Persistência e mudança: a difícil adesão dos museus às Humanidades Digitais

[Publicado, em simultâneo, no sítio do Dia das Humanidades Digitais #diahd14]

As novas tecnologias, além de criarem profundas transformações no espaço do nosso quotidiano, alteraram o paradigma epistemológico e metodológico das últimas décadas. Não será possível, ainda, avaliar objetivamente o impacto das novas tecnologias na cultura e na sociedade, mas é inevitável reconhecer as implicações do acesso hipermediático à informação. Hoje, somos detentores, quase involuntários, de grandes quantidades de dados, passando o investigador de “descobridor” a “selecionador-processador- redutor-organizador” da informação obtida, antes de efetuar a respetiva análise. É neste contexto que se formula uma questão de partida: como se reorienta a missão do museu na era digital? A partir desta, perfilam-se novas questões: de que forma se incorporam as Humanidades Digitais no museu? Em que consiste, agora, a função do curador, assumindo a coexistência do mediador-comunicador com a do conservador, após a longa tradição da prevalência das tarefas de conservação e preservação do património sobre a sua divulgação? Os conservadores e restantes profissionais dos museus estão dispostos a encarar a mudança? As tutelas estão, elas próprias, interessadas nessa mudança?

Utilização de recursos de Humanidades Digitais no Museum of Modern Art (MoMA) Foto: MIR, 2014.

Utilização de recursos de Humanidades Digitais no Museum of Modern Art (MoMA)
Foto: MIR, 2014.

Já passou a primeira fase da desconfiança ou da euforia, perante o impacto das novas tecnologias, aproveitando as funcionalidades sem cair na tentação de considerar que todas as metodologias e procedimentos de há três décadas sejam necessariamente obsoletas. Estamos aqui e agora – e esta é a nossa realidade.

Há bastante tempo, Albert Camus preconizava a reprodução visual como um meio de representação virtual através da construção do museu imaginário, reagrupando os objetos-museais em torno do observador. As novas tecnologias acrescentam-lhe o acesso alargado à informação e modelos alternativos e complementares de observação, ao mesmo tempo que nos obrigam a repensar o próprio conceito do objeto e da representação da pluralidade dos sentidos que lhe são intrínsecos. O museu, enquanto espaço físico (concreto, material), é o lugar onde dispomos do objeto e da sua condição de autenticidade, proporcionando a emoção do contato direto, sensorial (na realidade, unisensorial, dado que apenas visual) com os testemunhos diretos de uma cultura, próxima ou longínqua. O objeto, mediado através de suportes digitais, perde esse cunho de autenticidade e, por isso, é desvalorizado, mesmo quando a tecnologia permite aproximar o olhar, manipular e observar em múltiplas perspetivas, a integração de informações virtuais em realidade aumentada e, por conseguinte, potenciar o conhecimento.

As novas tecnologias assumem um papel relevante na remoção de obstáculos ao acesso e ao uso da informação. No caso dos museus, essa função facilitadora permite aproximar o utilizador de objetos únicos, independentemente da sua localização e sem necessidade de intermediação humana direta. “Museums have been strongly affected by discourses around electronic technologies and a sensitivity to media has brought widespread changes to contemporary museum practices.” (Witcomb, 2003: 103) O museu continua a ser o espaço reservado e exclusivo do objeto exposto à apreciação do público, mas abre-se a “non-objets Museums have been strongly affected by discourses around electronic technologies and a sensitivity to media has brought widespread changes to contemporary museum practices” (id., ibid.) e desmaterializa-se na ubiquidade de múltiplas representações. O guião expositivo, de sentido unívoco, passa a constituir apenas um dos discursos possíveis face à multiplicidade de diálogos que agora se formulam com os diversos públicos virtuais, múltiplos nas suas exigências, perspetivas e expetativas.

Não obstante e em primeira instância, cabe ao museu a criação dos enunciados discursivos acerca dos seus espólios e em função dos novos interlocutores. Desenha-se, aqui, um conjunto de novas atribuições a desafiar o papel tradicional do profissional do museu.

