Tempo de férias, tempo de ir ao museu

É tempo de verão, tempo de evasão, tempo e pretexto para contrariar as rotinas. Tempo para procurar outros locais e cumprir novas obrigações e rituais diferentes. Tempo de descobrir os sítios imperdíveis em cada local, ir lá marcar presença, fazer um documento de prova e divulgá-lo ao mundo. Tempo de selfies, tempo de facebook, pinterest ou instagram.

É tempo de ir aos museus e de visitar monumentos…Tempo, também, de pensar em quem os visita e como os visita; e tempo, também, de pensar como se preparam os museus e os monumentos para receber quem os visita.

Também em Portugal começam a crescer as filas junto à entrada de monumentos e nas bilheteiras de alguns museus. Falta-nos (ou sou eu que os desconheço), porém, estudos de público que permitissem enquadrar quem procura, quais as motivações, o nível de satisfação ou de deceção atingido…

Mosteiro da Batalha, 2014

Capelas Imperfeitas, Mosteiro de Santa Maria da Vitória
Batalha, julho de 2014

Quem visita os monumentos e os museus em Portugal? Naqueles por onde tenho andado, ouço falar em português, mas pouco, muito pouco. No último domingo, a meio da tarde, a funcionária que estava à bilheteira num dos mais concorridos monumentos portugueses fora da capital, comentava o grande afluxo de visitantes que tinha havido nessa manhã, mas sublinhava que eram quase todos estrangeiros: “se houve algum português, não dei conta”. Além disso, eram ainda menos aqueles que pareciam inserir-se na dita geração Y (os millenials), quem, ao fim e ao cabo, irá determinar o consumo – e, por conseguinte, também o consumo cultural e patrimonial – no futuro próximo.

A comparação entre os visitantes nacionais e estrangeiros, obtida através da observação empírica nos locais, permite algum otimismo, vendo aqui o afluxo de um novo tipo de turista, mais exigente em termos de produto e com um leque mais amplo de consumo.

Poderá ser um bom indício. Portugal é reconhecido como destino turístico e tem vindo a ser repetidamente citado, na imprensa estrangeira, pela relevância do património cultural que possui, em complemento às valências naturais do “sol e praia” que, aliás, se têm vindo a revelar incapazes de competir com paragens mais exóticas e ainda pouco massificadas. Nos últimos tempos, o The Guardian,  a National Geographic, a CNN, a Lonely planet, têm feito reportagens com circuitos alternativos, valorizando a história e a cultura, e têm vindo a inserir alguns locais em listas e classificações de top’s.

Não obstante, se alargarmos os termos de comparação, somos obrigados a reconhecer que Portugal não possui extraordinários polos de atração capazes de atrair massas de turismo. Tomando como referência um artigo intitulado “Masterworks vs. the Masses” (Donadio, 2014, 28 jul.), publicado recentemente no The New York times,  aqui não há  “masterworks” capazes de atrair as “masses”. O que, afinal, liberta os museus e monumentos de alguns problemas relacionados com a gestão, a preservação e a mediação: é que, se por um lado, é aliciante a possibilidade de algumas obras excecionais constituírem “a a soul-nourishing cultural rite of passage” (Id., ibid.), por outro lado, este fenómeno “has turned many museums into crowded, sauna-like spaces, forcing institutions to debate how to balance accessibility with art preservation” (Id., ibid.). Já tive de enfrentar estas multidões, sobretudo, no Vaticano, no Louvre ou em Versailles e o balanço dessas visitas foi negativo: não vi o que queria ver; fui empurrada, impedida de me aproximar, levada para onde não queria; cansei-me e não gostei.

Salle de la Joconde no museu do Louvre Paris, julho de 2013

Salle de la Joconde no museu do Louvre
Paris, julho de 2013

Os museus e os monumentos portugueses estão longe destes problemas. Em comparação com os milhões de visitantes anuais registados nestes museus, o afluxo de público é, por aqui, quase residual, ainda que, aparentemente, os números estejam a aumentar consideravelmente.

A situação no plano nacional pode ser sumariamente caraterizada: poucos visitantes nacionais das novas gerações, fora do período escolar; aumento dos visitantes estrangeiros; capacidade, por parte das instituições, de absorver índices de públicos bem mais elevados.

Este cenário afigura-se como uma oportunidade decisiva para repensar a relação entre turismo e património.

A crescente promoção de Portugal como destino turístico e a potencialidade das ofertas culturais e patrimoniais existentes articulam-se com as novas exigências do turismo criativo. A questão, aqui, prende-se precisamente com o caráter ambíguo e movediço desta articulação: enquanto o turista quer usufruir de uma experiência mais rica e autêntica ou, pelo menos, exige ser convencido disso, a disponibilização do património pode envolver processos artificiosos que lhe retiram o caráter genuíno, isto é, a autenticidade requerida. É o risco – compreendido e assumido? – das feiras medievais, das representações de história ao vivo, das visitas guiadas por personagens de época…

A ação museológica e patrimonial, sob o risco de perder a capacidade interventiva neste processo, tem de ser repensada e reorientada em função das novas circunstâncias, sem perder a noção das suas funções mais arcaicas. Ao encontrar novas vias de expressão, capazes de propiciar experiências integradoras aos visitantes exógenos, é provável que se encontre modelos mais persuasivos e aliciantes junto dos millenials endógenos.

Ou, em alternativa, talvez tudo se resuma a tentar encontrar formas de mediação em consonância com a conjuntura existencial do público-alvo. Em 2000, Mark L. Alch descrevia os novos padrões desta geração: “Benefiting from a large technology-knowledge gap between themselves and their parents, members of the ‘Net generation’ represent a potentially more powerful and influential cohort than any previous generation” (Alch, 2000). Não é possível passar ao lado do avanço tecnológico e da comunicação global, como também não é possível ignorar a multiplicidade de estímulos e de tarefas simultâneas, ou as novas formas de aquisição e troca de conhecimentos, que são o paradigma da sociedade atual. Provavelmente, no momento em que os museus e os monumentos incorporem os signos da contemporaneidade na formulação dos seus programas e nas estratégias de comunicação com o público, poderão responder às exigências das novas gerações de públicos, nacionais e estrangeiros, e às perspetivas do turismo criativo.

Talvez um dia, os estudos em museologia se processem no domínio das Humanidades Digitais e os projetos museológicos se desenvolvam na articulação entre a realidade sociocultural dos millenials e as expetativas abrangentes do turismo criativo. Esse dia devia ser hoje.

Referências bibliográficas:
Alch, M. L. (2000, set.). The echo-boom generation: A growing force in American society. The Futurist, 34(5), 42.
Donadio, R. (2014, 28 jul.). Masterworks vs. the Masses. The New York times. Acedido em: http://www.nytimes.com/2014/07/29/arts/design/european-museums-straining-under-weight-of-popularity.html

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