Museus e tecnologia: uma realidade a dois ritmos

Uma deambulação pelas salas do Museu Nacional de Arte Antiga faz-se com uma reconfortante impressão de constância: são aquelas as obras que nos acostumámos a ver ao longo de décadas; são as mesmas salas, com as portas abertas numa sucessão quase infinita; é a mesma atmosfera familiar. E, no entanto, faz-se também com a grata descoberta de algum refrescamento: de repente, apercebemo-nos de outra sequência, uma peça que não nos lembrávamos de ver ali, uns suportes que foram renovados, a sugestão implícita de um novo percurso.

Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga Foto: MIR, 2014.

Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga
Foto: MIR, 2014.

Prevalece a sensação de continuidade. A informação disponível continua escassa, limitada a legendas lacónicas, mas refreamos o impulso de agarrar no telemóvel, porque não há rede no museu (ao contrário dos transportes públicos com Wi-Fi gratuito). Prosseguimos com a nostalgia dos antigos museus, sem vestígios tecnológicos a intrometerem-se nas coleções de arte. Podemos desanuviar do frenesim contemporâneo e voltar atrás no tempo. Começo a sentir-me na pele do citadino Henrique de Souselas, na Morgadinha dos Canaviais de Júlio Dinis, quando, temendo o fastio da falta dos confortos modernos, redescobre as alegrias simples que lhe proporciona a frescura dos lençóis de linho na quinta de Alvapenha…

De repente, no meio do percurso, descobrimos uma instalação museográfica modernizada em torno da obra convidada “São Tiago Maior”, de José de Ribera, cedida pelo Museo de Bellas Artes de Sevilla.

Obra convidada: “São Tiago Maior”, de José de Ribera Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga Foto: MIR, 2014.

Obra convidada: “São Tiago Maior”, de José de Ribera
Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga
Foto: MIR, 2014.

 

Ao lado da pintura, um painel negro, com a reprodução da assinatura autógrafa do pintor e um texto de dois parágrafos acerca da obra; inserido neste painel, um ecrã com escassa informação gráfica e textual, numa apresentação digital com uma animação rudimentar e não interativa. Será que vale a pena? Será que basta incluir um dispositivo eletrónico para conferir modernidade? Será que basta mudar o suporte, do analógico ao digital, para melhorar a comunicação?

Entretanto, encontro um artigo de Danny Birchall e Mia Ridge, do Museums Computer Group, onde se lê:

“Museums are scattered with the remnants of past technologies. Audiences may be unaware of the ethernet ports lurking behind a kiosk, but display screens that don’t respond to their touch often baffle younger visitors. These legacies remind us of the inescapable fact that technologies and audience expectations move fast while museums move slow.” (Birchall e Ridge, 2014, 3 out.)

Está dito! – e fiquei esclarecida.

Referência bibliográfica:
Birchall, D., & Ridge, M. (2014, 3 out.). Post-web technology: what comes next for museums? The Guardian: Culture professionals network. Disponível em: http://www.theguardian.com/culture-professionals-network/culture-professionals-blog/2014/oct/03/post-web-technology-museums-virtual-reality?CMP=new_1194

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