Festas, feiras e mercados medievais: o passado entre a memória e a ficção

A História ao vivo, ou Living History é uma técnica pedagógica iniciada em Inglaterra, nos finais da década de 1970 pelo The Historic Buildings and Monuments Comission for England, um organismo executivo suportado pelo Department for Culture, Media and Sport britânico. Jay Anderson definia História ao vivo como ‘the simulation of life in another time” (1985: 395), ou a recriação de um evento “that literally trancends time” (id., ibid.).

Mercado Medieval de Óbidos

Mercado Medieval de Óbidos

Os primeiros projetos de Living History foram impulsionados e orientados pelo dramaturgo Patrick Redsell, coautor, com John Fairclough, da obra  Living History: Reconstructing the past with children (1985) e, com Erik Wilcock e Robin Little, de Contexts: Teaching strategies for fiction (1986), tendo mais tarde colaborado na obra coordenada por tambem por Fairclough A teacher’s guide to history through role play (1994).

Em 1986, a Associação Portuguesa de Museologia (APOM) convidou Patrik Redsell, o fotógrafo Stephen Wolfendem, o pedagodo Michael Corbishey e a conservadora brasileira Lurdes Horta Barreto para participarem no Colóquio APOM “A escola vai ao museu”. Nos catálogos deste colóquio e do que se lhe seguiu em 1987, foram apresentados vários projetos de História ao vivo (cfr. Solé, 2005), que marcam a introdução em Portugal desta técnica pedagógica de cariz colaborativo entre a escola e o museu. No decurso destas iniciativas da APOM, foram vários os projetos levados a cabo nos finais da década de 1980 com o propósito de propiciar o ensino vivenciado da História em contexto.

Por definição da proposição primacial, a História ao vivo não se confundia com espetáculo, nem permitia a presença de público, implicando a participação de todos os intervenientes como atores da representação, recriando uma personagem verosímil, do traje, à linguagem e à postura. A autenticidade e o rigor eram conceitos inerentes à reconstituição do facto histórico, subentendendo-se um isomorfismo entre a recriação e o contexto recriado. Não obstante, o conceito de autêntico pode ser ambíguo:

Living historians explicitly define authenticity as isomorphism between a living-history activity or event, and that piece of the past it is meant to recreate. In other words, the natives consciously understand authenticity as perfect simulation. However, our analysis shows the relevance of a second conception of authenticity, one that permeates living history but is not consciously understood by practitioners as central to the task of historical simulation. (Handler & Saxton, 1988: 242).

Assim, de técnica aplicada ao ensino da História, ao longo dos últimos trinta anos, tornou-se um espetáculo performativo, utilizado como instrumento de promoção turística, e que Maryline Crivello sintetiza como “bricolages identitaires et historiques” (2014, 6 ago.), sublinhando que estas pretensas reconstituições históricas se baseiam mais na apreensão do que na compreensão do passado e onde “L’idée du passé domine la réalité de l’histoire (id. ibid.). O conceito é, agora, recriação histórica, ou historical re-enactment: enquanto a reconstituição histórica assentava na mimetização de factos ou situações históricas, a recriação histórica é um conceito mais fluido, permitindo a formalização das experiências individuais na representação das interpretações conjeturais do passado.

Em Portugal, o calendário das reconstituições históricas estende-se entre março e dezembro, com uma óbvia prevalência nos meses de Verão: em julho, houve a  Feira Medieval de Penedono (Viseu), a Galaicofolia de Esposende, a  Feira Medieval de Caminha, o Mercado Medieval de Óbidos e a Viagem Medieval em Terra de Santa Maria da Feira, prolongando-se os dois últimos eventos no mês seguinte; em agosto, têm lugar a Feira Quinhentista da Ribeira Grande (Ponta Delgada), a Festa da História (Vila Nova de Cerveira), as feira medievais de Arcozelo (Viana do Castelo), de Castelo do Neiva (Viana do Castelo), de Silves, de Aljubarrota, de Belmonte (Castelo Branco) e o Mercado Medieval da Póvoa do Varzim.

A festa, o mercado ou a feira medieval (designação predominante) constituem, genericamente, um evento performativo sob o tema da Idade Média ou do imaginário que lhe está associado: o mercado ou a feira, reconstituindo as bancas e os ofícios artesanais da época; batalhas, torneios, combates e outras artes de cavalaria; as animações de rua, com acrobacias, malabarismos e música; os banquetes e iguarias.

18.ª Viagem Medieval em Terra de Santa Maria Santa Maria da Feira, 2014-08-12 Foto: Paulo Pimenta

18.ª Viagem Medieval em Terra de Santa Maria
Santa Maria da Feira, 2014-08-12
Foto: Paulo Pimenta

De alguma forma, em diferentes registos de iniciativa e participação, estão envolvidos os poderes locais através dos serviços camarários com a tutela da cultura, juntamente com associações locais e empresas e cooperativas privadas, isentando-se a escola deste processo. O poder político e o tecido institucional-empresarial comprometem-se na construção de uma versão limpa e laudatória, isenta de detalhes incómodos, do passado reconstruído. Com o intuito promocional que lhes está subjacente, a reconstituição da festa, do mercado ou da feira medieval, tornou-se um ato performativo abrangente e permeável a referências exógenas.

