Os brasões do império e a persistência dos símbolos

Enquanto o resto do mundo mergulhava numa guerra implacável, Portugal do Estado Novo alheava-se na propaganda do regime e construía uma exposição monumental que exaltava as glórias nacionais e do império colonial… Comemorava-se o 8º centenário da fundação da nacionalidade, a pretexto da data em que D. Afonso Henriques usou pela vez o título de Rei de Portugal (1140), e o 3º centenário da restauração da independência, após o período filipino (1640).

Fonte da Praça do Império Foto: André Varela Remígio, 29 ago. 2014.

Fonte da Praça do Império
Foto: André Varela Remígio, 29 ago. 2014.

O local era, ele próprio, um universo simbólico, com o Mosteiro dos Jerónimos como cenário de fundo e o rio Tejo, em contraponto, entre a estátua de Afonso de Albuquerque e a Torre de Belém. A Praça do Império, “o grande átrio da Exposição” (Castro, 1940: 27), que funcionava como eixo aglutinador, era enquadrada pelos pavilhões “Portugueses no Mundo”, de Cottinelli Telmo, a oeste, e “Da Honra e de Lisboa”, e Cristino da Silva, a este, tendo a sul, o espelho de água de   António Lino, e, junto ao rio, na doca de Belém, o Padrão dos Descobrimentos, também de Cottinelli Telmo com a colaboração de Leopoldo de Almeida. Para lá do sentido imanente a cada um, os vários elementos deste conjunto, através das semânticas relacionais estabelecidas entre si e com o todo, criavam um sistema de aparato e propagação doutrinal.

No centro, precisamente, ao centro, a fonte monumental e luminosa, de António Lino (com a colaboração de Carlos Buigas na conceção dos jogos de luz e água) inseria-se jardim quadrangular, desenhado pelo arquiteto Vasco Lacerda Marques, com esculturas em pedra e calçada portuguesa a forrar o chão, ciprestes, oliveiras e cedros talhado em buxo.

Cottinelli Telmo estabeleceu as diretrizes do projeto, ao que parece, segundo uma ideia prévia de Duarte Pacheco (cfr. Telmo, 1939: 250), de forma a não ofuscar, nem competir, com a monumentalidade e o detalhe ornamental do Mosteiro dos Jerónimos.

Finda a exposição, desmantelados os pavilhões, o lugar sofreu um lento abandono, enquanto tardavam novos projetos de substituição e reabilitação. A Praça do Império, “a obra mais perene” (Nobre, 2010: 46) da exposição, sofreu poucas alterações: em 1944, os cavalos-marinhos, de António Duarte, foram refeitos em pedra; na década de 1960, foram integrados, no jardim, os painéis de calçada com escudos das cidades portuguesas; após um período de indecisão, foi decidido manter a fonte, com as armas das famílias nobres portuguesas.

O 25 de abril ditou o fim do regime, do império, das colónias…

Em contrapartida, na Praça do Império, mantiveram-se os canteiros de buxo com as cruzes de Cristo e de Avis e os brasões das cidades e das províncias de Portugal e das ex-colónias portuguesas, num total de 32 conjuntos de grandes dimensões. Mas os tempos são de crise(s) – várias! – e a Câmara de Lisboa, responsável pelo espaço, decidiu retirar os brasões, provocando protestos e aplausos.

Cruz de Cristo Praça do Império Foto: André Varela Remígio, 29 ago. 2014.

Cruz de Cristo
Praça do Império
Foto: André Varela Remígio, 29 ago. 2014.