Decisions that museum workers make – about mission statement, architecture, financial matters, acquisitions, cataloguing, exhibition display, wall texts, educational programming, repatriation requests, community relations, conservation, web design, security and reproduction – all impact on the way we understand objects. Museum are not neutral spaces that speak with one institutional, authoritative voice. Museums are about individuals making subjective choices. (Marstine, 2006: 2)

Longe de esvaziar os atributos do curador, as novas tecnologias propõem a reformulação e a revigoração de aspetos negligenciados no cumprimento das suas funções. Durante muito tempo, valorizou-se o papel do conservador, restringindo-se à obrigação de preservar as coleções para as transmitir às gerações futuras, garantindo que a proximidade do público no espaço expositivo não punha em risco a integridade dos objetos. Levantaram-se barreiras em torno dos objetos, colocaram-se sistemas de vigilância nas salas, disciplinaram-se os comportamentos e o público sentia-se privilegiado por lhe ser dado desfrutar o caráter de exceção do repositório cultural.

Público no Metropolitan Museum of Art Foto: MIR, 2014.

Público no Metropolitan Museum of Art
Foto: MIR, 2014.

Agora, sob pena de se tornar um espaço anquilosado, desfasado da realidade, o museu é obrigado a reinventar-se nas suas funcionalidades e atributos, bem como nas suas competências comunicativas.

Through positive visitor experiences, the museum can act as interlocutor, helping us understand the interconnectedness of concepts, helping shape our consciousness. […] This can happen, that is, if the museum values providing a way that we can engage with the experience being offered, whether the visit is physical, or as is becoming increasingly likely, a virtual one. (Dywan, 2011: 3)

Além de transmitir o património às gerações futuras, exige-se ao museu que faculte as coleções às gerações atuais, permitindo-lhes o uso, através da fruição e do conhecimento. Nesse sentido, é inevitável valorizar-se o papel do curador-mediador, estimulando a aproximação do objeto aos públicos, real e virtual, fornecendo-lhes as chaves de leitura para a decifração de significados e facultando-lhes os instrumentos para uma observação mais profunda e detalhada.

As novas tecnologias da informação e da comunicação têm um potencial democrático e são, desta forma, fatores de acessibilidade. Além de facilitar o acesso remoto de público impedido de se deslocar ao museu, por contingências de vária ordem, as novas tecnologias reformulam a visita ao espaço físico da exposição. Os visitantes, hoje, complementam a visita através da consulta simultânea em dispositivos eletrónicos, pessoais, ao mesmo tempo que fixam a memória através da captação de imagens ((Esta é uma outra forma de ver, tão válida como qualquer outra. Não se compreendem, por isso, as intenções pedagógicas das tutelas que proíbem a fotografia no museu, sob o pretexto de que se fotografa em vez de ver. Pode-se obrigar alguém a olhar e a ver?))

Este é, além disso, um processo recíproco: “With the Web 2.0 ‘perpetual beta’ shift encouraging input, if the museum outwardly offers its research, it can also harness collective intelligence from the public to link them in a meaningful way.” (Dywan, 2011: 53) O binómio museu-público enquadra-se numa perspetiva dialógica e interatuante, em que alterna a função de emissor e recetor.

As Humanidades Digitais, aplicadas à teoria museológica, conduzem a investigação para lá da mera utilização dos meios informáticos nos museus. Não se trata apenas de experimentar a transposição de suportes do analógico para o digital, nem de integrar quiosques multimédia, nem de criar sítios eletrónicos ou aderir às redes sociais. Trata-se de analisar e avaliar as novas formas comunicacionais, trata-se de equacionar os novos modelos de mediação do património em função sociedade contemporânea, das circunstâncias desta pós-pós-modernidade, das competências e das ambições da geração milenial face à concorrência feroz de outras propostas culturais igualmente aliciantes. Trata-se, sobretudo, de repensar o desígnio do museu e de procurar vias de atualização através das Humanidades Digitais.

Referências bibliográficas:
Dywan, B. (2011). Like. Comment. Share. Transforming engagement at the museum (Master’s thesis, OCAD University, Toronto, Canada). Disponível em: https://www.academia.edu/1355238/Like._Comment._Share._Transforming_Engagement_at_the_Museum
Marstine, J. (2006). New museum theory and practice: An introduction. Malden, MA: Blackwell.
Witcomb, A. (2002). Re-imaging the museum: Beyond the mausoleum. London: Routledge.

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