“A pintura que vem até mim”: a imagem e a comunicação do museu Van Gogh

O museu Van Gogh, em Amsterdão, possui a maior coleção mundial da obra do pintor, com mais de 200 pinturas, cerca de meio milhar de desenhos e 800 cartas, e de outros pintores do século XIX, além de uma vasta biblioteca temática.

Museu van Gogh, Amsterdão.

Museu van Gogh, Amsterdão.

À morte de Vincent van Gogh – que, durante a vida, apenas lograra vender um quadro, A vinha vermelha, atualmente no museu Pouchkine de Belas Artes, em Moscovo –, em 1890, com 37 anos, os bens do pintor ficaram na posse do irmão Theo, que improvisou uma exposição retrospetiva, no seu apartamento de Paris, já muito doente também. Depois da morte de Theo, um ano depois, a coleção passou a ser administrada pela viúva Johanna van Gogh, responsável pela divulgação da obra através de exposições que organizou nos Países Baixos, destacando-se a que apresentou em 1905, no Stedelijk Museum, em Amsterdão, embora não tenha resistido a alienar algumas pinturas. Coube ao filho, Vincent Willenm van Gogh, a criação da Fundação Van Gogh com o encargo de administrar a coleção exposta no Stedelijk Museum até à inauguração do museu van Gogh, em 1973, o mais visitado na Holanda desde então.

Em 2010, o museu encomendou a renovação da imagem visual à agência de design Koeweiden Postma, de Amsterdão, em cujo apresentação se lê que “Good design is honest, with a straightforward message”. Tal como ficou demonstrado no logo e na imagem corporativa do museu que, nesse ano, ganhou o Reddot Design Award.

O projeto desenvolveu-se através de uma estreita colaboração entre os designers e os curadores do museu, a quem coube a investigação no sentido de assinalar, no espólio escrito, citações marcantes de Van Gogh e de aproveitar a força da marca distintiva, identitária, que carateriza a sua pintura: as pinceladas nítidas, amplas e soltas: as cores dominantes ao longo dos diferentes períodos e expressões. A nova imagem assenta nestes três elementos: texto, textura e cor. Como afirma Jacques Koeweiden, director criativo da Koeweiden Postma: “We wanted to use the many facets of Vincent van Gogh to enrich the new visual identity of the Van Gogh Museum so that we could tell two stories: the story of his work and the story of the world behind his work.”

Campo de trigo com ceifeira Vincent van Gogh, 1889 Foto: Museu Van Gogh

Campo de trigo com ceifeira
Vincent van Gogh, 1889
Foto: Museu Van Gogh

A footprint, ou “pegada”, de Van Gogh é veiculada através da pincelada caraterística, tendo sido escolhida a partir da pintura Campo de trigo com ceifeira, datada de 1889. O símbolo foi criado a partir destas searas ondulantes, as quais foram sistematicamente estilizadas e reduzidas, criando um um padrão sintético facilmente reconhecível. As cores corporativas, em tonalidades de azul e amarelo, foram escolhidas a partir das pinturas de girassóis e amendoeiras, criando uma paleta alargada aplicada no símbolo, em padrões bitonais, de tom sobre tom, a partir da qual se formulou toda a sinalética do museu.

Footprint Koeweiden Postma, 2010.

Footprint
Koeweiden Postma, 2010.

Logotipo Koeweiden Postma, 2010.

Logotipo
Koeweiden Postma, 2010.

Associou-se um quarto elemento relacionado com a arquitetura e espacialidade do próprio museu, cujo projeto original é de autoria e Gerrit Rietveld, posteriormente ampliado por Kishō Kurokawa, sem anular a gramática cubista, de uma geometria límpida e simplificada baseada no quadrado. Desta forma, além de refletir a referência ao pintor, a nova imagem sublinha a ligação entre o museu e o seu conteúdo. O logotipo, em tipos redondos (Gotham Rounded), sem serifas e o símbolo, justapostos, são, por isso, igualmente quadrados.

As citações de Van Gogh, colocadas junto à imagem ou sobre o fundo do logo, aludem ao epistolário de Van Gogh, um acervo muito relevante no museu, através do qual se vislumbra o universo íntimo do pintor: “The painting comes to me as if in a dream”, ‘I want to make drawings that move some people”, a ”In a painting I’d like to say something consoling, like a piece of music”.

Saco com imagem corporativa

Saco com imagem corporativa

A imagem corporativa resulta muito coerente e eficaz. E equilibrada, também, dado que segue uma lógica interna fundamentada nas referências ao pintor, evitando tornar-se excessivamente literal, ao mesmo tempo que arrisca abstrações, não demasiadamente pronunciadas para que possam manter a ligação ao original.

Não admira, por isso, que, ao reformular o sítio eletrónico, se tenha mantido a imagem, embora o projeto tenha sido ganho por outras duas agências, a Fabrique e a Q42, que operam nas áreas do design eletrónico e da informática e tinham, nos respetivos currículos, a criação um projeto idêntico no Rijksmuseum.

