Ser ou não ser museu, eis a questão

Um dos desafios mais prementes que o museu enfrenta diz respeito à forma como se posiciona na contemporaneidade e à forma como se adequa ao ritmo vertiginoso da mudança. As coisas não eram assim há vinte, trinta anos: não tínhamos telemóveis, a televisão tinha dois ou quatro canais e não havia comandos à distância, usávamos computadores pessoais como um substituto da máquina de escrever, não havia internet, as máquinas fotográficas eram analógicas… Nessa altura, o museu era expositivo e ninguém lhe exigia que fosse algo mais.

Berlim, Gemäldegalerie, julho 2012.

Berlim, Gemäldegalerie, julho 2012.

Entretanto, o mundo mudou. Tornou-se global, trazendo o universo para a nossa beira, multiplicando as fontes de conhecimento e de entretenimento até aos limites das nossas possibilidades. As novas gerações são nativas-digitais e a realidade é-lhes configurada como um amplo sistema interativo, que elas gerem através de uma multiplicidade de dispositivos em simultâneo. “Post-postmodernism, on the other hand, seems to take ‘intensification’ (an increased spread and penetration) as its paradigmatic ethos, with globalization as its primary practice – all access all the time.” (Nealon, 2012, p. 150). Agora, o museu meramente expositivo parece pouco.

Se, neste momento, o contexto da pós-pós-modernidade exige uma nova estratégia, a questão de fundo incide no propósito do museu: deve constituir-se como espaço ambíguo e plural? deve constitui-se como alternativa expositiva e sóbria face à multiplicidade de estímulos visuais? ou deve, pelo contrário, fundamentar-se como uma pragmática do pós-modernismo, inserindo a obra de arte num discurso em suporte digital, com todas as potencialidades de semântica e modulação?

Enquanto se afirma que é necessário repensar a função do museu, ou a forma como se projeta na relação que estabelece entre a coleção e o público, assistimos a uma euforia de experiências inéditas, eventos de promoção social e cenografias performativas.

“[…] both sets of institutions [bibliotecas e museus] have expanded their community roles through entertainment-based programs that are disconnected from their respective collections. Activities such as yoga and tai chi are no longer confined to recreational facilities; they are also readily available at museums and libraries. Museums with evening programs of music and martinis resemble eating establishments, while libraries with espresso machines look like bookstores and coffee bars.” (Dilevko & Gottlieb, 2004, p. 27)

Esbatem-se as fronteiras entre a função dos espaços e das instituições culturais e sociais. Tanto o museu alarga as suas prestações, como qualquer espaço pode acolher uma iniciativa museológica. Mas, se a reflexão de Dilevko e Gottlieb espelha uma realidade que se vem construindo há mais de uma década, hoje, a questão envolve o papel dos curadores.

Ellen Gamerman confirma, num artigo publicado em The Wall Street jornal, que:

“Museums are increasingly outsourcing the curation of their exhibits to the public – sometimes even asking the crowd to contribute art, too. The institutions produce quick and often inexpensive shows that boost ticket sales. As crowdsourcing initiatives go mainstream, the roles of the museum and the artist are getting rethought. It’s no longer only the highly trained professionals who decide what belongs on the gallery wall, but the audience, too.” (Gamerman, 2014, 23 out).

Ao longo do artigo, damo-nos conta de inúmeros e surpreendentes sinais de mudança: trabalhos do público expostos ao lado das obras de artistas consagrados, no Santa Cruz Museum of Art & History; concursos entre obras de arte, no Museum of Fine Arts, de Boston; a votação de obras para integrar uma exposição, no Frye Art Museum de Seattle…

Autor: Robert Neubecker, 2014.

Autor: Robert Neubecker, 2014.

A abertura do museu à iniciativa externa é, não só um fator de acessibilidade, como, sobretudo, atrai novos públicos e incrementa fundos de financiamento. O tão desejado diálogo parece efetivar-se através da ativa participação do “recetor-emissor” e prolonga-se nos canais alargados das redes sociais. Não há mal nisso. O que parece preocupante é que tudo isto acontece sem que haja uma reflexão profunda acerca da função do museu na sociedade contemporânea e para a qual concorressem todos os intervenientes na gestão e na comunicação das coleções. Os curadores (por vezes, tão “conservadores”) e os mediadores (tão pouco “comunicadores”) parecem afastar-se deliberadamente do debate e iludem-se na execução de programas dispersos sem fundamentação teórica no domínio da museologia. Mas não haverá uma segunda oportunidade para participar, desde o início, neste extraordinário processo de mudança.

Referências bibliográficas:
Dilevko, J., & Gottlieb, L. (2004). The evolution of library and museum partnerships: Historical antecedents, contemporary manifestations, and future directions. Westport, Conn: Libraries Unlimited.
Gamerman, E. (2014, 23 out.). Everybody’s an art curator. The Wall Street jornal. Disponível em: http://online.wsj.com/articles/everybodys-an-art-curator-1414102402?mod=WSJ_GoogleNews
Nealon, J. T. (2012). Post-postmodernism: Or: The cultural logic of just-in-time capitalism. Stanford, Calif: Stanford University Press.

Fonte da imagem: http://online.wsj.com/articles/everybodys-an-art-curator-1414102402?mod=WSJ_GoogleNews

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