Em torno da questão dos mármores do Partenon

Ao fim de tantos anos em exposição permanente no Museu Britânico, um fragmento do frontão ocidental do Partenon de Atenas, a figura alegórica do rio Ilisso  encontra-se atualmente no Museu Hermitage, que comemora 250 anos. Como refere Neil MacGregor, diretor do museu Britânico, num artigo intitulado “Loan of a Parthenon sculpture to the Hermitage: a marble ambassador of a European ideal”, publicado no blogue institucional do museu: “The British Museum is a museum of the world, for the world and nothing demonstrates this more than the loan of a Parthenon sculpture to the State Hermitage Museum in St Petersburg to celebrate its 250th anniversary.” (MacGregor, 2014, 5 dez.)

A figura alegórica do rio Ilisso no Museu Britânico. Foto: Yair Haklai, 2009.

A figura alegórica do rio Ilisso no Museu Britânico.
Foto: Yair Haklai, 2009.

Aparentemente e a julgar pelas palavras de MacGregor, o empréstimo de uma peça do Britânico a um outro museu é, tão-somente, um procedimento vulgar no âmbito da ação museológica, à parte a circunstância de estarem envolvidos dois dos maiores museus mundiais. Mas não é!

Não é, porque não se trata do empréstimo de uma peça qualquer, nem este é um procedimento corrente por parte do museu. Na verdade, esta é a primeira vez que o Museu Britânico empresta uma das esculturas provenientes da acrópole ateniense e provoca nova onda de crispação na polémica ancestral acerca da posse deste espólio.

“Not here”: nota sobre o empréstimo da peça Foto: Facundo Arrizabalaga/EPA, 5 dez. 2014.

“Not here”: nota sobre o empréstimo colocada no Museu Britânico
Foto: Facundo Arrizabalaga/EPA, 5 dez. 2014.

A questão remonta ao início do século XIX, quando Lord Elgin, embaixador britânico junto ao império otomano, que anexara a Grécia, obteve autorização para retirar uma parte substancial da decoração esculpida do Partenon e enviá-los para Londres. “Usando métodos pouco apropriados, que não só deixaram cicatrizes visíveis no templo como mutilaram algumas peças para facilitar a remoção e o transporte, esta terá sido uma das mais polêmicas recolhas no âmbito da arqueologia e da museologia […].” (Roque, 2012, 71) Sucedeu-se um longo e conturbado processo até que, em 1816, o Museu Britânico pudesse adquirir a coleção. De facto, “a chegada das esculturas teve um grande impacto na opinião pública europeia, suscitando críticas, nomeadamente, por parte da elite intelectual britânica.” (Id., ibid.). Já na altura se questionava o fenómeno de descontextualização como uma ocorrência inevitável no decurso da transferência do património, do local de origem para o destino implicitamente artificial do museu. Sugeria-se, também, a perda de valor patrimonial inerente a este processo, quer no que se refere ao conjunto de origem – o todo que fica truncado –, quer no se refere ao elemento que é deslocado – a parte retirada do todo.

Ao mesmo tempo que os museus se organizavam como repositórios da cultura material e se procuravam afirmar através do prestígio e abrangência das suas referências, aumentava a contestação e surgia o conceito de proteção patrimonial. (( A questão da fixação do conceito de proteção do património no quadro das expedições europeias aos locais das antigas civilizações pré-clássicas e clássicas para recolha de vestígios materiais que remetiam para os museus que as patrocinavam foi abordado em Roque, 2012. ))

Mais recentemente, Melina Mercouri, Ministra da Cultura grega, durante as décadas de 1980 e 1990, revelando-se profundamente empenhada na devolução dos chamados “mármores de Elgin”, voltou a relançar a questão. Desde então, a Grécia tem vindo a fundamentar esta pretensão, a buscar apoios internacionais e a sensibilizar a opinião pública. Em 2009, foi inaugurado o novo museu da Acrópole, projetado por Bernard Tschumi e Michael Photiadis, com uma museografia límpida e coerente na articulação dos frontões, frisos e métopas do Parténon, substituindo os originais (( Os originais, além do Museu Britânico, encontram-se dispersos pelos Museus do Vaticano, Museu Nacional, em Copenhague, Glipoteca, em Munique, Museu de História da Arte, em Viena, e Museu da Universidade, em Würzburg.)) por réplicas. Até ao momento da inauguração, manteve-se a esperança de que Inglaterra reconsiderasse e cedesse o espólio, pelo menos, parte dele e temporariamente. Se, até à data, o museu não viu cumprido o seu propósito, continua a ser um dos mais fundamentados suportes às razões de ordem ética, mas também histórica, cultural estética, académica e, naturalmente, museológicas, invocadas pelos defensores da reunião dos mármores.

