Os tesouros da Casa de Saboia em Lisboa

Exposição “Os Saboias. Reis e Mecenas (Turim, 1730-1750)
Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 17 maio – 28 set. 2014

A exposição chega ao fim no próximo domingo, coincidindo com as Jornadas Europeias do Património, o que faz prever um epílogo com grande afluência, na sequência da popularidade alcançada ao longo dos últimos meses.

Vista da antiga ponte sobre o Pó, em Turim, de Bernardo Bellotto. Foto: Público, Sandra Ribeiro.

“Vista da antiga ponte sobre o Pó”, em Turim, de Bernardo Bellotto.
Foto: Público, Sandra Ribeiro.

Na sequência da exposição “Rubens, Brueghel, Lorrain: A paisagem do Norte no Museu do Prado“, também esta decorre igualmente da parceria entre o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) e a empresa Everything is New, que assegura o investimento inicial, a museografia e a comunicação, tendo em contrapartida a receita da bilheteira até um montante previamente acordado, a partir do qual se reparte a 50% com a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC). De acordo com os dados publicados no sítio eletrónico da Everything is New, a exposição já foi vista por mais de 19.000 visitantes, muito aquém, portanto, dos 80.000 que viram a exposição do Prado.

Além disso, também esta exposição decorre de uma ação articulada com outro museu, o  Museo Civico d’Arte Antica – Palazzo Madama, de Turim. Em concomitância com a exposição Os Saboias, no museu italiano, apresenta-se a exposição “Tesori dal Portogallo: Architetture immaginarie dal medioevo al barocco”, preparada pelo MNAA, com 120 obras de pintura, escultura, desenho, ourivesaria, manusccritos e tratadística, provenientes de museus, palácios, igrejas e coleções privadas portugueses. Como se afirma no sítio eletrónico do museu italiano “i colloqui tra i musei hanno intrapreso la via della reciprocità e dello scambio culturale, per puntare alla valorizzazione dei reciproci patrimoni e per trasformarli in nuove basi di relazione e di conoscenza”, ao mesmo tempo que evoca a ancestralidade do eixo Turim-Lisboa, através das relações entre as casas reinantes e das trocas culturais, tomando como exemplo o projeto de Filippo Juvarra para um palácio ambicionado por D. João V, nunca realizado.

Em contrapartida, a exposição Os Saboias foi concebida especialmente para o MNAA, pelo Palazzo Madama, em colaboração com a Soprintendenza Regionale del Piemonte, e comissariada por Edith Gabrielli e Enrica Pagella, evoca a cidade de Turim capital do Reino do Piemonte, sob o domínio dos Saboias, na primeira metade do século XVIII. Trata-se precisamente da altura em que Turim, através da crescente fama da arquitetura de Filippo Juvarra no contexto da arte europeia, se tornava um ponto de referência do Rococó internacional.

A exposição estrutura-se em seis núcleos temáticos: A Corte dos Saboias: reis e mecenas, com os retratos dos mecenas, por Clementina e Duprà, e uma vista da cidade, por Bellotto; As artes em concerto: arquitetura, escultura, artes decorativas, com obras de artistas que provocaram uma revolução no gosto da época, como o arquiteto Filippo Juvarra, o escultor e ourives Francesco Ladatte e o ebanista Pietro Piffetti; O teatro, com obras de Giovanni Michele Graneri  e os esboços para cenas do Teatro Régio de Turim, pintados por Crosato e pelos irmãos Galliari; A pintura, com obras de artistas chamados a Turim para decorarem as residências reais; Fontes e modelos, com gravuras e livros de Boucher, Germain, Meissonnier que circulavam na Europa a promover os modelos do ornato rococó; O triunfo do ornamento, com outras disciplinas artísticas e onde se encontra O sacrifício de Isaac, em marfim e ébano, de Simon Troger.

Núcleo "A pintura".

Núcleo “A pintura”.
Foto: MIR, 2014.

Uma exposição correta, com uma museografia coerente, com indícios de uma contextualização sem estridências e uma informação bem articulada. É, mesmo, uma exposição bonita. Tudo certo, portanto. Apesar de não se perceber o destaque ao autor das obras em detrimento dos títulos, nas tabelas; apesar de as tabelas continuarem a referir o óbvio (material, técnica, dimensões), sem esclarecer o significado; apesar do recurso a uma legenda única para um conjunto de obras permitir alguma confusão na leitura…

Legenda da obra "Ceia em casa de Simão", de Sebastiano Ricci.

Legenda da obra “Ceia em casa de Simão”, de Sebastiano Ricci.
Foto: MIR, 2014.

Sobretudo, fixam-se as questões que, para lá da exposição, ficam sem resposta e mantém-se a apreensão quanto à missão do museu. O MNAA é considerado o principal museu português, com o mais amplo repositório da nossa história da arte e das suas conexões, mas, através da parceria que estabelece com uma agência privada, parece demitir-se das funções que lhe são inerentes. A programação temporária recai essencialmente numa agência externa, relegando o museu para condição secundária de sala de exposições e balcão de propaganda dos espetáculos do Cirque du Soleil ou da Anastacia ((Maria Vlachou identificou os mesmos indícios na exposição “Rubens, Brueghel, Lorrain”, também suportada pela parceria com a  Everything is New, no blogue Musing on culture)) . De resto, no sítio eletrónico do MNAA, a informação limita-se a dois breves parágrafos, apoiada por uma imagem de baixa qualidade e com ligação à página da exposição no sítio da Everything is New.

A informação relevante está a cargo da Everything is New. É no sítio da agência que se encontram as notícias, as imagens, os vídeos, os dados complementares, as ligações às redes sociais. E, neste caso, sem retorno ao museu: na barra de topo, a referência ao museu apenas faz ligação ao mapa de localização no Google; a ligação ao museu faz-se através do logotipo integrado no conjunto dos patrocinadores e em igualdade de circunstâncias com estes.

Mesmo assim, vale a pena visitar a exposição que o Palazzo Madama preparou e a Everything is New apresenta no MNAA. Mas, a continuar apenas assim, onde fica a identidade do museu, a sua missão como mediador da cultura e da arte portuguesa? Não são estes os indícios de uma privatização da cultura que começa a implantar-se?

As parcerias público-privadas são inevitáveis e têm um papel fulcral neste contexto. Desde que se mantenham como parcerias, nas quais o museu mantenha a integridade, e continue a ser o principal agente da comunicação que estabelece com o público.

Fonte da imagem: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/descobrir-a-realidade-perdida-da-corte-portuguesa-na-vida-que-foi-a-dos-saboias-1636135#/0

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s