A designação da festa ou feira medieval é um pretexto para a representação da cultura e tradição de um lugar com vagas referências históricas, através da introdução de alguns adereços a funcionar como signos externos da realidade evocada, mas em que se podem intrometer evocações e memórias de outras realidades passadas, quando não a fantasiadas intromissões do momento presente.

A reconstituição do tema do mercado é favorável à intromissão dos produtos naturais e manufaturados, englobando num conceito abrangente de medievalidade tudo aquilo que pareça antigo, rústico, exótico ou manual. O mercado medieval torna-se, assim, uma mostra de artesanato contemporâneo, local ou exótico, rural ou urbano, numa mescla anacrónica de produtos, onde a tradição é atualizada ou reinventada em função de novos materiais e estéticas. De resto, sendo um dos fatores de promoção e rentabilidade do evento, acaba por recuperar a função de comércio, troca de produtos e informações, espaço de permeabilidade cultural, que era apanágio do mercado e da feira durante a Idade Média, residindo aqui a semelhança mais substantiva entre o real e a sua representação.

Feira Medieval Infante D. Pedro Figueira da Foz, Forte de Santa Catarina, 2014 Foto: Maria Helena Matias

Feira Medieval Infante D. Pedro
Figueira da Foz, Forte de Santa Catarina, 2014
Foto: Maria Helena Matias

A recriação subverte-se à recreação: o objetivo seminal da aprendizagem é sobreposto pelo propósito mais abrangente da atividade lúdica, assente na utilização de figurinos, armas e utensílios de fantasia, usados também pelos performistas-visitantes de forma eclética, mesmo quando os promotores continuam a advogar os princípios da autenticidade e rigor, exigidos aos atores-anfitriões. A recriação histórica e o uso das práticas performativas e lúdicas que lhe são inerentes articulam os parâmetros intangíveis da memória afetiva individual com a história oficial construída em função dos objetivos materiais dos interesses públicos e privados e da propaganda do lugar com fins turísticos. A verdade histórica, tornada irrelevante, é substituída pela representação ficcionada da ideia que cada um, individual e coletivamente, elabora acerca do passado, isto é, do conhecimento comum da diacronia e dos factos históricos, em regra, assente em dados distorcidos e lacunares.

Mercado Medieval Óbidos, 2014 Foto: Pedro Moita

Mercado Medieval
Óbidos, 2014
Foto: Pedro Moita

Por outro lado, o visitante pode apropriar-se da narrativa performativa para construir uma história individual, transpondo-se para o imaginário onírico de reis, princesas, cavaleiros e guerreiros – na 18.ª Viagem Medieval em Terra de Santa Maria, em Santa Maria da Feira, no final das justas medievais, Gil Campos, vestido de cavaleiro, montado a cavalo, pediu a mão da donzela sua amada Ana Filipa em casamento, frente à plateia que assistira ao espetáculo e que, assim, se prolongou nesta encenação particular, esbatendo os limites entre o público e o privado.

A distância temporal favorece a mitificação, ou uma apropriação romanceada, para a construção de contextos alternativos à banalização (ou à insegurança, ao desencanto, à adversidade) do quotidiano e onde a História se torna uma remota referência alegórica.

Ou seja: o passado reconstitui-se entre a memória e a ficção. E, entre memória e a ficção, ou entre o mito e a fantasia, que importa a História?

Referências bibliográficas:
Anderson, J. (1985). The living history sourcebook. Nashville, Tenn: American Association for State and Local History.
Crivello, M. (2014, 6 ago.) Les reconstitutions historiques (reenactment): Pratiques sociales et imaginaire du passé. Muse: memories and uses of the past = Usages du passé en Europe et en Méditerranée. Acedido em: http://muse.hypotheses.org/tag/reconstitution-historique-culture-du-passe-memoire-spectacle-historiographie-histoire-vivante
Fairclough, J., & English Heritage. (1994). A teacher’s guide to history through role play. Great Britain: English Heritage.
Fairclough, J., Redsell, P., & English Heritage. (1985). Living history: A guide to reconstructing the past with children. English Heritage.
Handler, R., & Saxton, W. (1988). Dyssimulation: Reflexivity, narrative, and the quest for authenticity in ‘Living History’. Cultural Anthropology, 3(3), pp. 242-260.
Little, R., Redsell, P., & Wilcock, E. (1986). Contexts: Teaching strategies for fiction. London: Heinemann Educational.
Solé, M. G. P. S. (2001, set.). A técnica de ‘História ao vivo’: a realização de uma feira medieval no Lindoso: didácticas e metodologias do ensino. Comunicação apresentada no IV Encontro Nacional de Didácticas e Metodologias da Educação: Percursos e Desafios, Évora, 26-28 set. 2001. Acedido em: http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/2980

Fonte das imagens:
Óbidos: http://mercadomedievalobidos.pt/tema/galeria/#
Santa Catarina: http://coimbratv.net/2014/04/3837/
Santa Maria da Feira: http://www.publico.pt/local/noticia/viagem-medieval-da-feira-tem-a-proeza-de-condensar-um-reinado-e-inspirar-apaixonados-1665862#/0
Óbidos: https://amusearte.files.wordpress.com/2014/08/1c48e-2014-08-0218-11-11.jpg

 

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