Museu da Maré, museu de favela, museu de nós

O Museu da Maré é um museu de comunidade, a favela da Maré, no Rio de Janeiro.

Inaugurado a 8 de maio de 2006, corresponde ao modelo que, a partir de Georges Henri-Rivière e Hugues de Varine-Bohan e ao longo das últimas décadas do século XX, se desenvolveu como a tipologia mais completa, simultaneamente, global e transversal, na relação museu versus homem/meio.

Contrariando o esquema tradicional dos primeiros modelos, criados por uma elite social, intelectual ou artística a partir de um repositório patrimonial de prestígio, com a missão de preservar uma identidade cultural e transmiti-la às massas, o novo paradigma surgia como:

“un miroir où cette population se regarde, pour s’y reconnaître, où elle recherche l’explication du territoire auquel est attachée, jointe à celle des populations qui l’ont précédée, dans la discontinuité des générations. Un miroir que cette population tend à ses hôtes, pour s’en faire mieux comprendre, dans le respect de son travail, de ses comportements, de son intimité. […] L’homme y est interprété dans son milieu naturel.” (Rivière, [1980] 1985: 182)

O Museu da Maré surgiu do impulso e do esforço comunitário, fortemente mobilizada, captando o apoio do Departamento de Museus do Ministério da Cultura e os recursos do Programa Cultura Viva (Vieira, 2006: 1).

Museu da Maré Rio de Janeiro, outubro de 2009 Foto: MIR

Museu da Maré
Rio de Janeiro, outubro de 2009
Foto: MIR

Sendo uma iniciativa inédita, na articulação entre a favela e o papel social do museu, o Museu da Maré provocou o debate (ou a polémica) entre os que promoviam as potencialidades dinamizadoras do museu num contexto problemático e os que desconfiavam das intenções de branqueamento da imagem da favela. Em certa medida, este debate cumpriu um propósito seminal do museu: questionar uma realidade e desconstruir os (pre)conceitos acerca da favela.

A imagem externa da favela é um aglomerado de barracos e habitações precárias, um submundo de droga, violência e miséria, a partir da qual se constroem representações artificias, tão mais romanceadas e exacerbadas, quanto se afastam da realidade.

Tendo em vista a apropriação e a promoção das culturas endógenas,

“O Museu da Maré é um conjunto de ações voltadas para o registro, preservação e divulgação da história das comunidades da Maré, em seus diversos aspectos, sejam eles culturais, sociais ou econômicos”. (Museu da Maré, s.d.)

O museu, desta forma, torna-se um espaço de transformação, não subjugada ao poder, mas sobrepondo-se ao poder da elite institucionalizada. A comunidade correspondeu e “já antes da inauguração, moradores contribuíram com a doação de fotos e objetos pessoais que desejavam ver integrados ao acervo” (Vieira, 2006: 1), com histórias e lembranças, com experiências e saberes, com trabalho, tempo e vontade. Do ponto de vista da museologia, assinala-se a aplicação de um novo paradigma legitimador da multiculturalidade e da diferença.

Não se trata de um realização conceptual, mas de um espaço vivo de emoções. Condição que os museus, hoje em dia, procuram alcançar sob pena de perderem a capacidade de comunicar com o público.

Estive no Museu da Maré, em 2009, agradecendo a oportunidade ao empenho de Mário de Sousa Chagas.

Creio que não conheço um museu mais autêntico – bem mais do que a maioria dos ecomuseus europeus, que reconstituem ficções de realidades perdidas – e nenhum outro me permitiu uma experiência mais autêntica e imersiva.

Museu da Maré Rio de Janeiro, outubro de 2009 Foto: MIR

Museu da Maré
Rio de Janeiro, outubro de 2009
Foto: MIR

Ao longo do tempo que lá estive, soube da vida de quem lá estava e senti o pulsar de um corpo coletivo. Contaram-me a história da favela e das gentes, dos seus quotidianos, dos seus dramas e das suas esperanças. Estive numa casa sobre estacas, reconheci objetos familiares, senti aquele lugar como se fosse meu. Lembro-me daquela tina cheia de balas, lembro-me dos desenhos e da pasta de escola do menino que tinha sido baleado, lembro-me do absurdo daquela vida interrompida.

O museu provou ser uma extensão da comunidade, mantendo-se como um eixo catalisador através da qual se expressam memórias, medos e intenções.

Agora, o museu vive sob a ameaça de um pedido de desocupação do galpão industrial, onde se encontra instalado desde 2006, devido ao fim de comodato estabelecido com a Companhia Libra de Navegação, proprietária do espaço antes utilizado para o reparo de peças navais.

No passado dia 27, os representantes do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), do Sistema Estadual de Museus do Rio de Janeiro e do Instituto Pereira Passos, ligado à Prefeitura do Rio, estiveram reunidos no Museu da Maré, localizado no Complexo da Maré, para encontrar uma solução. À saída, Angelo Oswaldo, presidente do Ibram afirmou que “a reunião foi positiva: estamos propondo uma ação integrada entre os executivos federal, estadual e municipal para que possamos encontrar um espaço de diálogo com os proprietários do imóvel”. (cit. in Ibram, 2014).

Enquanto os responsáveis e os museólogos brasileiros procuram uma solução, é obrigação de toda a comunidade museológica empenhar-se e manifestar-se na defesa do Museu da Maré e na promoção da sua relevância para a museologia contemporânea.

Referências bibliográficas:
Ibram (2014, 30 ago.). Governos buscam saída para pedido de desocupação do Museu da Maré. Instituto Brasileiro de Museus (sítio oficial). Disponível em: http://www.museus.gov.br/governos-tentam-encontrar-saida-para-pedido-de-desocupacao-do-museu-da-mare/
Museu da Maré (sítio oficial). Disponível em: http://www.museudamare.org.br/joomla/index.php?option=com_content&view=article&id=48&Itemid=60
Rivière, G. H. [1980] (1985). Définition évolutive de l’écomusée. Museum: Images de l’écomusée, 37(4), 182-183.
Vieira, A. C. P. (2006). Da memória ao museu: a experiência da favela da Maré. Usos do Passado (Conferência apresentada no XII Encontro Regional de História, ANPUH-RJ, 2006). Disponível em: http://www.rj.anpuh.org/resources/rj/Anais/2006/conferencias/Antonio%20Carlos%20Pinto%20Vieira.pdf

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