Museu, um lugar (também) para as crianças

Zoe Williams acha que sim. Hoje, no jornal The Guardian, conta as suas (atribuladas?) idas ao museu com os filhos, sobrinhos e amigos, respondendo, desta forma, ao aviso irritado de Jake Chapman para que os pais deixassem as crianças em casa, acusando-os de “arrogant” por terem a pretensão de que elas poderiam compreender a complexidade da obra de artistas como Jackson Pollock e Mark Rothko. A verdade é que isto me faz lembrar um comentário muito semelhante por parte do conservador de um dos nossos museus (!), desabafando que se dependesse dele só lá entravam adultos. Há uma semana, era Tiffany Jenkins (Vd. Para ir ao museu, todas as razões são boas) quem contestava a presença das crianças nos museus… A questão, portanto, além de pertinente, parece assumir-se como relevante.

Nova Iorque, Museum of Modern Art (MoMA) Foto: MIR, 2014.

Nova Iorque, Museum of Modern Art (MoMA)
Foto: MIR, 2014.

Afinal, levar as crianças ao museu é tempo perdido ou tempo ganho?

Zoe Williams considera que “They [as crianças] don’t have that adult need to interpret, or be seen to interpret. And that gives them more freedom to immerse themselves, or not, as the work takes them.” (Williams, 2014, 9 out.). Também, na altura dos comentários de Jake Chapman, a Royal Academy of Arts de Londres contrapôs que “Everyone comes at their own level” e a National Gallery também veio dizer que children benefit a great deal from visiting art galleries and museums … it widens their horizons, can develop inquisitiveness and curiosity about the world, boost creativity, and foster craftsmanship and storytelling” (cit. in Mesure, 2014, 3 ago.).

Depois de um prolongado esforço para chamar os mais novos, deparamo-nos agora com os sinais de impertinência e enfado verbalizados por Jake Chapman. Na realidade, os indícios vêm de longe. Encontramo-los na forma monológica e distante com que o museu expõe as obras, na forma como propõe uma mensagem cifrada, carregada de silêncios e códigos, a que só uma elite tem acesso.

À arrogância que Jake Chapman atribui a quem leva crianças aos museus e galerias, podemos nós contrapor a arrogância dos museus que se limita a construir um espaço museográfico, sem chaves de leitura, nem elementos apelativos que estabeleçam uma ligação sensorial (não apenas visual) e emotiva (não apenas racional) com a pluralidade efetiva dos seus públicos e, portanto, também com as crianças. Podemos, ainda, reconhecer a arrogância dos museus que pressupõem o diálogo “inter pars”, estabelecendo uma subliminar hierarquização entre quem está apto para ver e quem não compreende o que vê, mas é politicamente correto tolerar.

Mais do que a insuficiente capacidade de comunicação, ou de mediação, falta aos museus, às tutelas, aos corpos curatoriais, o reconhecimento de que há diversos modos de ver e de que a obra de arte, enquanto “opera aperta” como defende Umberto Eco, apenas se cumpre através da multiplicidade de perspetivas em que é percebida e assimilada.

“Il problema del rapporto del fenómeno al suo fondamento ontológico si muta, in una propsettiva, nem problema del rapporto del denomino alla plurivalenza delle percezioni che possiano averne.” (Eco, 1997: 55)

É pretensioso partir do princípio que o modo de ver “erudito”, culto e intelectual, é mais válido que os restantes; é um preconceito achar que o público instruído na arte, ou no domínio do conhecimento em que o museu se insere, tem direitos privilegiados ao património exposto; é, no mínimo, simplista conduzir a ação museológica para essa elite.

O museu será tão mais dinâmico e enriquecedor, quanto mais integrar, não apenas a pluralidade dos seus públicos, como tem vindo a ser proclamado, mas a diversidade dos modos de ver que estes representam. Há museus de que gosto muito, outros que me aborrecem e outros de que não gosto nada. Há obras que conheço e compreendo, há outras que me surpreendem e seduzem, há aquelas que até acho interessantes e não me atraem, há outras pelas quais simplesmente passo ao lado.

O museu é, também, um lugar para crianças, se, como em tudo na vida, respeitarmos as suas individualidades, os seus ritmos, os seus gostos… O museu deve ser, também, um lugar para crianças, criando modelos de mediação adequada para que a ida ao museu seja uma experiência positiva e motivadora. Retomando Zoe Williams: “Taking children to art galleries Their delight at spotting nudes and the honest questions they ask mean a visit to an art gallery can be best with kids.” (Williams, 2014, 9 out.) Obriga-nos a descodificar o objeto à medida das suas capacidades, mas dá-nos a contrapartida de um outro olhar mais nu e límpido, talvez mais autêntico.

Referências bibliográficas:
Eco, U. (1997). Opera aperta. Milão: Bompiani.
Mesure, S. (2014, 3 ago.). A gallery visit? Leave the children at home, says top artist. The independent. Disponível em: http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/art/news/a-gallery-visit-leave-the-children-at-home-says-top-artist-9644678.html
Williams, Z. (2014, 9 out.). Taking children to art galleries. The guardian. Disponível em: http://www.theguardian.com/lifeandstyle/2014/oct/09/taking-children-art-galleries-tate-modern-britain

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