Viajar no tempo de Lisboa

Lisboa Story Center, Praça do Comércio, Lisboa
Museu da Cidade, Campo Grande, Lisboa

“Viajar no tempo” não é expressão minha: fui com o F. e a B., 10 e 13 anos respetivamente, e foi assim que o mais novo comentou a ida ao Lisboa Story Center. Há algum tempo tínhamos ido ao Museu da Cidade e aquilo que os dois melhor recordam é que havia lá pavões e que andaram a apanhar penas espalhadas pelo jardim. Do museu? Bem, esse foi um bocado “seca”.

F. no Lisboa Story Center

F. no Lisboa Story Center
Lisboa, 2014

Para que fique assente: estão os dois acostumados a ir a museus e gostam de lá ir, constroem histórias à sua maneira, veem, observam o que lhes chama a atenção, interrogam acerca do que não percebem. Do Lisboa Story Center (será um museu?), gostaram e muito; do Museu da Cidade (será o que se espera, hoje, de um museu?), não gostaram, nem lhes deixou memórias. Se em ambos os sítios, é contada a história de Lisboa, é a forma de comunicar que diverge.

Na verdade, ambos os sítios se referem à história de Lisboa, mas o Museu da Cidade expõe os documentos sem contar a história, enquanto o Lisboa Story Center conta a história sem mostrar os documentos.

II - Origens míticas Lisboa Story Center, 2014

II – Origens míticas
Lisboa Story Center, 2014

No Museu da Cidade, andámos de sala em sala, sob o eco dos nossos passos e da sombra vigilante da guarda que nos seguia. Éramos os únicos visitantes, mas estávamos coagidos a seguir devagar, a manter a distância, a falar quase em surdina. A B. tentou perceber algumas peças lendo as legendas e, depois, pedia-me que as explicasse. O F. pediu-me que o levantasse para ver as gravuras do Terramoto, mas desistiu logo em seguida. Vimos a maqueta da Lisboa e tentámos acionar os botões, mas a nossa guarda omnipresente explicou-nos que “os computadores não funcionavam e o técnico estava de férias”.

No Lisboa Story Center, os documentos são substituídos por reproduções e pelo equipamento interativo e a exposição assenta numa base essencialmente tecnológica. Não há legendas, mas a visita faz-se com audioguias, nas versões infantil e para adultos. Não há guardaria, nem os limites são expressivos. A visita é dinâmica, interativa, multissensorial, imersiva, lúdica. O percurso, que é explicado à entrada e no folheto entregue a cada visitante, é intuitivo e segue uma ordem cronológica, num arco diacrónico dos primeiros povos que abordaram a Enseada Amena até à multiculturalidade da cidade contemporânea. Deambulámos pelo passado, vimos os romanos a preparar o guarum, entrámos num armazém do tempo dos Descobrimentos, sentindo o cheiro a café e a presença dos ratos, assistimos à queda de Miguel de Vasconcelos, em 1640, tivemos que olhar para cima para ver o frei Bartolomeu de Gusmão que nos sobrevoava de Passarola, sentámo-nos numa igreja barroca à luz das velas, sentimos o chão a tremer a 1 de novembro de 1755, vimos as pedras a cair, o horror dos mortos e dos feridos, estivemos à mesa de Manuel da Maia a ver os planos da reconstituição da Baixa Pombalina, percebemos a estrutura de gaiola, estivemos na praça do Regicídio e revimos as festas e as manifestações deste nosso tempo.

VI - Armazém do mundo

VI – Armazém do mundo
Lisboa Story Center, 2014

X - Cidade magnífica Lisboa Story Center, 2014

X – Cidade magnífica
Lisboa Story Center, 2014

O F. e a B. ficaram a conhecer a história de Lisboa, de uma forma aprofundada e consolidada, como não tinha sido possível no Museu da Cidade. A ida ao Lisboa Story Center, essa, sim, valeu a pena. Certamente, a ordem devia ter sido inversa; provavelmente, se formos agora novamente ao Museu da Cidade, a exposição fará mais sentido, a lógica do discurso tornar-se-á mais percetível e coerente. Provavelmente, ambos os espaços se complementam. Mas deverá ser assim? Poderá um museu depender de um centro de interpretação para cumprir a sua funcionalidade didática e comunicativa?

Tal como o Lisboa Story Center não necessita de um museu para comunicar de forma eficaz, também se previa que o inverso fosse viável. Também seria expetável que o Museu da Cidade dinamizasse o valor documental da coleção, através de dipositivos de interpretação que, sem colidir nem competir com os objetos expostos, nos fornecesse as chaves de leitura necessárias à sua compreensão.

No Museu da Cidade, estão expostos os documentos materiais relativos ao passado de Lisboa. Que bom seria se, através deles, nos fosse contada uma história, transportando-nos numa viagem ao passado. Que bom seria se os museus fossem (também) assim!

Nota final: o profissionalismo da Inês Subtil, no acolhimento do Lisboa Story Center, precisa e rigorosa nas informações acerca do percurso expositivo, muito atenciosa na entrega dos audioguias e na explicação do modo de utilização, com a maior das simpatias ao dar as boas vindas. Que bom seria se os museus tivessem (também) um acolhimento assim!

3 thoughts on “Viajar no tempo de Lisboa

  1. Devo dizer que desconhecia o «Lisboa Story Center, 2014» e fiquei cheia de vontade de lá ir quanto antes (sem repetir idas ao “Museu da Cidade” — que não me agradará certamente, re-ver no seu imobilismo, acreditando, como acredito, na apreciação da Profª Isabel Roque!): «O Filipe e a Beatriz [que estão tão crecidos e “cultos”!] ficaram a conhecer a história de Lisboa, de uma forma aprofundada e consolidada, como não tinha sido possível no Museu da Cidade. A ida ao Lisboa Story Center, essa, sim, valeu a pena».
    Inscrevo-me numa próxima «visita guiada» — para sobrinhos e/ou amigos–!

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