Ser ou não ser museu, eis a questão

Um dos desafios mais prementes que o museu enfrenta diz respeito à forma como se posiciona na contemporaneidade e à forma como se adequa ao ritmo vertiginoso da mudança. As coisas não eram assim há vinte, trinta anos: não tínhamos telemóveis, a televisão tinha dois ou quatro canais e não havia comandos à distância, usávamos computadores pessoais como um substituto da máquina de escrever, não havia internet, as máquinas fotográficas eram analógicas… Nessa altura, o museu era expositivo e ninguém lhe exigia que fosse algo mais.

Berlim, Gemäldegalerie, julho 2012.

Berlim, Gemäldegalerie, julho 2012.

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Digitalização: nova vida para bibliotecas e museus

Em jeito de advertência, devo dizer que há assuntos de que não é possível falar objetivamente, sem nos colocarmos inteiros, com um turbilhão de memórias a afetar a lucidez da análise… talvez, sobretudo, quando se trata de algo em que investimos tempo, suor e lágrimas, travando lutas desesperadas por pequenas vitórias.

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Persistência e mudança: a difícil adesão dos museus às Humanidades Digitais

[Publicado, em simultâneo, no sítio do Dia das Humanidades Digitais #diahd14]

As novas tecnologias, além de criarem profundas transformações no espaço do nosso quotidiano, alteraram o paradigma epistemológico e metodológico das últimas décadas. Não será possível, ainda, avaliar objetivamente o impacto das novas tecnologias na cultura e na sociedade, mas é inevitável reconhecer as implicações do acesso hipermediático à informação. Hoje, somos detentores, quase involuntários, de grandes quantidades de dados, passando o investigador de “descobridor” a “selecionador-processador- redutor-organizador” da informação obtida, antes de efetuar a respetiva análise. É neste contexto que se formula uma questão de partida: como se reorienta a missão do museu na era digital? A partir desta, perfilam-se novas questões: de que forma se incorporam as Humanidades Digitais no museu? Em que consiste, agora, a função do curador, assumindo a coexistência do mediador-comunicador com a do conservador, após a longa tradição da prevalência das tarefas de conservação e preservação do património sobre a sua divulgação? Os conservadores e restantes profissionais dos museus estão dispostos a encarar a mudança? As tutelas estão, elas próprias, interessadas nessa mudança?

Utilização de recursos de Humanidades Digitais no Museum of Modern Art (MoMA) Foto: MIR, 2014.

Utilização de recursos de Humanidades Digitais no Museum of Modern Art (MoMA)
Foto: MIR, 2014.

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Museu, um lugar (também) para as crianças

Zoe Williams acha que sim. Hoje, no jornal The Guardian, conta as suas (atribuladas?) idas ao museu com os filhos, sobrinhos e amigos, respondendo, desta forma, ao aviso irritado de Jake Chapman para que os pais deixassem as crianças em casa, acusando-os de “arrogant” por terem a pretensão de que elas poderiam compreender a complexidade da obra de artistas como Jackson Pollock e Mark Rothko. A verdade é que isto me faz lembrar um comentário muito semelhante por parte do conservador de um dos nossos museus (!), desabafando que se dependesse dele só lá entravam adultos. Há uma semana, era Tiffany Jenkins (Vd. Para ir ao museu, todas as razões são boas) quem contestava a presença das crianças nos museus… A questão, portanto, além de pertinente, parece assumir-se como relevante.

Nova Iorque, Museum of Modern Art (MoMA) Foto: MIR, 2014.

Nova Iorque, Museum of Modern Art (MoMA)
Foto: MIR, 2014.

Afinal, levar as crianças ao museu é tempo perdido ou tempo ganho?

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Para ir ao museu, todas as razões são boas

A propósito de um artigo de Tiffany Jenkins acerca do acesso das crianças aos museus.

F. e a obra Interior (Papillon Gallery Project)  de Michael Craig-Martin (1993-2012) Paris, Centre Pompidou Foto: MIR, 2013.

F. e a obra Interior (Papillon Gallery Project) de Michael Craig-Martin (1993-2012)
Paris, Centre Pompidou
Foto: MIR, 2013.

Tiffany Jenkins apresenta-se no blogue homónimo como “cultural sociologist, writer and commentator” onde aborda temas nos domínios da cultura, da arte e do património. É considerada sobretudo pela investigação desenvolvida em torno do sentido simbólico e do uso de restos humanos, cuja análise, que abrange aspetos políticos, sociais e éticos, sintetizou na obra Contesting human remains in museum collections: The crisis of cultural authority, publicada em 2011, pela Routledge, onde acaba de publicar, em julho passado, a Political culture, soft interventions and nation building.

No debate Battle of ideias, promovido pelo Institute of Ideas at the Barbican e que irá decorrer nos próximos dias 18 e 19 de outubro, em Londres, Tiffany Jenkins integra o painel de oradores na sessão “Are museums turning into playgrounds?” (19 de out.). Se falar dos restos humanos expostos no museu, apesar de ser um tema sensível, é relativamente consensual, com uma linha de ação definida já pelo Conselho Internacional dos Museus (ICOM), falar do acesso das crianças ao museu já anuncia uma maior polémica e contestação.

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Museus e tecnologia: uma realidade a dois ritmos

Uma deambulação pelas salas do Museu Nacional de Arte Antiga faz-se com uma reconfortante impressão de constância: são aquelas as obras que nos acostumámos a ver ao longo de décadas; são as mesmas salas, com as portas abertas numa sucessão quase infinita; é a mesma atmosfera familiar. E, no entanto, faz-se também com a grata descoberta de algum refrescamento: de repente, apercebemo-nos de outra sequência, uma peça que não nos lembrávamos de ver ali, uns suportes que foram renovados, a sugestão implícita de um novo percurso.

Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga Foto: MIR, 2014.

Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga
Foto: MIR, 2014.

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Arquivologia, biblioteconomia, museologia e ciência da informação: O diálogo possível.

Araújo, C. A. A. (2014). Arquivologia, biblioteconomia, museologia e ciência da informação: O diálogo possível. São Paulo: ABRAINFO.

Fonte: Briquet de Lemos.

Fonte: Briquet de Lemos.

Carlos Alberto Ávila Araújo é professor na Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais, com um percurso académico entre o jornalismo e a comunicação social, acabando por convergir para a epistemologia da ciência da informação e para a articulação desta com as ciências patrimoniais (arquivística, biblioteconomia e museologia). Nos últimos anos, tem vindo a publicar artigos que, de alguma forma, anunciavam ou prenunciavam a obra de fundo que acaba de ser publicada pela Associação Brasileira de Profissionais da Informação (ABRAINFO), com o título Arquivologia, biblioteconomia, museologia e ciência da informação: O diálogo possível.

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