Arte ou conceito? – através da obra de Jeff Koons e Joana de Vasconcelos

No balanço da museologia de arte contemporânea em 2014, salientam-se os nomes de Jeff Koons e de Joana de Vasconcelos. Se ambos são olhados com desconfiança pelos pares e por uma (pseudo) elite artística e intelectual, denunciando a linguagem rudimentar e o discurso mediano da produção mais recreativa do que recreativa – ambos se limitam a alterar escalas, materiais e texturas, apropriando-se das criações de outrem – a verdade é que ambos conseguem o reconhecimento das massas graças a uma produção facilmente reconhecível, compreensível e apreensível. Ambos se situam num registo de Pop Art ou, mais propriamente, na corrente Neo-Pop, e, portanto, a sua obra é essencialmente popular e dirigida a um público alargado, ao homem comum e medianamente informado.

Contaminação  Joana Vasconcelos, 2008-2010 Exposição "Joana Vasconcelos. Sem rede", Museu Colecção Berardo,  Foto: MIR, 2010.

Contaminação
Joana Vasconcelos, 2008-2010
Exposição “Joana Vasconcelos. Sem rede”, Museu Colecção Berardo,
Foto: MIR, 2010.

2014 foi um ano decisivo para a popularidade de Jeff Koons: uma grande exposição retrospetiva – “Jeff Koons: a retrospective” – no Whitney Museum of American Art, em Nova Iorque, entre junho e setembro, com 250.000 visitantes, posteriormente reposta no Centre Pompidou, em Paris, desde novembro e até abril próximo, e anunciada no museu Guggenheim, em Bilbau, a partir de junho.

Exposição “Jeff Koons: a retrospective”, Nova Iorque. Foto: MIR, 2014.

Exposição “Jeff Koons: a retrospective”, Nova Iorque.
Foto: MIR, 2014.

Já em 2013, a cotação do artista atingira um nível inusitado quando o Balloon Dog (Orange) foi vendido num leilão da Christie’s por $58.4 milhões de dólares, tornando-se “the most expensive work by a living artist sold at auction” (Vogel, 2013, 12 nov.), gerando uma grande expetativa para a venda do Balloon Monkey (Orange), em novembro último. Não obstante e apesar de beneficiar da enorme campanha publicitária, aproveitando â dinâmica gerada pela retrospetiva – a exposição da peça monumental à entrada da leiloeira na Rockefeller Plaza, durante seis semanas, fomentava a relação entre os dois eventos – e sublinhando os aspetos explicitamente eróticos, a peça acabou por ser vendida por 25.9 milhões, sem atingir o valor mais elevado do preço estimado.

Balloon Monkey (Orange) at Christie's Rockefeller Center Jeff Koons, 2006-2013 Foto: Noel Y. C., 2014.

Balloon Monkey (Orange) at Christie’s Rockefeller Center
Jeff Koons, 2006-2013
Foto: Noel Y. C., 2014.

Para Joana de Vasconcelos, 2014 foi também um ano de continuidade do sucesso obtido no ano anterior, quer pela retrospetiva no Palácio da Ajuda, a exposição individual mais vista de sempre em Portugal, com mais de 178 mil visitantes, quer pela participação na la 55.ª Bienal de Veneza com a recriação de um antigo cacilheiro: o Trafaria Praia, adquirido pela Douro Azul, esteve a realizar duas a três viagens diárias no Tejo entre abril e outubro; a exposição individual “Time Machine, apresentada entre fevereiro e junho na Manchester Art Gallery, a mais completa exposição da artista até à data, com 24 obras, 10 das quais inéditas e uma, Britannia, elaborada propositadamente em função do espaço; uma exposição mais intimista, apenas com trabalhos inéditos de menor escala, na Casa Triângulo em São Paulo; referências em artigos de fundo publicados em periódicos tão diversificados como a Vogue Brasil (Astuto, 2014, abr., 174-175) ou o The Telegraph (Buck, 2014, 28 mar.) e o Le Figaro (Duponchelle, 2014, 15 set., 38).

Britannia Joana Vasconcelos, 2014 Exposição “Time Machine”, Manchester Foto: Luís Vasconcelos, 2014.

Britannia
Joana Vasconcelos, 2014
Exposição “Time Machine”, Manchester
Foto: Luís Vasconcelos, 2014.

