A festa do Natal

Nos Evangelhos canónicos, a referência ao nascimento de Cristo é esparsa. Mesmo o evangelista Lucas, dos quatro o mais minucioso, insere-o no tema do anúncio aos pastores.

“E quando eles ali [Belém] se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz. E teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoira, por não haver para eles lugar na hospedaria. Na mesma região, encontravam-se uns pastores, que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. O anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu em volta deles, e tiveram muito medo. Disse-lhes o anjo: ‘Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, Senhor. Isto vos servirá de sinal para o identificardes: Encontrareis um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoira”. […] “Quando os anjos se afastaram deles em direção ao Céu, os pastores disseram uns aos outros: “Vamos então até Belém e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer.’ Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino, deitado na manjedoira.” (Lc 2, 6-16)

Natividade Josefa de Óbidos, 1650-60 Col. Particular

Natividade
Josefa de Óbidos, 1650-60
Col. Particular

A cena passa-se em Belém, na Palestina, onde se encontravam José e Maria para cumprir as formalidades do recenseamento ordenado pelo imperador César Augusto. A data, porém, é imprecisa: Mateus situa o nascimento durante o governo de Herodes, o Grande, morto a 4 d. C., enquanto Lucas refere o recenseamento que ocorreu no império romano durante o ano 6 d. C., mas que, na Judeia, apenas se realizou no ano seguinte. Através dos indícios encontrados nos relatos evangélicos, em conjugação com a data da morte de Herodes e a passagem da estrela de Belém que, segundo uma observação de Kepler, terá sido uma conjunção de Júpiter e Saturno sobre a constelação de Peixes, estima-se que Cristo tenha nascido entre os anos 7 e 2 a.C.

O dia 25 de Dezembro também se fixou tardiamente. A escolha desta data, coincidente com o dia do solstício de Inverno segundo o calendário romano, justifica-se pelo sincretismo entre o cristianismo e o culto solar de Mitras e do Sol Invictus no império romano. O nascimento de Mitra, divindade solar de origem persa incorporada no panteão romano, era celebrado em 25 de Dezembro. Celebrava-se também, por essa altura, o Dies Natalis Solis Invicti, festival do Sol Invicto, o invencível deus sol, cujo culto, originário da Síria, se implantara em Roma desde o início do século III, por ação do imperador Heliogábalo. O dia do nascimento de Mitra ou do Sol Invicto no solstício de Inverno, a partir do qual diminui a distância angular entre o sol e a terra e, no hemisfério norte, aumenta o tempo de exposição solar, comemora a vitória da luz sobre a noite mais longa do ano.

Um dos pontos de partida para a associação da luz ao cristianismo é enunciado por São João: “N’Ele estava a Vida e a Vida era a luz dos homens“ (Jo 1, 4). A triangulação entre Cristo, a luz e a vida é confirmada pelo próprio discurso cristológico: “Eu sou a Luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8, 12). Se, por outro lado, a correspondência entre o cristianismo e os cultos solares pagãos fundamenta a assimilação das festas pagãs no calendário litúrgico e, nomeadamente, na celebração do Natal, também, por outro lado, a dificuldade em erradicar a tradição das festas pagãs justifica a estratégia de as cristianizar. É neste contexto que o Natalis solis transforma-se em Natalis Christi.

Foi o Papa Libério (352-366) quem institui o Natal a 25 de Dezembro, separando-o das festas da Epifania e do Baptismo, juntamente com as quais era celebrado, em 6 de Janeiro, estabelecendo o culto natalício, a 25 de dezembro, na Basílica de Santa Maria Maior, enquanto na Basílica de São Pedro, era dada a primazia à festa da Epifania, a 6 de Janeiro.

A visita dos Reis Magos permite acentuar o tom triunfante da iconografia nos primeiros tempos do cristianismo como religião oficial do império, refletindo igualmente a predominância do tema sobre a Natividade. Num dos painéis em mosaico do arco triunfal de Santa Maria Maior, Cristo, rei entre os reis (rex regnum) está sentado num trono imponente e majestoso, ornado de pedrarias, relegando a Virgem e os Reis Magos para um plano secundário.

Epifania Autor desconhecido, século V Roma, Basílica de Santa Maria Maior

Epifania
Autor desconhecido, século V
Roma, Basílica de Santa Maria Maior

Tommaso da Celano, frade franciscano contemporâneo e biógrafo de São Francisco de Assis, conta que, em 1223, o santo quis celebrar o Natal na floresta junto ao burgo medieval de Greccio: “Eu quero fazer um memorial àquela criança, que nasceu em Belém, as necessidades infantis por que passou, e ver com os próprios olhos, de que modo foi deitado no presépio, sobre a palha, entre o boi e o burro.” (Celano and Amoni 1880, 134). Francisco de Assis obteve do papa Honório III (1148-1227) autorização para integrar a representação viva do presépio numa missa celebrada fora do espaço sagrado da igreja, junto a uma gruta, iluminada com tochas, onde instalou a imagem do Menino numa manjedoura com palha, junto ao boi e ao burro. Durante a missa, Francisco de Assis pregou um sermão, dirigindo-se ao Menino de Belém (puerum de Bethlehem), o qual, segundo o testemunho de um homem virtuoso, estando a dormir, acordou na presença do santo (Celano and Amoni 1880, 137). O desígnio autenticou a representação do presépio e a dramatização da cena tornou-se frequente, incluída nas sacra rappresentazioni do ciclo da vida de Cristo.

Instituição do presépio em Greccio  Giotto di Bondone, 1297-1300   Assis, Basílica superior

Instituição do presépio em Greccio
Giotto di Bondone, 1297-1300
Assis, Basílica superior

Ao longo do Gótico, assiste-se a uma progressiva expressividade das personagens e cenas religiosas, aproximando-as do quotidiano e dos sentimentos humanos, surgindo novos temas e tipos de representação. É neste contexto que se propaga a construção do presépio, inicialmente impulsionada pelas ordens mendicantes, franciscanos e dominicanos, desde a península itálica a toda a Europa central nos finais da Idade Média. A iconografia do presépio consolida-se, assim, a partir da longa tradição das dramatizações medievais e da figuração plástica seguindo o modelo proposto por Francisco de Assis: o Menino deitado sobre as palhas da manjedoura, entre a Virgem e São José, na companhia do boi e do burro, que contribuem para a contextualização do estábulo enunciado no evangelho de Lucas.

Texto elaborado a partir de:
Roque, M.I. (2013, dez.). O Menino de Belém: Da festa do Natal à iconografia da natividade e da adoração. Gaudium Sciendi, (5), pp. 21-24. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa. Acedido em: https://www.academia.edu/5537567/O_Menino_de_Bel%C3%A9m_da_festa_do_Natal_%C3%A0_iconografia_da_natividade_e_da_adora%C3%A7%C3%A3o

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