O resplendor e a glória da imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres

O culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres teve início na comunidade de freiras clarissas num lugar então denominado de Val dos Cabaços da vila de Água de Pau, hoje Caloura, junto ao mar, entre Vila Franca do Campo e Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, no segundo quartel do século XVI. Segundo a tradição, duas freiras deslocaram-se a Roma a fim de obter as Bulas Apostólicas necessárias e teria sido o próprio papa, Paulo III ou Clemente VII, a oferecer-lhes uma imagem-sacrário do Ecce Homo; na viagem de retorno, junto à costa da ilha, sofreram um naufrágio e a imagem terá desaparecido durante a tormenta. Algum tempo depois, a imagem seria miraculosamente encontrada junto ao convento, passando a ser alvo de especial devoção.

Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada. Foto: Osvaldo Janeiro, 2014.

Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada.
Foto: Osvaldo Janeiro, 2014.

Por volta de 1540, devido à exiguidade da casa face ao aumento do número de freiras, mas também devido à ameaça da peste e à vulnerabilidade face às incursões dos corsários, a comunidade dividiu-se e as mais pobres, seguiram para Ponta Delgada, onde ingressaram no Mosteiro da Esperança, acabado de fundar pela viúva do Capitão Donatário, Rui Gonçalves da Câmara. Vinha neste grupo a Madre Inês de Santa Iria, a quem se atribui a vinda da imagem do Ecce Homo para o mosteiro. Não há, porém, indícios documentais da existência desta imagem na posse das clarissas durante o século XVI.

A primeira referência explícita surge nas Crónicas da província de São João Evangelista das Ilhas dos Açores, de Frei Agostinho de Monte Alverne (1630-1726):

“Tem este mosteiro uma imagem do Ecce Homo de muita veneração, fazendo-se-lhe uma capelinha na empena do coro baixo. Sóror Tereza da Anunciada, por ser sacristã desta imagem dava de comer aos homens que nela andavam trabalhando, sucedeu em sexta-feira, onze de Abril de 1698, que não tendo pão […] abrindo o armário lhe caíram trinta e cinco pães […]” (Monte Alverne,  v. 2, p. 82).

V. M. Tereza da Annunciada, orando na capella do Santo Christo dos Milagres. J. Silvério Carpinetti, 1763.

V. M. Tereza da Annunciada, orando na capella do Santo Christo dos Milagres.
J. Silvério Carpinetti, 1763.

A Madre Teresa da Anunciada é referida como a principal impulsionadora do culto a partir de finais do século XVII. Segundo a Vida da veneravel Madre Teresa da Annunciada (1763), dedicou a vida a cuidar da imagem e a incentivar a devoção a Cristo e à sua Paixão. A biografia é, ainda, pródiga em relatos taumatúrgicos que contribuem para a implantação do culto.

“Os milagres por ela operados estão directamente relacionados com a expressão de dor, os suores de água ensanguentada que escorre da sua face flagelada, a tristeza profunda do esquecimento a que o seu culto havia sido votado, a ausência de práticas penitenciais, nomeadamente a da flagelação.” (Enes, 2010: p. 220)

Teresa da Anunciada, afirmando-se inspirada pela vontade divina, mandou edificar uma capela condigna, dentro do convento, mas acessível aos fiéis que lhe quisessem prestar culto, e, apesar da oposição de algumas freiras, angariou esmolas para transformar em joias preciosas os atributos de realeza com que Cristo fora humilhado pelos romanos: a tabela, o cetro e a coroa de espinhos. Deu, assim, início a um tesouro continuamente enriquecido pelas dádivas de figuras destacadas da sociedade micaelense ou de devotos anónimos, constituindo uma notável coleção de ourivesaria em que se incluem resplendores, cetros, coroas, capas, cordas de aljôfares, pérolas e joias familiares, além dos ex-votos em madeira, tela ou bronze. Destaca-se, pela preciosidade material, artística e iconográfica, o resplendor atribuído aos mestres Pollet, joalheiros da Casa Real, executado c. de 1785, por encomenda da 4.ª Condessa da Ribeira Grande e doado pelo neto, o 6.º Conde.

