S. João Batista e as tradições das festas populares

S. João Batista, o Percursor de Cristo, foi filho tardio do sacerdote Zacarias e de Isabel, prima da Virgem, tendo ambas engravidado milagrosamente e quase ao mesmo tempo. Por isso, a iconografia da infância de Cristo o regista frequentemente em pueris brincadeiras com João menino que se faz acompanhar pelo cordeiro, prenunciando-lhe o sacrifício da paixão e morte ao designá-lo como “Agnus Dei” (cordeiro de Deus).

S. Joãozinho (S. João Batista menino) no deserto Francesco Bartolozzi  ( a partir de Guercino), 1764 Insc. F. Bartolozzi Sculp. Londra 1764 // Guercino inv. In: [82 prints, engraved by F. Bartolozzi and from the original drawings of Guercino in the collection of His Majesty]. London: [s.n.] Glasgow, University, Hunterian Museum & Art Gallery Collections

S. Joãozinho (S. João Batista menino) no deserto
Francesco Bartolozzi ( a partir de Guercino), 1764
Insc. F. Bartolozzi Sculp. Londra 1764 // Guercino inv.
In: [82 prints, engraved by F. Bartolozzi and from the original drawings of Guercino in the collection of His Majesty]. London: [s.n.]
Glasgow, University, Hunterian Museum & Art Gallery Collections

Fez-se pastor no deserto Hebrom, na Judeia, e juntou-se aos grupos de ascetas que aí viviam. Segundo S. Lucas, “no ano quinze do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos presidente da Judeia, e Herodes tetrarca da Galileia, e seu irmão Filipe tetrarca da Ituréia e da província de Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene, sendo Anás e Caifás sumos-sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias” (Lc 3, 1-3). Estas indicações permitem apontar o ano 28 da nossa era como data aproximada para o início da sua atividade de pregador, anunciando a próxima vinda do Messias. Na qualidade de Batista, introduziu o ritual do batismo, o qual se fixou posteriormente como cerimónia de iniciação no âmbito do Cristianismo, e batizou o próprio Cristo no rio Jordão.

Foi preso por ter denunciado, nas suas pregações, o adultério de Herodes Antipas com a cunhada Herodíade. Salomé, sobrinha do rei e filha de Herodíade, zangada por ele resistir à sua sedução, exigiu que o rei o mandasse matar, ao que este acedeu e lhe entregou a cabeça de João numa bandeja.

Desde o século V, a Igreja católica celebra a sua festa principal em comemoração do nascimento a 24 de Junho, coincidindo com a data que na altura marcava o solstício de Verão, seis meses antes do Natal, dado que, segundo o relato neo-testamentário, seria este o tempo de gestação de Isabel na altura da Anunciação do anjo a Maria.

Os festejos populares associados à festa de S. João derivam, por conseguinte, das antigas celebrações pagãs do solstício de Verão associadas ao culto solar e a rituais com fogos cerimoniais.

A tradição principal nesta data consistia em acender a fogueira com o sentido arcaico de reter a força solar, que inicia o declínio nesta data, a que se associavam objetivos purificatórios. Durante a Idade Média, uma lenda cristianizava este costume pagão estabelecendo as suas origens num acordo feito entre as duas primas, segundo o qual Isabel, ao sentir que aproximar-se a sua hora, acenderia uma fogueira no alto de um monte, a fim de avisar Maria. Em contraponto com a árvore de Natal, o tronco queimado na fogueira ou, por extensão, a própria fogueira tornou-se um dos emblemas da festa de São João. Atualmente proibidas por motivos de segurança, as fogueiras eram acesas nas ruas e praças, congregando todos os vizinhos à sua volta, enquanto os mais afoitos saltavam sobre o fogo. Tal como acontece na noite de Santo António, havia uma série de rituais propiciatórios ou divinatórios relacionados com o namoro e a vida amorosa associados ao salto da fogueira na noite de São João.

Associado à fogueira, desenvolveu-se o hábito de erguer mastros, ornamentados com ramos de verdura e festões de papel, de onde pendiam balões coloridos e lanternas, confirmando a importância do fogo nas festas do solstício de Verão.Porém, as tradições associadas às festas de São João não se esgotam no fogo.

À água das orvalhadas, ou a água que se bebe nas fontes ao início da madrugada antes do nascer do sol, também se associam poderes extraordinários de purificação e também de regeneração e proteção. Na cultura popular, estes poderes traduzem-se em beleza para os novos e vigor para os mais velhos, enquanto as raparigas procuram a graça de amores felizes. A reminiscência dos rituais pagãos ancestrais para assegurar a fertilidade e as boas colheitas passa pela associação de simbologias telúricas e propiciatórias do acasalamento e da fecundação.

O simbolismo inerente à água encontra-se também em certas plantas como o manjerico, a alcachofra ou o alho-porro. A São João, tal como a Santo António, também é atribuído o epíteto de casamenteiro: a alcachofra, queimada à meia-noite na fogueira, ao mesmo tempo que se recita “Em louvor de São João, para ver se (o nome do pretendido) me quer bem ou não” e depois enterrada num vaso e deixada ao relento, promete o casamento com o rapaz mencionado se na manhã seguinte tiver reflorido. O alho-porro, de conotação fálica, faz igualmente parte de um jogo amoroso e de sedução ou de provocação alegre e desprendida, batendo com ele na cabeça de pessoas do outro sexo, entre graças mais ou menos brejeiras, constituindo o lado mais malicioso e popular das festas. Hoje em dia, o alho-porro tem vindo a ser substituído por martelinhos de plástico.
O Porto, cujas celebrações por este dia já eram referidas por Fernão Lopes, fazendo remontar estas festas à época medieval, é um dos locais onde a tradição, ainda hoje, ganha maior relevo, com a criação das cascatas, cujo elemento principal é a água e a representação de João Batista no Jordão, o alho-porro, culminando, com o fogo de artificio que ilumina toda a cidade e o rio até à outra margem.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s