A ilha do património entre Belém e Ajuda

António Lamas assumiu, em finais de outubro, a presidência do Centro Cultural de Belém (CCB). Mais do que ocupar o pelouro deixado vago por Vasco Graça Moura, falecido em abril, Lamas tem a missão bem mais vasta de reformular e dinamizar o eixo patrimonial-monumental-museológico das zonas contíguas de Belém e da Ajuda, integrando no projeto o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, o Palácio da Ajuda, o Padrão dos Descobrimentos, os museus dos Coches, de Arqueologia, de Etnologia e de Arte Popular, os jardins Tropical e Botânico, o Planetário.

Mosteiro dos Jerónimos e praça do Império Foto: MIR, 2013.

Mosteiro dos Jerónimos e praça do Império
Foto: MIR, 2013.

Em entrevista ao Público, a 17 de setembro, quando foi conhecida a decisão do Secretário de Estado da Cultura de reunir todos estes equipamentos sob a tutela de um único conselho de administração, presidido pelo presidente do CCB, António Lamas definia os contornos gerais do projeto:

“Hoje, face às limitações de ordem financeira de todas essas instituições, não se justifica que possuam serviços separados de limpeza, pessoal, segurança, manutenção e gestão de projetos e obras; que não partilhem um sistema de bilhética; que não coordenem a divulgação de cada unidade e do conjunto, evitando concorrerem entre si pela atração de públicos e organizarem eventos muitas vezes sobrepostos; que não partilhem competências, experiência e recursos humanos, em particular técnicos; que não desenvolvam projetos de interesse comum; que não potenciem o peso da sua articulação junto de entidades financiadoras; e que se queixem todas da falta de meios e que os grandes investimentos que a zona necessita aguardem, sem esperança, melhores dias.” (Lamas, cit. in Rato, 2014, 17 set.)

As reações têm sido cautelosas: Isabel Cordeiro, ex-diretora-geral do Património Cultural, referia a oportunidade para repensar os modelos de gestão dos museus e monumentos; Luís Raposo, ex-diretor do Museu Nacional de Arqueologia e ex-presidente do ICOM, recordou o modelo dos Parques de Sintra, até agora presidido por Lamas, elogiando a experiência no que respeita à qualificação, restauro e conservação do património, mas acusando os problemas com a acessibilidade do público devido ao preço dos ingressos (cits. in Carvalho e Canelas, 2014, 28 out.).

Agora, duas semanas depois da tomada de posse, Lamas dá uma extensa entrevista (novamente) ao Público, define as suas prioridades – aumentar as receitas do próprio CCB, para reconquistar autonomia, e abrir o novo Museu dos Coches – ao mesmo tempo que confirma que a experiência da Parques de Sintra poderá ser aqui aplicada. Talvez seja uma entrevista demasiado preenchida de “não sei” e “não faço ideia”, mas, ao mesmo tempo, com outros indícios claros (as próprias dúvidas são significantes): a gestão dos equipamentos assenta numa lógica de rentabilidade ou, pelo menos, de equilíbrio entre receita e despesa, o que, numa época de crise, ainda mais se justifica; a gestão, a programação e, subentende-se, a comunicação, dos vários núcleos passa a ser integrada, o que implica partilha de serviços e redistribuição de investimentos; estão previstas parcerias, sobretudo na área da música (pelo menos há contactos com o diretor da Opart). Continuamos sem perceber qual vai ser o modelo de funcionamento do CCB, depois da mudança dos estatutos e da reclassificação da fundação, e qual o destino do Museu Berardo. Continuamos sem saber como vai ser assegurada a subsistência do Museu dos Coches, sobretudo quando sabemos que já apresenta problemas estruturais que terão de ser resolvidos e corrigidos. Continuamos sem saber se irá ser mantido o estado comatoso do Museu de Arte Popular, se o Museu Nacional de Etnologia irá finalmente assumir a missão que lhe compete. Por outro lado, a Secretaria de Estado da Cultura também ainda não esclareceu como irá compensar a falta de verbas geradas pelos museus e monumentos desta zona, as quais, sendo canalizadas para a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), eram redistribuídas por todos os museus dependentes, com menores capacidades de gerar receitas. Se este modelo estava ultrapassado e era ineficaz, o facto é que a DGPC se tem vindo a desapossar dos equipamentos que geravam receita, ao mesmo tempo que o Orçamento de Estado tem vindo a diminuir as verbas para o setor. Que destino aguardam os museus mais periféricos? Talvez seja ainda demasiado cedo para saber tudo isso…

António Lamas fala da necessidade de criar um eixo urbanístico que ligue os vários núcleos patrimoniais em Belém e de os articular em torno do pólo constituído pelo CCB: “Juntar estas instituições a dialogar, a partilhar recursos e a terem um propósito conjunto de potenciar os seus valores, o que também pode ser muito bom para o CCB, que tem dificuldades de gestão e atração de público.” Lamas, cit. in Canelas e Rato, 2014, 9 out.). Por mim, gostaria que tivesse falado também na urgência de criar pontes entre o património e o público. Gostaria que o património não fosse apenas um produto cultural que é necessário vender para tirar proveito, mas que houvesse a preocupação de o interpretar e mostrar – aos outros e, sobretudo, a nós próprios – como a matriz da nossa cultura.

Referências bibliográficas:
Canelas, L., Rato, V. (2014, 11 nov.). Entrevista [a António Lamas]: “Não vim para o CCB para ser um presidente liquidatário”. Público. Acedido em: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/nao-vim-para-o-ccb-para-ser-um-presidente-liquidatario-1675606
Carvalho, C., Canelas, L. (2014, 28 out.). António Lamas já preside ao CCB e vai criar plano para gestão de museus e monumentos de Belém. Público. Acedido em: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/antonio-lamas-comeca-nesta-tercafeira-a-trabalhar-no-ccb-1674364
Rato, V. (2014, 11 nov.). António Lamas vai dirigir CCB e poderá gerir novo pólo de museus de Belém. Público. Acedido em: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/antonio-lamas-vai-ser-o-novo-presidente-do-centro-cultural-de-belem-1669936

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