Marisa Soares traçava, há dias, no Público, um retrato desconsolado do jardim:

“Situado em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, numa zona sempre repleta de turistas, o jardim com cerca de três hectares evidencia alguma negligência. Ervas secas e altas preenchem os canteiros delimitados por sebes, também elas secas nalguns locais. E as pequenas palmeiras ali plantadas já tiveram melhores dias. Mas o abandono é ainda mais visível na faixa que circunda a fonte.” (Soares, 2014)

No entanto, no mesmo artigo, é citado o estudo de duas arquitetas paisagistas do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, Elsa Isidro e Ana Luísa Soares, que desenvolveram a Metodologia de Caracterização e Classificação dos Jardins Públicos de Interesse Patrimonial e classificam o jardim com 46 valores numa escala de 50, atendendo ao interesse arquitetónico da praça e ao caráter único do “conjunto de brasões em mosaico-cultura” (cit. in Soares, 2014).

Um projeto paisagístico é, por natureza, efémero, assente na organicidade do espaço e dos componentes. Mesmo os projetos arquitetónicos, de uma materialidade mais pesada e substantiva, não são imunes à passagem do tempo e sofrem alterações, mutilações, acrescentos que testemunham o percurso da sua existência. Por isso, a reformulação dos jardins da Praça do Império não é um assunto inquestionável (haverá algo que o seja?).

Aquele jardim, como qualquer outro, tem as marcas do tempo em que foi concebido: a forma, a estrutura, o desenho, o conceito estético, a intencionalidade simbólica são documentos daquela época, da ideologia, das mentalidades, da cultura daquele Portugal em meados do século XX. E, se já lá havia terreno antes, continuará a haver, depois, um espaço aberto ao que a imaginação lá pretender plantar.

Brasão degradado Praça do Império Foto: André Varela Remígio, 29 ago. 2014.

Brasão degradado
Praça do Império
Foto: André Varela Remígio, 29 ago. 2014.

Não obstante, a argumentação e os procedimentos que têm vindo a ser publicitados é que parecem desapropriados, sem uma abordagem abrangente, num arrazoado confuso e sem consistência, apesar do tom lacónico do artigo divulgado no sítio oficial da Câmara (CML, 2014). Ainda que revelador.

Ficamos a saber que o jardim é um dos mais visitados na cidade e que são os serviços da CML que zelam pela sua preservação.

Ficamos a saber que a CML tem consciência do estado de degradação do espaço que, há duas décadas, não é intervencionado.

Ficamos a saber, também, que “A Câmara de Lisboa está a terminar um estudo para, finalmente, recuperar os elementos ornamentais feitos em flores e arbustos que em tempos adornaram o Jardim da Praça do Império” (Id., ibid.). E, aqui, começam a surgir dúvidas: que estudos são esses? quem os está a fazer e em que contexto? que elementos ornamentais, que flores, e que arbustos, pretendem recuperar? que “tempos” se pretende que sejam recuperados? Por outro lado, esta recuperação faz-nos lembrar alguns conceitos Oitocentistas, alguns textos de Viollet-le-Duc…

Ficamos a saber que “os brasões e outros elementos e arranjos ornamentais, como Brasões dos Distritos Portugueses, Cruz de Cristo, Escudo Português, entre outros, serão recuperados, repondo o seu desenho original” (Id., ibid.), mas que a “Câmara de Lisboa […] não deve despender recursos financeiros a recuperar os brasões criados pelo Estado Novo, das antigas colónias portuguesas” (Id., ibid.).

E, daqui, relevam-se os aspetos fulcrais desta questão: não existe um plano coerente e sustentado para o jardim, mas uma proposta parcelar e fragmentada; enquanto uns brasões são recuperados, outros devem ser desmanchados; a evocação do passado colonial é (ou parece ser) o critério de seleção entre o que deve ser mantido ou rejeitado. Ou seja, a questão não se prende com a função e a qualidade patrimonial do jardim, embora a discussão só fizesse sentido a partir do postulado gerado pela respetiva resposta.

A questão prende-se com a consciência que temos da nossa história, com a forma como nos relacionamos com o passado. Todas as histórias, individuais e coletivas, têm episódios brilhantes e espaços negros, mas é a articulação, a sequência, a dinâmica entre tudo que constitui a essência do que vivemos. A História de Portugal é, também, uma longa sequência de feitos heroicos e outros menos dignos, muitas vezes, em simultâneo. Mas todos esses feitos fazem parte da nossa história e, por conseguinte, são a nossa identidade.

