes miúdos a fazer? De facto, podem estar simplesmente a utilizar a app do museu para compreender a pintura, procurar dados complementares, ver detalhes em realidade aumentada, comparar com outras obras, personalizar a experiência da visita ao museu em função do próprio gosto e interesse, multiplicar os modos de ver e as referências epistemológicas. Podem estar a partilhar a experiência com o resto do mundo, através do Twitter, do Facebook, ou do Instagram, ou podem estar a usar o Multimedia tour: Family game ou a preparar-se para o Rijksstudio Award 2015. E, com isso, ampliar o conhecimento acerca da obra.

Hoje, em essência, aprende-se da mesma maneira que outrora. Porém, mudam os instrumentos da investigação que hoje é mais dinâmica, colaborativa e interativa, ao mesmo tempo que o acesso aos dados é mais rápido e em quantidade mais avassaladora do que outrora. Uma mudança de paradigma, em certa medida, ao que ocorreu no Renascimento com a invenção da imprensa e a consequente revolução na difusão do conhecimento. Poderemos lutar contra as contingências da mudança, como se fosse possível alterá-las? Ou será mais válido considerá-las em sentido positivo e aproveitá-las em prol do desenvolvimento?

Resta-nos constatar a realidade das novas tecnologias e integrá-las, com proveito, no quotidiano da aprendizagem e da aquisição do conhecimento. Resta, aos museus, utilizá-las de forma abrangente e plurifacetada, como canal informativo ou lúdico, capaz de conduzir a nossa atenção para as obras que expõe. Cabe, a todos nós, saber utilizá-las e ensinar o uso, como uma forma complementar de ver e aprender.

Espera-se que as novas tecnologias ajudem a melhorar a visita ao museu, compensando os percursos demasiado extensos e cansativos, fornecendo elementos de comunicação que permitam ao público definir o próprio sentido da visita, melhorando os circuitos através da dispersão dos visitantes, dinamizando os diversos modos de ver.

Quanto à imagem dos miúdos no Rijksmuseum, este é apenas um modo de ver.  E que não me parece melhor ou pior do que os modos de ver dos miúdos das gerações passadas. É apenas outro. O seu e, no caso, o meu, também, quantas vezes!

Referência bibliográfica:
Berlins, M. (2009, 13 mai.)These people were at the museum not to admire the art, but to take snaps to prove they were there. The Guardian. Disponível em: http://www.theguardian.com/commentisfree/2009/may/13/moma-st-peters-basilica-mobile-phone-cameras

Foto: http://www.flickr.com/photos/37998864@N04/15893868835

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