A firmeza da recusa britânica em atender as repetidas solicitações de Atenas torna mais incompreensível o empréstimo da figura truncada (faltam-lhe a cabeça e as mãos) de Ilisso ao Hermitage. Num artigo publicado no The Guardian, Helena Smith (2014, 5 dez.) regista a “furiosa” reação dos gregos a este empréstimo: Antonis Samaras, primeiro-ministro da Grécia, considerou-o uma afronta ao povo grego; Costas Tasulas, ministro da Cultura, fala em provocação, sobretudo numa altura em que se reiniciam negociações com o Museu Britânico, num processo mediado pela UNESCO, para a reunião das esculturas no Museu da Acrópole; Dimitris Pantermalis, diretor deste museu, estranha que Inglaterra tenha, agora, ignorado a fragilidade dos mármores, o habitual fundamento para recusar a sua deslocação para Atenas. Todos eles defendem que este empréstimo abre um precedente e invalida a argumentação de inamovibilidade das peças por razões de preservação e conservação das peças.

Este empréstimo acontece no momento em que o apoio internacional à causa grega se torna mais substantivo e é publicitado por outras circunstâncias marginais, mas relevantes para a mediatização deste processo: acaba de estrear o filme Promajos (( Promajos é um dos epítetos da deusa Atena, cuja estátua criselefantina se encontrava no interior do seu templo, na Acrópole de Atenas)), dirigido pelos irmãos  Coerte y John Voorhees, filhos de um advogado que trabalha no processo de devolução das esculturas, e cujo argumento gira em torno deste tema; fala-se que Amal Almamuddin, a advogada internacional que protagonizou um dos mais importantes episódios mediáticos dos últimos tempos ao casar com o ator George Clooney…

É difícil vislumbrar o alcance deste empréstimo, excêntrico no contexto de um dos temas mais polémicos da atualidade museológica e, também, singular na atual conjuntura política e diplomática entre a Rússia e a Europa. E de conflito museológico também: a Rússia reclama a devolução do ouro cita emprestado à Holanda antes da anexação da Crimeia e, em abril, através da agência noticiosa Tass, informou que a recusa, por parte das autoridades holandesas, em resolver a situação a contento, isso resultaria na não-cooperação dos museus russos com os museus da União Europeia.

Exposição no Museu Hermitage Foto: AP Photo/Dmitry Lovetsky

Exposição no Museu Hermitage
Foto: AP Photo/Dmitry Lovetsky

O empréstimo de Ilisso tem o mérito de forçar a reflexão acerca do significado de património mundial, da definição da posse e do direito aos bens culturais e civilizacionais. Do ponto de vista patrimonial, o cerne da questão está no efeito da descontextualização dos espólios retirados dos locais de origem. Os grandes museus, ditos internacionais, cujas coleções são maioritariamente constituídas a partir de expedições arqueológicas realizadas no âmbito das políticas imperialistas e coloniais do século XIX, argumentam que isso permitiu a salvaguarda dos bens provenientes de zonas de risco, apesar de quase todos eles terem estado em situação de perigo durante as guerras mundiais.

Não obstante, a transferência de espólios é bem mais remota e ampla, nomeadamente, no que se refere aos despojos de guerra. A devolução de peças, em certa medida aconselhada pelo ICOM, tem sido muito cautelosa e restringe-se quase exclusivamente a restos mortais e a objetos de grande sacralidade. Dificilmente se imagina o impacto que teria a devolução dos bens a todos os que reclamam a sua pertença, alegando transações e alienações ilícitas: como seria o mapa museológico e patrimonial daí resultante?

Neil MacGregor – relevando o tom provocatório que lhe está subjacente –, a propósito do mármore como embaixador do ideal europeu, cita a oração fúnebre aos mortos na guerra do Peloponeso proferido por Péricles, segundo o registo de Tucídides, para proclamar a natureza universal do património: “A terra inteira é a sepultura do homem glorioso. E o seu memorial não está gravado apenas na pedra do seu lar, mas bem longe, em terras estrangeiras, na memória de cada homem.” Porém, um pouco mais à frente do discurso, Péricles também afirmava que “o prazer não consiste, como pretendem alguns, em amontoar riquezas, mas em inspirar respeito” (Péricles, Oração fúnebre, §44, trad. a partir de Tracy, 2009, 75-76). Aqui, sim, parece residir o nosso ideal.

Referências bibliográficas:
MacGregor, N. (2004, 5 dez.). Loan of a Parthenon sculpture to the Hermitage: A marble ambassador of a European ideal. The British Museum blog. Acedido em http://blog.britishmuseum.org/2014/12/05/loan-of-a-parthenon-sculpture-to-the-hermitage-a-marble-ambassador-of-a-european-ideal/
Roque, M. I. R. (2012, jan.-fev.) O museu de arte perante o desafio da memória. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi: Ciências Humanas, 7(1), 67-85. Acedido em http://www.scielo.br/pdf/bgoeldi/v7n1/a06v7n1.pdf
Smith, H. (2004, 5 dez.) Parthenon marbles: Greece furious over British loan to Russia. The Guardian. Acedido em http://www.theguardian.com/artanddesign/2014/dec/05/parthenon-marbles-greece-furious-british-museum-loan-russia-elgin
Tracy, S. V. (2009). Pericles: A sourcebook and reader. CA: University of California Press.

Fontes das imagens:
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Figure_of_a_river_god-Parthenon-British_Museum.jpg
http://www.rappler.com/world/regions/europe/77154-greece-protest-uk-elgin-marbles-loan-russia
http://news.yahoo.com/british-museum-loans-elgin-marbles-1st-time-091139777.html

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