A primeira procissão deverá ter ocorrido ainda em vida de Teresa da Anunciada por volta de 1700. Em 1713, durante uma prolongada crise sísmica, a procissão saiu à rua e a imagem caiu e, perante grande comoção do povo, a crise parou. A partir de então, passou a ser conhecida pela invocação de Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Com a extinção das ordens religiosas no século XIX, o culto foi mantido pela comunidade até que, no início do século XX, o convento foi entregue à congregação de São José de Cluny, posteriormente substituída pela congregação das Religiosas de Maria Imaculada que continua a zelar pela imagem.

A organização do culto que lhe está associado pertence à Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres (ISSCM), cujos estatutos datam de 21 de abril de 1765.

“À Irmandade compete organizar os aspectos exteriores do culto, nomeadamente ordenar a procissão, a ornamentação do percurso, contratar as bandas de música, os sacerdotes e os diversos corpos de autoridades civis e militares. Cabe-lhe a ornamentação do frontal da igreja com motivos da paixão – cravos, martelo, cruzes, espinhos, etc. – profusamente iluminado; tratar do fogo-de-artifício ou, simplesmente de ruído, de modo a assinalar as festividades. Estava-lhe ainda cometida a função de recolha das esmolas pelas portas dos fiéis e da venda dos círios que os mesmos desejassem comprar e queimar.” (Enes, 2010: pp. 223-224)

É em virtude das funções que lhe estão cometidas que, face ao pedido de empréstimo do resplendor, peça principal do conjunto de adornos da imagem do Santo Cristo, para integrar a exposição temporária Splendor et Glória, no Museu Nacional de Arte Antiga, a Irmandade reagiu de forma veemente pela negativa.

Num documento datado de 24 de maio passado, a Mesa da ISSCM esclarece que:

“A Mesa da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres reafirma a sua oposição quanto à participação do Resplendor do Senhor Santo Cristo na exposição Esplendor e Glória do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.
[…]
Entende, tão somente que, sendo o Tesouro do Senhor Santo Cristo dos Milagres, a que pertence a magnífica obra de joalharia que é o Resplendor, composto por milhares e milhares de doações valiosas do Povo Devoto com a intenção de que as mesmas ficassem sempre junto da Veneranda Imagem, no Convento da Esperança, não se deve, sob que pretexto for, usurpar, em parte ou no todo, essas intenções de Fé, cujo valor afetivo, emocional e sentimental é, absolutamente, incalculável.” (ISSCM, 2014)

Desde então tem vindo a intensificar-se o fogo cruzado entre os partidários da posição da Irmandade e os que a acusam de fanatismo e ignorância, em protestos apaixonados e insultuosos.

O processo não é inédito e a polémica também não. Nem tão pouco tem a ver com o facto de o pedido ser feito por uma entidade estatal: em todas as exposições em que trabalhei, por iniciativa ou com a participação da Conferência Episcopal Portuguesa, houve casos em que as tutelas das obras solicitadas ou as próprias comunidades se mostraram desconfiadas e recusaram o empréstimo, obrigando a um longo e cuidadoso processo de comunicação acerca do propósito, das justificações, dos benefícios e das condições de segurança e, sobretudo, de respeito em que se processaria a musealização. Nunca um pedido foi recusado definitivamente, mesmo que isso nos obrigasse a entregar a peça em determinados dias para efeitos de culto.

Sou irrevogavelmente a favor da musealização do património religioso: qualquer objeto devocional e qualquer imagem religiosa podem ser cedidos para uma atividade de cariz museológico. A musealização proporciona inequívocas oportunidades de estudo, de restauro e de divulgação de obras que são, ordinariamente, vistas num determinado contexto e segundo uma perspetiva particular.

