Tanto esplendor e glória para tão pouco contar

Exposição “Splendor et gloria: Cinco joias setecentistas de exceção
Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 24 set 2014 – 4 jan. 2015

O título da exposição Splendor et gloria: Cinco joias setecentistas de exceção, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) sugere e sublinha que esta é uma oportunidade rara. As notas oficiais confirmam o estatuto de singularidade – quer do procedimento museológico, quer da qualidade das peças expostas – através de uma adjetivação superlativada: “Um dos mais ambiciosos projetos do MNAA”, “o esplendor artístico”, “obra-prima”, “dois artistas excecionais”, “peças de exceção”, “um acervo a todos os títulos excecional” (MNAA, 2014a). Nuno Vassallo e Silva, Diretor Geral do Património Cultural, concorre a este discurso laudatório, afirmando que “as peças de assinalável importância artística e patrimonial, são de incontestável primeira água […], fazendo desta exposição uma das mais importantes alguma vez realizada pelo Museu das Janelas Verdes, sob a direção de António Filipe Pimentel” (MNAA, 2014b, p. 9).

Exposição Splendor et gloria Foto: MIR, set. 2014

Exposição Splendor et gloria
Foto: MIR, set. 2014

Além disso, todo o aparato da discussão que antecedeu a exposição, em torno do empréstimo do resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres (Ponta Delgada), com posições a extremar-se num registo pouco usual e a envolver um vasto arco de opiniões vindas dos mais distintos quadrantes, acabou por, inevitavelmente, manipular a abordagem à exposição. A polémica, por um lado, acabou por promover a exposição cuja abertura, aliás, teve de ser adiada por alegadas razões técnicas relacionadas com a demora do complexo processo de restauro da custódia da Sé Patriarcal de Lisboa. Entretanto, o resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres foi retirado ao fim de cerca de um mês em exposição, regressando ao respetivo Santuário, conforme havia sido protocolado, sendo substituído por uma reprodução gráfica (que se repete sob a legenda) e mantendo-se a referência na apresentação digital (terá valido a pena tanta discussão para uma apresentação tão efémera?).

Exposição Splendor et gloria, depois de retirado o resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres  Foto: MIR, nov. 2014.

Exposição Splendor et gloria, depois de retirado o resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres
Foto: MIR, nov. 2014.

No caso da exposição Splendor et gloria, o “acervo a todos os títulos excecional, seja pelo superlativo valor material e estético, ou pelo seu significado espiritual e cultural” (conforme se lê no texto parietal) corresponde a cinco (!) peças: a custódia da Bemposta, a única pertencente à coleção do MNAA; a custódia da Sé Patriarcal de Lisboa, resplendor do Senhor dos Passos, da Real Irmandade da Santa Cruz e Passos da Graça, em Lisboa; o resplendor do Senhor Santo Cristo dos Milagres, do Santuário de Ponta Delgada; e a Venera das Três Ordens Militares, do Palácio Nacional da Ajuda, e acompanhada pelo retrato do Príncipe Regente D. João (futuro D. João VI) ostentando as respetivas insígnias, de autoria de Domingos Sequeira.

As duas custódias, de resto, tinham sido apresentadas, em 2013, na exposição A encomenda prodigiosa: Da Patriarcal à Capela Real de São João Batista. Tornam, agora, a ser expostas, a pretexto da investigação levada a cabo por António Pimentel, Anísio Franco e Luísa Penalva, acerca das atribuições entre o desenho e o labor das peças em que intervieram os arquitetos João Frederico Ludovice e Mateus Vicente de Oliveira, o escultor Machado de Castro e os joalheiros e engastadores Adão Gottlieb Pollet e o filho David Ambrósio Pollet, e do estudo das pedras preciosas levado a cabo por Rui Galopim de Carvalho. Trata-se de um trabalho de investigação relevante, cujo mérito se realça pela carência de fontes documentais e que contribui para o esclarecimento do historial e dos contextos de criação e execução deste conjunto de ourivesaria.