David van Zeggeren, líder de projeto da Fabrique e que interveio nos sítios eletrónicos dos dois museus, publicou, no The Guardian, uma memória descritiva acerca do desenvolvimento do projeto no museu Van Gogh. Sob o lema “meet Vincent”, a missão expressa era “Develop a website that supports the mission of the museum – to make the work of Vincent van Gogh and the art of his time accessible for as many people as possible, with the goal to enrich and inspire them” (Zeggeren, 2014, 14 nov.).

Sítio eletrónico do museu

Sítio eletrónico do museu

Refletindo esta dupla missão do museu, a página de entrada estrutura-se em duas secções distintas: uma com o menu de navegação relativo ao museu (“visitar o museu”), com informações práticas sobre os horários, localização, agenda, bilheteira e loja; a outra, mais abrangente, relativo ao pintor (“conhecer Vincent”), remetendo para histórias interativas sobre a sua vida e obra. O grafismo sublinha a estrutura conceptual: no campo do museu, o fundo é preenchido pelo padrão do logotipo; no campo do pintor, por detalhes da pintura.

Na secção relativa ao museu, o principal desafio foi conciliar o tipo de informação destinado a um público plural, entre aqueles que não sabem nada acerca do museu e aqueles que o conhecem, mas querem ser surpreendidos com algo inédito. O propósito, tal como está enunciado, é facultar a preparação da visita ao museu em função das motivações e expetativas do visitante, aumentando a probabilidade de uma experiência mais intensa e imersiva.

É na secção “conhecer Vincent” o discurso torna-se mais dinâmico, com uma arquitetura mais criativa e inovadora. As histórias não seguem uma narrativa convencional, assumindo a fragmentação e a elaboração de infinitas sequências desestruturadas, cuja deliberação é confiada aos múltiplos recetores deste discurso pluridireccionado. O conhecimento da personalidade do artista é formulada num registo intimista, patente já no enunciado, ao referi-lo pelo nome próprio (Vincent, e não Van Gogh). Cada um descobre o pintor através de uma experiência pessoal, assente na descoberta de episódios, frases e memórias, que configuram um modelo comunicacional mais emocional, ou inspiracional, do que intelectual, sem prejuízo do benefício epistemológico. “We realised that a clear and concise information architecture would give us the opportunity to stick to the concept and please everyone. A museum website is a place where all should be able to find the right inspiration and information.” (Zeggeren, 2014, 14 nov.)

O design mantém-se límpido e sem estridências, mas a conceção da página de entrada assente nesta dicotomia implicou sínteses e cedências. Logo no início deste artigo-relato, Zeggeren dá conta do debate protagonizado por membros da equipa do museu acerca da referência aos projetos educativos. Enquanto um achava que estes eram demasiado importantes para aparecerem escondidos na barra de conteúdos, outro defendia que por não se tratar de tarefas de topo, não deveriam constar na página inicial, podendo ser alcançados através de navegação e pesquisa.

Foi por aqui que se instalou o debate na comunidade museológica: afinal, o serviço educativo é um setor secundário? A verdade é que, na maioria dos museus, em que todas as estratégias de mediação se processam através dos serviços educativos, estes constituem o fulcro da ação museológica. Porém, já há muitos anos, na dissertação final do curso de pós-graduação em museologia, eu defendia que a designação “serviços educativos” era demasiado redutora para uma ação que se pretendia de comunicação cultural. Não consigo avaliar o grau de eficácia deste sítio eletrónico, mas sei que passei muito tempo a redescobrir um “Vincent”, para lá do Van Gogh ensinado na academia. Por mim, a missão de tornar acessível a obra do pintor e a arte do seu tempo fica, aqui, cumprida. Quem dera que todos os museus comunicassem os seus conteúdos com este nível de informação, esclarecendo o sentido das obras que expõem e dando a conhecer fatores que intervieram na sua conceção, despertando a curiosidade para novas conexões.

Com um sítio eletrónico, acerca do qual os autores afirmam que “We like to think the new website not only informs but inspires and enriches.” (Zeggeren, 2014, 14 nov.), com um amplo espetro de propostas e conotações, com um elevado índice de mediação dos seus conteúdos, o serviço educativo é, efetivamente, apenas uma parte deste todo. Um serviço entre tantas outras estratégias de comunicação.

Referências bibliográficas:
(Koeweiden Postma). (2010). New logo and corporate design Van Gogh Museum. Disponível em: http://www.koeweidenpostma.com/html/project/147
Van Gogh Museum [sítio eletrónico official]. (2014). Disponível em: http://www.vangoghmuseum.nl/en
Zeggeren, D. van. (2014, 14 nov.). How we designed the Van Gogh Museum website. The Guardian: Culture professional network. Disponível em: http://www.theguardian.com/culture-professionals-network/2014/nov/14/-sp-design-van-gogh-museum-website?CMP=share_btn_tw

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