Tradições dos santos populares

Junho é o mês dos santos populares. Nos bairros mais típicos e antigos, as ruas são decoradas com grinaldas de flores, balões e lanternas feitas em papel colorido, criando um ambiente alegre repleto de cores, luzes e música, a que se mistura o fumo das fogueiras e das sardinhas assadas na brasa, abafando o cheiro dos manjericos pendurados em cada janela. À noite, toda a gente sai à rua, fazendo o arraial. Nas esplanadas improvisadas, as sardinhas fazem-se acompanhar pelo caldo verde, pão com chouriça e vinho tinto.

Manjerico Foto: MIR, 2014

Manjerico
Foto: MIR, 2014

“Em Lisboa, o ciclo de Junho abrange as celebrações em nome dos três «santos populares» — Santo António, S. João e S. Pedro — , e consta de iluminações festivas, desfiles e «marchas» de «bairros», com as suas cantigas, bandeiras e luminárias, bailes populares nos mercados, fogueiras em certas ruas e bairros populares, venda de ervas aromáticas, etc.” (Oliveira, 1984: 124)

O primeiro santo a ser celebrado neste ciclo é Santo António, cuja festa ocorre a 13 de Junho. É tido como um santo alegre e bonacheirão, que favorece as moças solteiras arranjando-lhes casamento. Se nada, na sua biografia, suporta esta versão, isso deriva da persistência da tradição pagã que, por esta altura, na proximidade do solstício de Verão, festeja a fecundidade, os frutos e os cereais que brotam da terra e o início da época estival.

São vários os ritos propiciatórios que se fazem nesta noite para angariar noivo ou para lhe adivinhar a identidade:

  • a imagem do santo é afogado, vendado, colocado de cabeça para baixo, enquanto a rapariga faz o pedido de marido, mantendo a imagem dessa maneira, até ser realizado;
  • a rapariga escreve o nome de cada um dos seus pretendentes num papel que dobra e põe todos os papéis e um outro em branco, igualmente dobrado, numa bacia com água, para que, na manhã seguinte, o papel que estiver mais desdobrado lhe apresenta o nome do futuro marido, sendo que, se for o que estava em branco, significa que ficará solteira ou, na melhor das hipóteses, de alguém que ainda irá conhecer;
  • à meia-noite, num quarto às escuras e diante de um espelho, a rapariga diz sete vezes o nome do santo e acende uma vela, após o que olha na direção do espelho e vê refletido nele as feições do homem com quem irá casar; chama por Santo António sete vezes e acende uma vela… e logo verá refletido o rosto do homem com quem casará
  • E… quantos mais?

O manjerico, também conhecido como “erva dos namorados”, é um dos principais atributos destas festas. Manda a tradição que os rapazes comprem um pequeno vaso de barro com um manjerico, a que se juntou recentemente um cravo de papel e uma bandeirola com uma quadra, jocosa ou brejeira, para oferecer às namoradas, numa prova de amor ou numa tentativa de conquista. É uma planta delicada, que seca passado pouco tempo: será esta uma analogia do enamoramento? Enquanto dura, é fácil de cuidar: «é só cuidar e pôr ao luar».

A origem das marchas populares pode remontar às danças populares associadas à festa das Maias e, que por serem consideradas pagãs, foram proibidas por D. João I, ainda no século XIV, mas sem um êxito efetivo, transferindo-se para os bailes de quinta-feira da espiga; entretanto, durante as invasões napoleónicas, implantou-se o costume de dançar ao som das marchas militares, tal como faziam os franceses com a revolucionária “marche aux flambeaux”, marchando alegremente com tochas acesas na mão. Às luminárias foram associados os balões de papel e o fogo-de-artifício, costumes importados do contacto com a China e que eram já comuns nas feiras e arraiais de então. Não obstante, as marchas, tal como as conhecemos hoje, foram instituídas durante o Estado Novo, em 1932, seguindo uma ideia do realizador de cinema Leitão de Barros, com objetivos propagandísticos do regime e da exaltação de uma suposta cultura popular e folclorista. Tal como as Noivas de Santo António, que surgiram em 1950 por iniciativa do Diário Popular e que, ao mesmo tempo que ajudava os “casais pobres” promoviam as casas comerciais que patrocinavam o evento; interrompidas após o 25 de Abril, foram depois retomadas por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa.

Entretanto, outras tradições se perderam ou diluíram, como o trono de Santo António, erguido à porta de casa e onde os transeuntes deixavam esmolas, ou o pedido feito pelas crianças de “um tostãozinho para Santo António”. Ou o pular das fogueiras, nos arraiais. Também era costume que, nesta data, as igrejas distribuíssem aos mais pobres os “pãezinhos de Santo António”, sendo tradição que, se o pão não fosse comido e guardado durante o ano junto ao arroz, se conservaria sem estragar e assegurava o cumprimento de todos os pedidos feitos ao santo.

Bibliografia:
Oliveira, E. V. de. (1984). Festividades cíclicas em Portugal. Lisboa: Publicações Dom Quixote.
Lucas, I. (2005, jun.). Uma ‘tradição inventada’ em 1932. In Diário de Notícias. Disponível em: http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=602500

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