A arte ainda existe?

Exposição “Une histoire: Art, architecture et design des années 1980 à nos jours
Paris, Centre Pompidou, 2 julho – 7 mar. 2016

O Centre Pompidou apresenta a exposição “Une histoire: Art, architecture et design des années 1980 à nos jours”, comissariada por Christine Macel, com o ambicioso objetivo de contar a recente história da arte através de mais de quatrocentas peças consideradas “des clefs de lecture sur la création la plus contemporaine” (Macel, 2014). São obras de artistas, arquitetos e designers, de cinquenta e cinco países, algumas delas, obviamente, acabadas de entrar na coleção do museu. Como refere Philippe Dagen, num artigo do Le monde, onde anuncia a contra-história da arte:

“L’exercice est difficile. Il impose de composer avec des données générales et d’autres particulières. Les générales, c’est tout ce qui s’est passé durant la période considérée : la création plastique et architecturale dans son ensemble, en premier lieu, les débats théoriques et critiques, mais aussi, déterminantes, les situations historiques, économiques, religieuses, sociales.” (Dagen, 2014, 17 jul.)

Une histoire: Art, architecture et design des années 1980 à nos jours [cartaz da exposição] 2014

Une histoire: Art, architecture et design des années 1980 à nos jours [cartaz da exposição]
2014

Para os que vivemos os últimos 30 anos, no assombro da transformação vertiginosa da civilização que conhecemos e começamos a dar por adquirida quando, no início da adolescência, começámos a ter consciência do mundo que nos rodeava, é compreensível a vastidão do propósito. No campo da arte, é ainda Christine Macel quem refere a queda do muro de Berlim e o desabrochar dos artistas da era pós-comunista, os acontecimentos na praça Tiananmen, o aparecimento da nova China na cena artística internacional, o aparecimento de uma série de bienais, concluindo que “un véritable tournant décolonial et multiculturel a profondément modifié l’approche muséale de l’art” (Macel, 2014). Neste ponto da situação, no ritmo e na diversidade de sentidos em que ocorre esta mudança, o discernimento é um exercício difícil e, certamente, muito pouco provável.

Family Tree  Zhang Huan, 2000

Family Tree
Zhang Huan, 2000

Curiosamente, o Público publica hoje um artigo de opinião que, a propósito da instalação concetual de Élsio Menau, com a bandeira nacional pendurada numa forca, disserta acerca da arte contemporânea sob o título “Mas o que será a arte?”. O artigo é da autoria da professora universitária Maria de Fátima Bonifácio – não resisto a confessar que foi minha professora de História Económica e Social da Época Moderna, a única disciplina em que reprovei durante a licenciatura – e não deixa de ser curioso a forma como se posiciona face à criação artística – ao mesmo tempo que consigo alcançar alguns dos motivos pelos quais reprovei naquela disciplina.

A verdade é que a transformação não é um processo prolongado como ocorria “narrativa da História da Arte iniciada por Vasari no séc. XVI” (Bonifácio, 2014, 17 jul.). A verdade é que o tempo do século XX e XXI corre mais veloz do que no século XVI. E também é verdade que não temos a capacidade de recuar a essas épocas e viver as dinâmicas da arte entre a aceitação e a rejeição, a compreensão e a dúvida a que eram sujeitos os trabalhos dos artistas, daqueles que hoje conhecemos e daqueles que não restou memória. “[…] quem hoje em dia monopoliza o juízo sobre a qualidade artística de uma obra são os curadores de museus, os galeristas e negociantes de arte, os redatores das revistas da especialidade” (Id., ibid.), tal como antigamente eram os encomendadores e os patrocinadores. Porque este é um projeto em permanente discussão e avaliação, como sempre foi.

Enquanto Fátima Bonifácio se cristaliza nas expressões artísticas de meados do século anterior, referindo acerca de Jackson Pollock que “É difícil conceber maior ironia – ou absurdo” (Id., ibid.), Christine Macel releva a capacidade de reinvenção dos artistas nas últimas décadas.

