Acerca do que (ainda) falta ao património

A articulação do património (do latim patrimonium, herança do pai) à cultura surgiu no século XVII, numa crescente tomada de consciência da necessidade de preservação dos bens herdados do passado, a partir do qual se desenvolveu o atual conceito de património cultural, no sentido de “conjunto de todos os bens que constituem os testemunhos de uma civilização ou de uma cultura, contribuindo para a construção da identidade cultural de um povo ou para a representação do pensamento, da criatividade e das realizações alcançadas pela humanidade” (Roque, 2012, p. 69).

Mosteiro de Alcobaça: deambulatório da igreja Foto: MIR, 2014

Mosteiro de Alcobaça: deambulatório da igreja
Foto: MIR, 2014

Embora seja corrente associar a emergência deste conceito com a depredação de alguns dos bens confiscados ao clero e à nobreza no contexto da Revolução Francesa, como uma reação à depredação sofrida pelos bens confiscados, em Portugal, as primeiras ações visando o enquadramento legal da proteção do património monumental são anteriores, remontando ao primeiro quartel do século XVIII, dado que, em 1720, o rei D. João V instituiu a Academia Real da História Portuguesa, à qual competia o estudo e a salvaguarda do património.

Na sequência deste conceito, definiram-se as funções patrimoniais: custódia, inventariação, estudo e salvaguarda, regulação da acessibilidade e classificação. Em síntese, distinguem-se duas linhas de atuação: a preservação, que envolve uma série de políticas de atuação e de procedimentos práticos para garantir a integridade do bem; a valorização, implicando a pesquisa e investigação, acesso e fruição, divulgação, sensibilização e comunicação ou mediação.

Sob pretexto de que o património não nos pertence, mas de que somos apenas os seus guardiões-intermediários com a incumbência de o transmitirmos às gerações futuras, criou-se uma ficção da função patrimonial imobilizada em torno do binómio “segurança-conservação”. Os agentes da ação museológica designam-se “conservadores” ou “curadores”, o que remete para a prática de zelo e conservação dos bens patrimoniais.

Em Portugal, nas últimas décadas ou, mais propriamente, após a criação de um organismo de tutela destinado especificamente ao património museológico – Instituto Português de Museus (IPM), Instituto dos Museus e da Conservação (IMC), Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), e no âmbito do Inventário dos Bens Culturais Móveis, coordenado por Maria José Moura, entrou nos museus uma nova geração de historiadores de arte que dinamizaram os museus para a investigação e estudo das coleções e que mantêm uma atividade relevante neste domínio, assumindo a curadoria científica de projetos de remodelação museológica e das mais algumas das mais marcantes exposições temporárias que se têm feito em Portugal.

Aparentemente, estão cumpridas vertentes matriciais das funções patrimoniais – a preservação e a investigação – tendo em conta que a exposição, ou a abertura à fruição pública, é uma funcionalidade implícita à condição de museu ou monumento. Mais ainda, este é um direito consagrado no articulado da Lei de Bases do Património: “Todos têm direito à fruição dos valores e bens que integram o património cultural, como modo de desenvolvimento da personalidade através da realização cultural.” (Lei n.º 107/2001, de e 8 de Setembro, tit. II, art,º 7.º, 1).

Temos obrigação de preservar o património para o transmitirmos, às gerações vindouras. E isso, de alguma forma, com mais ou menos situações pontuais, tem vindo a ser substancialmente cumprido. O futuro vai ter direito ao património que nos foi legado como herança.

E nós? Também temos direito a usufruir do património? Ou a obrigação de preservar o património acaba por ocultar o direito que todos nós temos à sua plena fruição? Ou a obrigação de estudar o património que nos foi legado, o remete para uma plataforma de conhecimento erudito que definitivamente o afasta da comunicação para uma audiência mais genérica?

O que falta ao nosso património? Definitivamente a capacidade de se desvendar, de se mostrar na globalidade das suas facetas, de esclarecer os enigmas que a maior parte de nós não consegue compreender, de contar o que não sabemos, de nos devolver a memória do que foi.

O que falta ao nosso património? Que, nos museus e monumentos, o trabalho dos conservadores e dos investigadores, seja complementado com as competências de museologia e de mediação e de comunicação cultural. Que, em cada sítio, haja quem assuma a função de identificar e interpretar o que está ao alcance do nosso olhar, mas não da nossa compreensão. Que haja quem transforme a epistemologia numa linguagem acessível ao grande público e a disponibilize em complemento ao património exposto. Que haja equipamentos de acessibilidade física e intelectual à cultura.

Texto informativo no Convento de Cristo, em Tomar. Foto: MIR, 2013.

Texto informativo no Convento de Cristo, em Tomar.
Foto: MIR, 2013.

Ao entrar num monumento, quero saber a história daquele lugar e as histórias de quem lá viveu, quero saber a razão e a função de cada aposento, a lógica dos espaços; ao entrar num museu, quero identificar o que vejo, a conotação para lá do que é aparente; ao visitar uma exposição, quero compreender a narrativa inerente ao discurso. Será que queremos todos?

E mesmo que sejam apenas alguns a querer ir um pouco mais além no conhecimento do que está exposto, não têm os museus e os monumentos a obrigação de dar resposta cabal às expetativas dos seus públicos plurais e de disponibilizar os instrumentos, quer para a aquisição do conhecimento, quer para a criação de uma impressão sensível ou de experiência imersiva? Ao nosso património, falta quem desenvolva a capacidade de interlocução e possa cumprir a competência comunicacional e mediadora. Falta captar o interesse e a atenção. Falta a formulação de uma mensagem acessível e inteligível na descodificação dos significados e das conotações que lhe são intrínsecas. Falta a criação de laços e conexões, através das quais se desenvolve a consciência do indivíduo face àquilo que o rodeia.

Túmulo de Inês de Castro. Mosteiro de Alcobaça. Foto: MIR, 2014

Túmulo de Inês de Castro.
Mosteiro de Alcobaça.
Foto: MIR, 2014

Antes das gerações vindouras, estão as gerações de agora. É a estas que importa transmitir o gosto e o conhecimento do património, porque são elas as mais imediatas destinatárias do que o passado nos legou e serão elas que o irão transmitir ao futuro. É às gerações de agora que o património pertence, é a elas que compete gostar, compreender, experimentar, saber, para que o possam transmitir a quem nos suceder. Afinal, o que falta ao nosso património é a capacidade de manter viva a memória junto de quem irá passar o seu testemunho.

Referência bibliográfica:
Roque, M. I. R. (2012). O museu de arte perante o desafio da memória. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 7(1), 67–85. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/bgoeldi/v7n1/a06v7n1.pdf 

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