Porém, tenho lido uma série de considerações erradas em relação a este assunto: não é verdade que a Custódia de Belém não se tenha dessacralizado pelo facto de estar num museu; e também não é verdade que o resplendor seja um objeto sagrado.

Num processo de musealização, as alfaias sagradas perdem a sacralização:

“Não obstante as características de sacralidade atribuídas pela consagração, actualmente e para evitar utilizações abusivas dos objectos desafectos ao culto, a execração (isto é, a perda da qualidade de ungido) é implícita logo que o objecto seja desapropriado ou danificado. […] Isto significa que os objectos desafectos do ritual se encontram destituídos, imediata e inequivocamente, do conteúdo sacro que lhes esteve intrínseco, o que os liberta para funções profanas, nomeadamente, as de ordem museológica.” (Roque, 2011: pp. 205-206)

Além disso, as imagens de culto e os objetos devocionais não são consagrados e, portanto, não beneficiam da reserva de interdição. Constituem um sinal exterior da devoção através dos quais o crente materializa a sua crença no divino.

O resplendor é um dos atributos do Senhor Santo Cristo e é, igualmente, um documento do sentido estético do barroco, do gosto pelo aparato no contexto do exacerbamento das paixões e das emoções inerente à própria imagem e ao ritual a que está associada. Porém, não se trata um adereço qualquer. Trata-se de um complemento inerente a uma imagem cujo culto continua ativo. Nesta contingência e à partida, a imagem fica truncada do resplendor; o resplendor, atributo da representação da divindade, também perde leitura sem a imagem que o justifica e o seu significado ficará necessariamente truncado, caso seja apresentado apenas em função do seu conteúdo material e estilístico. Cabe, por isso, ao museu – e aos curadores – criar as estratégias que compensem ambos os fenómenos de perda e, simultaneamente, esclareçam as tutelas e os devotos acerca das vantagens e das contrapartidas decorrentes de uma ação que, além disso, é temporária.

A questão de fundo tem a ver com a noção de património e o sentido de pertença. Mais do que à Irmandade, a imagem e o seu resplendor pertencem a quem lhe presta culto. Pois é no uso e no zelo que está o merecimento. Enquanto houver uma função de uso, esta sobrepõe-se a outras utilizações secundárias, sejam marginais ou complementares. Se for quem se opõe ao empréstimo do resplendor para a exposição no Museu de Arte Antiga, for quem lhe presta o culto e lhe garante uma contínua devoção, a sua decisão deve ser soberana porque, neste caso, a funcionalidade se mantém ativa. A quem pede o empréstimo, se estiver convicto da consistência e da articulação do projeto museológico, resta encetar uma ação de pedagogia junto da comunidade, apresentando os argumentos que justificam a inclusão da peça no programa expositivo e oferecendo alternativas para que a imagem, sem o resplendor, não perca a integridade aos olhos de quem a procure.

Neste processo, ao invés de extremar posições, impunha-se a procura de consensos. A resolução não deveria ter sido ao arrepio de quem efetivamente zela pela preservação de um patrimônio que considera seu e, como tal, lhe garante a autenticidade.

Referências bibliográficas:
Clemente, J. (1763). Vida da veneravel Madre Teresa da Annunciada. Lisboa: na Off. Patriarcal de Francisco Luiz Ameno.
Ennes, M. F. (2010). A invocação e o culto do Senhor Santo Cristo em Ponta Delgada – São Miguel. Cultura: Revista de história e teoria das ideias, 27, p. 211-226. 
Monte Alverne, A. de. (1960-1962). Crónicas da província de São João Evangelista das Ilhas dos Açores. Ponta Delgada: Inst. Cultural.
Roque, M. I. R. (2011). O sagrado no museu. Lisboa: Universidade Católica Editora.

Fontes das imagens:
[Foto] https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4360489588026&set=t.100001771403051&type=3&theater
[Gravura] http://purl.pt/12419/2/

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