O turismo, sob o desígnio da cultura

O termo turismo deriva da designação Grand Tour, designação dada ao circuito da aristocracia e alta burguesia ao longo da Europa e, em particular, pela França e Itália, entre o século XVII e meados do XIX, a fim de conhecer os vestígios da história e da cultura do passado.

A Grand Tour Group of Five Gentlemen in Rome John Brown (atrib.), 1773 Londres, National Trust, Ham House; foto: National Trust Images/Derrick E. Witty

A Grand Tour Group of Five Gentlemen in Rome
John Brown (atrib.), 1773
Londres, National Trust, Ham House; foto: National Trust Images/Derrick E. Witty

A utopia do lugar distante e o desejo da partida, sob o desígnio do alargamento dos horizontes, remonta aos primórdios da humanidade. Depois da sedentarização manteve-se o impulso da deslocação documentado desde as primeiras civilizações históricas. A construção monumental, mesmo tendo propósitos religiosos, pretendia impressionar a humanidade e, como tal, os edifícios eram agente de notoriedade, quer para quem os construía, quer para quem os visitava. A notícia das pirâmides egípcias, dos jardins babilónicos, dos palácios assírios circulava e despertava a curiosidade entre os povos vizinhos. No templo Deir el-Bahri, em Luxor, a viagem da rainha Hatshepsut à terra de Punt, em 1480 a.C., está registada em relevo, mas há relatos escritos de visitas às pirâmides de Saqqara e Gizé ou à grande esfinge desde meados do 3.º milénio.

Viagem da rainha Hatshepsut à terra de Punt  C.1478/72-1458 Deir-el-Bahari, templo funerário de Hatshepsut

Viagem da rainha Hatshepsut à terra de Punt
C.1478/72-1458
Deir-el-Bahari, templo funerário de Hatshepsut

A mitologia reflete e confirma os hábitos da humanidade. A epopeia de Gilgamesh, cuja primeira versão data da época paleobabilónica, no primeiro terço do II milénio a.C., é considerada como o primeiro guia de viagens, sobretudo no que respeita à descrição da expedição do herói pelas montanhas de Cedro. Também nos textos do Antigo Testamento são frequentes as referências às movimentações coletivas ou individuais, por vezes, sem uma finalidade concreta, religiosa, militar ou económica, aproximando-se do conceito de viagem.

Os testemunhos são mais frequentes e explícitos a partir do período da Grécia arcaica. A Odisseia de Ulisses, no regresso de Troia, está recheada de paragens, momentos de repouso, de episódios determinados pela curiosidade e pela vontade de conhecer outros destinos e realidades. Datam dessa época os jogos Olímpicos, Pítios, Nemeus e Ístmicos, festivais de caráter religioso com competições desportivas e musicais, que chamavam gentes de toda a Grécia. Para lá da época dos jogos, os templos de Zeus, em Olímpia, e sobretudo, o de Apolo, em Delfos, continuavam a convocar uma constante peregrinação.

O império Romano contribuiu para o desenvolvimento do lazer e da viagem privada, assente numa colossal rede viária e num conjunto de infraestruturas, como as termas, em todas as urbes e villas rurais. Desde a época de César, há notícia de viagens para conhecer outras paragens de prestígio à Grécia e ao Egipto, sobretudo, à cidade de Alexandria, afamada pela biblioteca e outros vestígios da época ptolomaica.

Durante a Idade Média e sob a influência do Cristianismo, a viagem toma o aspeto particular da peregrinatio, inicialmente, em direção à Terra Santa e, após a conquista de Jerusalém pelos muçulmanos, em percursos alternativos como o Caminho de Santiago. Por esta altura, eram também relevante a mobilidade de alguns grupos, como os construtores, os comerciantes, os jornaleiros e, cada vez mais, os estudantes em direção às universidades mais prestigiadas, como as de Montpellier, em Paris, de Oxford, de Bologna ou de Coimbra, ou os artistas mais reputados e requisitados pelas diferentes cortes.