Podemos tentar reduzir Jeff Koons às representações explícitas da vida sexual com a atriz porno Cicciolina ou aos bonecos colossais e brilhantes, como podemos tentar restringir Joana de Vasconcelos à categoria de artista “do regime”. Podemos desprezar o kitsch assumido nos seus trabalhos, podemos distinguir o mercado bolsista da arte e as grandes mostrar promocionais da verdadeira criação artística… Podemos, até, sentir o enfado de uma arte contemporânea que parece ter dificuldade em afastar-se de uma linguagem mais conceptual que estética. E podemos rotular as vias desta arte como medíocre e oca. Mas não podemos ignorar que são estes os artistas que a sociedade reconhece, avalia e promove.

São os artistas que nos definem e se ajustam à nossa época. Não promovemos outra arte. Não há mecenas, nem mercado, nem público para os artistas que procuram novas vias da criatividade e a que reconhecemos valor. Jeff Koons e Joana de Vasconcelos são os artistas que merecemos e a que temos direito.

Fala-se, hoje, numa mudança de paradigma civilizacional e cultural em que todos somos protagonistas, incapazes, portante, de assumir uma visão crítica e isenta dos fenómenos. Por isso, hoje, quando falamos de arte, falamos de quê? Se ao longo do século XX, a arte genericamente dita contemporânea era marcada por sucessivas ruturas, como se descreve a arte da geração millennials? Talvez a par das ancestrais expressões artísticas, esteja a surgir uma nova forma de arte, em que se mesclam técnicas e tecnologias, materiais e ideias, em correspondência com as matrizes de comunicação e visualidade, da aceleração e da globalização que determinam o nosso quotidiano e poderão vir a marcar o surgimento de uma nova civilização.

Jeff Koons e Joana de Vasconcelos exploram as capacidades significativas e conotativas dos objetos, até das obras de outros artistas – veja-se a série Gazing Ball, de Koons, ou cerâmicas de Bordalo Pinheiro apropriadas por Joana de Vasconcelos – e procuram estabelecer relações semânticas em contextos diferenciados.

Gazing Ball (Belvedere Torso) Jeff Koons, 2013 Exposição “Jeff Koons: a retrospective”, Nova Iorque. Foto: MIR, 2014.

Gazing Ball (Belvedere Torso)
Jeff Koons, 2013
Exposição “Jeff Koons: a retrospective”, Nova Iorque.
Foto: MIR, 2014.

Assim, poderá ser um equívoco considerá-los artistas, procurando ajustá-los às funções e competências que a arte assumiu a partir da tradição clássica. Talvez eles sejam, sobretudo, os pioneiros de uma nova linguagem: não criativa, mas re-criativa; não visceral, mas superficial e dispersa; não substancial, mas metafórica; não artística, no sentido literal, tradicional, do termo, mas apenas conceptual. Podem não ser artistas e ser – apenas (?) – comunicadores visuais, que formulam o enunciado de uma obra de leituras plurais e subjetivas, mas genéricas e imediatas. Em consonância com o nosso tempo.

Referências bibliográficas:
Astuto, B. (2014, abr.). Casa da mãe Joana. Vogue Brasil (428), 174-175.
Buck, L. (2014, 28 mar.). A trip in Joana Vasconcelos’s Time Machine. The Telegraph. Acedido em http://www.joanavasconcelos.com/multimedia/bibliografia/imprensa/2014_03_28_The_Telegraph.co.uk_Louisa_Buck.pdf
Duponchelle, V. (2014, 15 set.). Au Brésil, l’art rue dans les brancards. Le Figaro et vous magazine, p. 38.
Vogel, C. (2013, 12 nov.). Auction Highlights From Christie’s: Some of the notable works at the Christie’s sale of postwar and contemporary art on Tuesday night. The New York Times. Acedido em http://www.nytimes.com/2013/11/13/arts/design/bacons-study-of-freud-sells-for-more-than-142-million.html?_r=0

Fonte das imagens:
Balloon Monkey: https://www.flickr.com/photos/nyclovesnyc/15451330810/
Britannia: http://irenebrination.typepad.com/irenebrination_notes_on_a/2014/04/joana-vasconcelos-time-machine.html

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