O arranjo de uns canteiros, onde o cromatismo das plantas desenha brasões, é indício de uma técnica de jardinagem e da habilidade dos jardineiros que a realizam. O efeito é, em primeira instância, visual e estético. A perceção visual é seguida pela leitura do símbolo, mas, se a primeira é imediata, a interpretação do sentido exige um conjunto de referências específicas e particulares. Quantos, dos que veem o jardim, compreendem o que representa? E quantos, dos que veem os brasões, os conseguem identificar? E quantos conseguem ver a analogia ao passado colonial e se sentem agredidos pela alusão ideológica?

Sá Fernandes, o assessor da Câmara que despoletou o assunto, faz parte do grupo restrito que faz a leitura do jardim em profundidade: vê, interpreta e relaciona. Por isso, decidiu retirar as composições que recordem o passado recente de Portugal, justificando pelo facto de estarem ultrapassados e apresentarem uma simbologia anacrónica. Mas, isto é um equívoco: um símbolo, desde que reconhecido, não é anacrónico. Os símbolos do nosso passado colonial persistem e rodeiam-nos a cada instante e em cada lugar. Toda a zona de Belém, do Mosteiro dos Jerónimos, das praças Afonso Albuquerque e do Império (!), tudo evoca os cinco séculos em Portugal se fixou, dominou, administrou, conquistou e se miscigenou e se transformou por esse mundo fora.

Arrancar flores, apenas por esse motivo, parece um desperdício.
(Alguém se lembraria de deitar abaixo o Petit Trianon, sob o pretexto de estar ultrapassado e de evocar as brincadeiras pueris e levianas de Maria Antonieta, indiferente à miséria que assolava o povo à beira do desespero e da revolução?)

Referências bibliográficas:
Castro, A. de. (1940). A Exposição do Mundo Português e a sua finalidade nacional. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade.
CML. (2014, 27 ago.). Brasões do jardim da Praça do Império. Câmara Municipal de Lisboa (sítio eletrónico oficial). Disponível em: http://www.cm-lisboa.pt/noticias/detalhe/article/brasoes-do-jardim-da-praca-do-imperio
Nobre, P. R. (2010). Belém e a Exposição do Mundo Português: Cidade, urbanidade e património urbano. Lisboa: UNL-FCSH. (Trabalho de projeto de Mestrado em Património Urbano)
Soares, Marisa. (2014,, 27 ago.). Câmara de Lisboa vai acabar com brasões das ex-colónias no jardim da Praça do Império. Público. Disponível em: http://www.publico.pt/local/noticia/camara-de-lisboa-vai-acabar-com-brasoes-das-excolonias-do-jardim-da-praca-do-imperio-1667709#/0
Telmo, C. (1939). Exposição Histórica do Mundo Português. Revista oficial do Sindicato Nacional dos Arquitectos, n. 9 (Abril/Junho), pp. 249-257.

Nota: Agradeço ao Dr. André Varela Remígio a amabilidade na cedência das fotografias que ilustram o artigo.

One thought on “Os brasões do império e a persistência dos símbolos

  1. Recupero, de um comentário de Rui Afonso Santos, no Facebook, a lembrança dos bancos de lioz, do Mestre Monteiro e que, na maioria, vieram da Praça do Comércio, e que, também espero, que não estejam em risco de ser substituídos por outros de aspeto mais modernaço. (Lembro-me, aliás, de uma fotografia de Alexandre O’Neill sentado num desses bancos – e, se me lembro, passados tantos anos é porque tinham impacto!)
    Espero, ainda, que ninguém se lembre de substituir canteiros dos brasões por esta nova moda de jardins em pequenas e suaves colinas verdejantes com bordadura de pilaretes metálicos, cuja implantação parece viral nesta cidade…

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