O brilho da fé

Exposição “O Brilho da Fé: ourivesaria sacra em Bragança
Cascais, Palácio da Cidadela, 26 junho – 7 setembro 2014

A exposição Brilho da Fé: ourivesaria sacra em Bragança, está no Palácio da Cidadela de Cascais, por iniciativa conjunta do Museu da Presidência da República, em parceria com a Diocese de Bragança-Miranda e o Museu do Abade de Baçal, onde foi apresentada em primeira mão.

Não deixa de ser significativa esta aliança entre museus sob a tutela laica do Estado, em particular, aquele que tem como missão a representação da Instituição Presidencial, e a hierarquia eclesiástica diocesana. Importa, por conseguinte, averiguar os benefícios mútuos que daí possam – ou não – resultar.

O brilho da fé [cartaz da exposição] 2014

O brilho da fé [cartaz da exposição]
2014

Do ponto de vista da Igreja, a exposição dos acervos reservados ao culto, insere-se numa dinâmica de evangelização e catequese que, paulatinamente, tem vindo a impor-se desde o Concílio Vaticano II e em conformidade com as sucessivas orientações dimanadas pela Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja e pela Conferência Episcopal Portuguesa. No caso particular, desta exposição é uma oportunidade para dar a conhecer, dentro e fora do núcleo restrito dos seus fiéis, o património de ourivesaria da Diocese de Bragança-Miranda (Igreja da Antiga Sé, Igreja de São Vicente, Igreja de Santa Maria, Igreja de Santa Clara), articulando-o com outras alfaiais provenientes do Paço Episcopal e Seminário da Diocese, que integram atualmente as coleções dos museus do Abade de Baçal, de Arte Antiga e do Soares dos Reis. Isto constitui uma possibilidade, ainda que efémera, de recuperar a unidade e o sentido global de um acervo artificialmente apartado. E, no entanto, será que isto se reflete na exposição? De alguma forma, as coerências dos conjuntos iniciais são evidenciadas através do aparato expositivo?

A museografia é límpida, de execução rígida e austera, criando um suporte branco, uniforme, às peças expostas; o efeito planificado é compensado pela iluminação, quer difusa na base das vitrinas, quer pontual a sublinhar determinadas peças ou detalhes. O contexto claro e luminoso – goste-se, ou não, como enquadramento de objetos metálicos – cria um efeito essencialmente visual em que os objetos são mostrados. Não afastados fisicamente, dado que uma parte se encontra exposta fora das vitrinas, numa opção eventualmente arriscada em termos de segurança. Mas também sem propor aproximações concetuais que enriqueçam o conhecimento acerca do exposto, pese embora a meritória presença de textos informativos acerca da funcionalidade litúrgica das alfaias.

A sobriedade, mesmo quando quebrada em soluções inesperadas como as ânforas dos Santos Óleos, colocadas ao lado da respetiva arca e atravessando obliquamente o tampo da mesa onde, sem qualquer afinidade com a respetiva função de uso, resulta numa estética neomodernista que continua a ser requerida pela museologia contemporânea. A nota dissonante passa pelo aspeto de expositor, resultante da justaposição e aglomeração de objetos, cujo agrupamento por categorias formais, nalguns casos, dissimula a lógica da utilização ritual. Iludir este aspeto, que é mutilar o sentido nuclear do objeto, sem aqui esteja subjacente qualquer intenção de catequese ou o mais subtil objetivo de persuadir e instigar à religiosidade. Constata-se, apenas, que o brilho predomina sobre a fé.

Do ponto de vista do Museu da Presidência, também não parecem óbvios os benefícios decorrentes destas iniciativas: em que medida se articulam com a missão do museu? Não significa que não existam vantagens e que não haja um propósito coerente e articulado. Registamos, apenas, que na ausência de um programa explícito, possam parecer ações desconexas, sem uma lógica definida e aparente. Se, quando o museu se propôs apoiar expressões da cultura portuguesa, o propósito era válido e relevante, perdeu-se ao esgotar-se na eleição de apenas uma modalidade. Se persistir numa atitude diletante e aleatória de recolha de iniciativas locais – da Igreja, de autarquias, de empresas, do que for – é todo o brilho que se perde.

Fonte da imagem:
http://www.museu.presidencia.pt/item_images/CartazA3_BrilhoFe_2014Cascais.jpg

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