Para ir ao museu, todas as razões são boas

A propósito de um artigo de Tiffany Jenkins acerca do acesso das crianças aos museus.

F. e a obra Interior (Papillon Gallery Project)  de Michael Craig-Martin (1993-2012) Paris, Centre Pompidou Foto: MIR, 2013.

F. e a obra Interior (Papillon Gallery Project) de Michael Craig-Martin (1993-2012)
Paris, Centre Pompidou
Foto: MIR, 2013.

Tiffany Jenkins apresenta-se no blogue homónimo como “cultural sociologist, writer and commentator” onde aborda temas nos domínios da cultura, da arte e do património. É considerada sobretudo pela investigação desenvolvida em torno do sentido simbólico e do uso de restos humanos, cuja análise, que abrange aspetos políticos, sociais e éticos, sintetizou na obra Contesting human remains in museum collections: The crisis of cultural authority, publicada em 2011, pela Routledge, onde acaba de publicar, em julho passado, a Political culture, soft interventions and nation building.

No debate Battle of ideias, promovido pelo Institute of Ideas at the Barbican e que irá decorrer nos próximos dias 18 e 19 de outubro, em Londres, Tiffany Jenkins integra o painel de oradores na sessão “Are museums turning into playgrounds?” (19 de out.). Se falar dos restos humanos expostos no museu, apesar de ser um tema sensível, é relativamente consensual, com uma linha de ação definida já pelo Conselho Internacional dos Museus (ICOM), falar do acesso das crianças ao museu já anuncia uma maior polémica e contestação.

No texto de apresentação da sessão, depois de aludir aos “considerable resources” para atrair visitas escolares e familiares, lê-se que “children can be disruptive for other museum visitors”. Entretanto, num artigo publicado no sítio da IdeasTap, Tiffany Jenkins adianta já algumas considerações, cujo teor se anuncia, desde logo, a partir do título “Stop children taking over our museums and galleries”. Dessa forma, evitar-se-ia a fatalidade de transformar o museu em playground, num pátio de recreio ou num parque de diversões!

F. no Lisboa Story Center Foto: MIR, 2014.

F. no Lisboa Story Center
Foto: MIR, 2014.

Nalguns pontos, reconheço que até concordo Tiffany Jenkins, nomeadamente, quando constata que “Today, museums are not just child friendly; they are child centred, organised around every perceived need of the little ones” (Jenkins, 2014, 26 set.). Irrita-me a designação de “Serviços Educativos”, como se toda a atividade de comunicação externa no museu se cumprisse através da relação que estabelece com as escolas, sobretudo porque, de facto, é isso que acontece. Também concordo que a centralização dos recursos, ou a focalização da ação museológica, nas camadas mais jovens, acaba por funcionar como pretexto para uma superficialização do próprio discurso. “[…] these institutions fall over themselves to welcome younger visitors, who, let’s face it, are easier to please than the traditional older, more discerning clientele – grown-ups – who tiresomely complain, about the facilities.” (Id., ibid.) Continuo a concordar que isto se transforma num mau serviço prestado também às crianças, sugerindo-lhes perspetivas enviesadas de apreciação das obras, através de uma narrativa artificialmente infantilizada, tomando a parte pelo todo, o marginal pelo conteúdo.

“Instead of introducing young people to the material and artistic achievements of past human civilisations, too many cultural institutions direct attention away from what is unique about them, often running activities only indirectly related to what is on show.” (Id., ibid.)

Ainda que concordando pontualmente, divirjo substantivamente na proposta de afastar as crianças dos museus, como elementos perturbadores do ambiente seleto, readmitindo-os apenas quando forem capazes de apreciar estes lugares especiais.

“When children are old enough to appreciate cultural riches, museums and art galleries should aim to introduce them to the kind of space that they will want return to over their life time. This means not only confidently showing them interesting, beautiful, and unique things, but also, crucially, instructing them in how to behave in such special places.”  (Id., ibid.)

Estas considerações têm subjacente a consideração elitista de que uns visitantes são melhores do que outros e de que há modos de ver mais adequados do que outros. Os primeiros museus tinham uma missão social de trazer os espólios que, até então, se concentravam nas mãos de alguns privilegiados, à fruição de todos. Ao longo dos tempos, o museu procurou dinamizar a pluralidade de públicos, criando múltiplas conexões, chamando minorias e grupos marginais da sociedade, ao mesmo tempo que procurava estabelecer uma articulação ativa com a comunidade. Embora tenha mantido a conotação como local de prestígio, o museu tornou-se um destino transversal aos vários grupos sociais e cuja frequência é encarada como sinal de promoção cultural.

A visita ao museu democratizou-se e, de alguma forma, tornou-se acessível a todos. Isto implica diferentes modos de ver e, por conseguinte, diversos modelos de visita. Apenas o preconceito intelectual promove uns em detrimento dos outros. A visita com um propósito de estudo e análise pode ser considerada mais válida do que a visita feita apenas para ocupar os tempos livres? Quem visita o museu e observa as obras expostas tem um modo de ver mais válido do que quem se faz fotografar junto a elas? Podemos julgar Tamino e Pamina, em detrimento de  Papageno Papagena? Uns são mais legítimos do que outros? Quem nos habilitou a julgar dessa forma? Por mim, acho fascinante a diversidade de atitudes, gostos e objetivos que compõem a humanidade. É a pluralidade de perspetivas e fruições que fazem do museu um corpo orgânico, dinâmico e plurifacetado.

Vinda da província e apesar de nas viagens de Verão em família terem sempre feito questão de visitar os monumentos das terras por onde passávamos, lembro-me do constrangimento da entrada nos grandes museus quando vim estudar para Lisboa. No Algarve, os museus eram pequenos, além de poucos! Lembro-me do esforço para contrariar a timidez ao entrar no Museu de Arte Antiga ou na Gulbenkian e da atitude vigilante a observar os outros e afinar o comportamento em função do que via.

Talvez o meu esforço em levar as crianças ao museu tenha sido motivado por isso. Esse é um ritual “nosso”: vamos ver o que nos apetece, paramos junto daquilo que nos chama a atenção (até posso ser eu a chamar-lhes a atenção), construímos histórias a partir do que vemos… Aos três anos, numa exposição temporária da Gulbenkian, a M. parou na frente de uma pintura abstrata e exclamou com ar triunfante: “Olha a máquina de escrever do avô!” – senti-me feliz naquele momento. Sei que, hoje, entram nos museus com o à-vontade de quem está em casa, num ambiente que, apesar de ser especial, sentem como seu. Não conheço melhor forma de nos apropriarmos do património, da arte e da cultura, do que senti-los como coisa nossa.

Referências bibliográficas:
(2014). Are museums turning into playgrounds? Battle of ideas [sítio official]. Disponível em: http://www.battleofideas.org.uk/2014/session_detail/8991
Jenkins, T. (2014, 26 set.).  Tiffany Jenkins: Stop children taking over our museums and galleries. IdeasTap Disponível em: http://www.ideastap.com/IdeasMag/all-articles/tiffany-jenkins-kids-museums-battle-of-ideas

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