“Dans cette effervescence mondialisée, les artistes ont réagi au phénomène de la globalisation et à ces nouvelles réalités avec un regard souvent critique, réinventant leurs pratiques en fonction des soubresauts d’un monde en transformation, où de nombreuses questions politiques et sociales se sont fait jour.” (Macel, 2014)

O artista é, como sempre foi, um indivíduo permeável às múltiplas circunstâncias da sua realidade, exprimindo-se a partir delas e em função das suas emoções, das suas ficções subjetivas e dos seus impulsos criativos. Por isso, a arte de hoje segue esta miríade de direções “réarticulant les sphères publiques et privées soumises elles-mêmes à de profonds bouleversements sociologiques”. (Id., ibid.) O artista, hoje como sempre, segue a sua inspiração; nós vemos o produto dessa inspiração, gostamos, ou não, compreendemos, ou não…

Lembro-me de um princípio que, há muito, ouvi a João dos Santos: só gostamos daquilo que, de alguma forma, compreendemos. A compreensão, aqui, é tomada em sentido lato, como aquilo que nos é familiar ou que nos desperta uma memória emotiva. Arrisco-me a dizer que, assim sendo, parte da responsabilidade pela distância entre a arte contemporânea e grande parte da nossa sociedade, cabe aos museus.

Maria Vlachou, muito recentemente, foi muito incisiva na análise que fez ao absurdo das legendas nos museus:

“Ao visitar a exposição de Vhils no Museu da Electricidade, numa sala encontrei uma legenda que repetia seis vezes “Portas antigas de madeira gravadas a laser”, seguindo-se as dimensões das referidas portas. Qual o propósito que serve uma legenda como esta? Porque é que se faz e para quem?” (Vlachou, 2014, 14 jul.)

Questiona-se a relevância da maior parte delas para a elucidação do sentido da peça exposta, quer o seu significado singular, quer o que adquire no discurso expositivo (haverá um discurso expositivo na maior parte das exposições de arte contemporânea?). Se o museu se assume como mediador (será que ainda se assume) entre a obra de arte e o público, a função falha na maior parte deles e, em particular, nos de arte contemporânea. Pensar que basta ver para conhecer é partir de um equívoco. Ao museu compete ensinar-nos a ver – e ensinar a todos, porque cada um de nós é iletrado na maioria dos domínios, por muito que possamos ser conhecedores de um determinado assunto.

A arte de hoje continua a ser arte. Não a arte a que estávamos habituados, porque esta é dos dias de hoje e responde aos parâmetros desta sociedade pós-moderna e pós-posmoderna. São os museus que, mesmo quando acolhem as obras da contemporaneidade, não se adaptam às contingências e aos desafios da mudança, fixando-se numa postura de distância e separação, iludida por uma incipiente máscara de mediação elitista.

A arte ainda existe – e é um extraordinário fenómeno de vitalidade criativa, de múltiplas expressões e formulações, reapropriações, reinvenções, novas formas, novos meios, novos suportes, novas técnicas. A história desta arte é que ainda não é viável e os museus ainda não descobriram a forma de expor e dar-nos a chave da sua leitura.

A exposição do Centre Pompidou é uma tentativa… gorada, a avaliar pela legenda da peça do cartaz (Etiquettes de vêtement en coton, clous, 220 x 60 x 20 cm, musée national d’art moderne, Centre Pompidou, Paris) e apesar do texto de apresentação de Christine Macel.

Referências bibliográficas:
Bonifácio, M. F. (2014, 17 jul.). Mas o que será Arte? Público. Disponível em: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/mas-o-que-sera-arte-1663116
Dagen, P. (2014, 17 jul.). Au Centre Pompidou, une contre-histoire de l’art. Le monde: Culture. Disponível em: http://www.lemonde.fr/culture/article/2014/07/17/au-centre-pompidou-une-contre-histoire-de-l-art_4458222_3246.html
Macel, C. (2014, 17 jul.). Une histoire, art, architecture et design, des années 80 à aujourd’hui. Le Centre Pompidou [sítio oficial]. Disponível em: http://www.centrepompidou.fr/cpv/ressource.action?param.id=FR_R-bae182224fcc99e9639a4d2eadf21993&param.idSource=FR_E-bae182224fcc99e9639a4d2eadf21993
Vlachou, M. (2014, 14 jul.). A curiosidade matou o visitante. Musing on culture. Disponível em: http://musingonculture-pt.blogspot.pt/2014/07/a-curiosidade-matou-o-visitante.html

Fonte das imagens: http://overthekneeproject.com/2014/06/20/une-histoire-art-architecture-design-des-annees-1980-a-nos-jours/

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