Um conjunto de ourivesaria, apenas. Porque, nesta exposição, as peças apresentadas valem pelo ouro e pelas pedrarias que lhes conferem o esplendor e a glória. Tanto e tão pouco!

Citado pela Agência Ecclesia, na altura da inauguração, António Filipe Pimentel assumia que se tratava de “uma exposição pequena, com apenas cinco peças”, mas que “acrescentar alguma coisa era macular a harmonia desta linguagem” sendo que as obras “iluminam-se entre si e são suficientes para explicar o processo de conceção e os avanços científicos” (cit. in Agência Ecclesia, 2014, 25 set.).

A informação disponível na sala resume-se a um texto introdutório de dois breves parágrafos, a uma apresentação em suporte digital com imagem e texto destacando pormenores visuais ou formais das peças e das intervenções de restauro, e as legendas onde constam o número, a designação, as autorias e atribuições, a data de produção, o material e a coleção. À entrada da sala, o visitante – sem um lugar para se sentar – pode consultar o catálogo da exposição com os estudos efetuados sobretudo em torno do historial.

Exposição Splendor et gloria: legendas Foto: MIR, nov. 2014.

Exposição Splendor et gloria: legendas
Foto: MIR, nov. 2014.

Exposição Splendor et gloria: legenda da Custódia da Patriarcal Foto: MIR, nov. 2014.

Exposição Splendor et gloria: legenda da Custódia da Patriarcal
Foto: MIR, nov. 2014.

Tudo correto e de acordo com o que é habitual, receitado na maior parte dos antigos manuais de museologia e cimentado numa prática instalada e incontestada… Tudo tão próximo ainda dos métodos formalistas da Escola de Viena, da pesquisa dos historiais, dos processos fatuais, dos aspetos materiais e dos valores formais. O discurso, apesar da atualização do conhecimento nestes domínios, cristalizou-se na indiferença aos novos modelos da historiografia da arte e às metodologias de análise em torno do signo. Permanecem truncados, sob um desígnio de inevitabilidade, todos os aspetos que se encontram para lá da pura visibilidade. No catálogo, encontram-se apontamentos de leitura iconográfica, mas sem o suporte de uma imagem suficientemente ilustrativa do detalhe que confirme o texto; na exposição, nem isso.

Há uma linguagem inerente a estas obras, o que implica que elas sejam dotadas de uma função significante. Porém, se os dados denotativos são diretamente apreendidos, as conotações semânticas constituem um campo mais denso e complexo, correspondendo a múltiplas sedimentações, cuja descodificação implica uma mediação que é competência do museu. A função-signo continua a ser obliterada no processo de musealização, exposição e interpretação do objeto.

Nesta exposição, podemos saber como se fez e de que matéria são feitos o esplendor e a glória. Não há nada que nos informa acerca da sua razão e propósito e, por isso, ficou tanto por dizer!  Ninguém nos conta nada acerca dos pensamentos e as crenças que os motivaram, ou do uso em que foram empregues. Ninguém nos conta o que é uma custódia, ninguém nos fala dos rituais em que participa ou do aparato cerimonial ostensório em que era apresentada; ninguém nos diz o que significa um resplendor, nem nos fala do culto a que está associado; ninguém nos esclarece acerca da criação ou da atribuição das Três Ordens… E, não obstante, se o esplendor e a glória são a aparência visiva, a função, o significado e o contexto constituem o fundamento da sua natureza e substância. Tanto que podia ser e em tão pouco se ficou.

Referências bibliográficas:
Agência Ecclesia, 2014, 25 set. Arte Sacra: Resplendor do Senhor Santo Cristo dos Açores exposto em Lisboa. Acedido em http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/nacional/arte-sacra-resplendor-do-senhor-santo-cristo-dos-acores-exposto-em-lisboa/
Museu Nacional de Arte Antiga. (2014a). Splendor et Gloria. Museu Nacional de Arte Antiga [sítio oficial]. Acedido em http://www.museudearteantiga.pt/exposicoes/splendor-et-gloria
Museu Nacional de Arte Antiga. (2014b). Splendor et Gloria: Cinco joias setecentistas de exceção. Lisboa: MNAA.

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