Digitalização: nova vida para bibliotecas e museus

Em jeito de advertência, devo dizer que há assuntos de que não é possível falar objetivamente, sem nos colocarmos inteiros, com um turbilhão de memórias a afetar a lucidez da análise… talvez, sobretudo, quando se trata de algo em que investimos tempo, suor e lágrimas, travando lutas desesperadas por pequenas vitórias.

Não consigo ler a entrevista de Jill Cousins, responsável máxima pela Europeana, publicada hoje no Público, sem evocar, não apenas aqueles dias de 2001, em que começávamos a Biblioteca Nacional Digital, mas os anos anteriores em que, na Estrutura de Projeto Inventário do Património Cultural, a Prof. Natália Correia Guedes lutava pela criação de um repositório digital, transversal a arquivos, bibliotecas e museus. Estive lá. Passados tantos anos, já será possível falar dos obstáculos, das contrariedades, das discussões, da resistência à inovação mascarada por uma incipiente capa de modernidade. Poderei, pelo menos, falar da minha incredulidade ao deparar com a resistência velada à divulgação – à democratização – do património, da minha estupefação ao constatar a existência de redutos ciosos dos seus pequenos círculos de poder. Lembro o abismo que se abria entre tutelas incapazes de criar pontes e estabelecer conexões entre os vários domínios do património. Sonhávamos, na altura, com uma Europeana, incapazes de a fazer.

Acabada a Estrutura de Projeto, na altura em que a Gallica arrancava em França, a Biblioteca Nacional, sob a direção do Prof. Carlos Reis e da Dr.ª Fernanda Campos, arrancou com a biblioteca digital. Também lá estive. Lembro-me dos primeiros tempos, das tentativas sem sucesso, da difícil escolha das obras a digitalizar, das incessantes buscas metodológicas, processuais; lembro-me de encher o disco do computador em meio dia de trabalho, das cópias demoradas, das ligações página a página, imagem a imagem, das reuniões, das discussões, das longas conversas com pessoas tão diferentes, de competências tão diversas e conhecimentos tão variados.

Biblioteca Nacional Digital: página de entrada. BND, 2002.

Biblioteca Nacional Digital: página de entrada. BND, 2002.

Lembro o empenho e o entusiasmo do Eng. Borbinha, por vezes, exasperante; lembro o Prof. Ivo de Castro e o que me ensinou sobre a língua, a saudosíssima Dr.ª Catarina Latino e a música que me revelou, a Dr.ª Manuela Domingos e o que lhe ouvi sobre a história do livro (e lembro – como não? – as tardes com a Fátima Aguiar a falar da biblioteca digital e que prosseguimos, depois, a conversar sobre a vida, até ela ter escolhido a morte). A biblioteca digital construía-se como Memória do Pensamento, da Língua, da Arte, da História, da Ciência…

Memórias. BND, 2004.

Memórias.
BND, 2004.

Tínhamos o entusiasmo de um projeto a iniciar, cientes de que vivíamos a mudança de um paradigma, colocando os documentos da nossa memória coletiva ao alcance de todos, a qualquer hora, em qualquer lugar.

Em 2008, surgiu a Europeana, confirmando que era esse o caminho. Entretanto, ao fim de meio milhão de imagens, já tinha saído da Biblioteca Nacional para trabalhar noutros projetos de digitalização e edição digital. Houve obras que descobri, outras que recordei, algumas que me despertaram, umas que me desafiaram – aqueles comentários à obra de Aristóteles, manuscritos em latim! Em todos eles, à medida que a tecnologia permitia novos modelos de metacodificação, de arquivo e recuperação da informação, assisti a avanços, alguns intervalados por recuos, e alterei os meus próprios hábitos de investigação.

Durante este tempo, fui olhando, meio de través, para o que se fazia nos museus, sem conseguir evitar a comparação entre o desempenho dos museus e o das bibliotecas e arquivos no domínio da digitalização. Enquanto nas bibliotecas se exige a disponibilização do documento na íntegra, em múltiplos formatos de imagem, em média e alta resolução, com OCR e sumários que estruturam o conteúdo e funcionam como pontos de acesso, nos museus, o estado da questão é completamente diferente.

No MatrizNet, o catálogo coletivo dos museus tutelados pelo Secretaria de Estado da Cultura, são disponibilizados conteúdos relativos às coleções com ficheiros em formato essencialmente de texto e, imagem. A pesquisa tem melhorado, os conteúdos têm sido melhorados e começou a publicar na Europeana, embora de forma dispersa. É alguma coisa, mas o que existe está muito aquém das possibilidades: fichas mais descritivas do que analíticas; ausência de dados relativos à função e de sentido dos objetos; falta de ligação entre os vários itens e aos respetivos contextos de origem; conteúdos estáticos, sem hiperligações; inexistência de apontadores para outros estudos; imagens de pequeno formato e em baixa resolução, por vezes, sob o carimbo eletrónico com o logo de um instituto já desaparecido. Tão longe do que é possível, do que já existe e está a ser feito noutras paragens.

Os contributos do Museu Nacional dos Coches ou do Museu Nacional do Azulejo, referidos por Jill Cousins, são exceção e residuais em relação ao universo dos espólios museológicos na dependência do Estado. Comparando aos quase 235 mil itens de proveniência portuguesa existentes na Europeana e disponibilizados por cerca de três mil bibliotecas, o contributo dos museus é, também, pouco substantivo. Jill Cousins é a primeira a reconhecer que “temos um longo caminho a percorrer” e aponta como principais dificuldades neste processo, para lá das questões relacionadas com os direitos de autor, “a interoperacionalidade e a uniformização das coleções digitais” (cit. in Queirós, 2014, 17 out.). No que respeita aos museus, porém, é necessário, antes de mais, mudar uma mentalidade conservadora que permanece subjacente. Invertendo o título do artigo do Público, a digitalização das coleções cria emprego – na realidade, criou, mas atualmente não me parece (e falo por experiência) – e poderá dar nova vida aos museus e bibliotecas, mas, antes de mais, será necessário que os museus ganhem uma nova vida para que consigam absorver os benefícios da digitalização.

Referência bibliográfica:
Queirós, L. M. (2014, 17 out.). Digitalizar colecções cria emprego e dá nova vida aos museus e bibliotecas. Público. Disponível em: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/digitalizar-coleccoes-cria-emprego-e-da-nova-vida-aos-museus-e-bibliotecas-1673168

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