A viagem, aliada à vontade de adquirir conhecimento e ao gosto pelo exótico, é uma das marcas do Renascimento, acentuada pela expansão portuguesa. O interesse pelas culturas arcaicas ou exógenas sedimenta-se na prática colecionista. Os gabinetes de maravilhas e curiosidades constituem-se como o registo material do contacto com outros povos ou como uma alternativa de evasão através dos produtos trazidos por outros viajantes.

É neste contexto que se chega aos primórdios do turismo, formalizado através da Grand Tour, que era objeto de uma preparação minuciosa e podia demorar dois a três anos, integrando uma comitiva de tutores, acompanhantes e serviçais, e que se fazia com o intuito de ampliar o conhecimento e de adquirir competências sociais na passagem da juventude para a idade adulta, embora tendo subjacente a intenção de lazer. A definição dos percursos faz-se em função dos pontos de maior interesse histórico, artístico e patrimonial.

O Iluminismo, ao mesmo tempo que fixou o turismo como uma prática associada à cultura, determinou o aparecimento dos primeiros museus. A consolidação do conceito de nação fez nascer a ideia de criação de repositórios artísticos representativos e propagandísticos da identidade nacional em instituições que disponibilizavam essas coleções a toda a sociedade e, por isso, se tornaram pontos imprescindíveis de visita. Depois da campanha de Napoleão no Egipto, onde se fez acompanhar de arqueólogos, cientistas e desenhadores que divulgaram os achados por toda a Europa, fez renascer a curiosidade por essas paragens e os museus dos países colonialistas – o British de Londres, o Louvre de Paris, o Altes de Berlim – começaram a financiar expedições arqueológicas à Grécia e ao Médio Oriente, para completar os espólios segundo um conceito universalista.

Entrance to the old British Museum, Montagu House George Scharf, 1845  Londres, British Museum

Entrance to the old British Museum, Montagu House
George Scharf, 1845 
Londres, British Museum

A exposição dos objetos recolhidos e a publicação dos relatos arqueológicos despertaram o interesse por outras paragens e outras culturas, contribuindo para que, ao longo do século XIX, aumentasse o gosto pela viagem. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento económico e a revolução industrial e científica provocaram profundas alterações no quotidiano da burguesia e da classe média, que passaram a usufruir de tempo livre e recursos económicos suficientes para viajar. Por outro lado, o desenvolvimento dos transportes ferroviários e marítimos facilitou as deslocações intercontinentais e transoceânicas.

Turistas em Gizé, 1921 TDI)/Cover/Getty Images

Turistas em Gizé, 1921
TDI)/Cover/Getty Images

Mantendo o conceito de turismo aliado à cultura e ao lazer, a inovação desta época é o progressivo alargamento desta possibilidade a todas as camadas sociais até ao boom turístico de meados do século XX, na euforia do desenvolvimento do pós-guerra. E se, nessa altura, se privilegiou o turismo de sol e praia, certo é que esta foi uma tendência efémera, entretanto suplantada pelo turismo cultural e criativo.

O turismo não subsiste sem o fundamento da cultura, da história, da arte, do património, do conhecimento dos povos, dos seus costumes e das suas tradições. A ideia de o reformular, retirando aquilo que lhe é seminal, é mais do que contraditório, um suplício de Tântalo: a cultura estará sempre lá, como um desejo oculto, possível, mas inacessível. Por muito que pareça um conceito ultrapassado – será?! – o turismo continuará a ser cultura. Os seus agentes é que poderão não o reconhecer e, ao não promover a matriz cultural da atividade, os viajantes ficarão mais desventurados e a viagem será uma experiência truncada. Até que um dia voltemos a ser bafejados pelo sopro do bom senso…

Fontes das imagens:
http://www.bbc.co.uk/arts/yourpaintings/paintings/gentleman-on-the-grand-tour-john-corbet-17511817-the-honourable
http://www.debello.ca/seawar/ancient/egypt.html
http://www.britishmuseum.org/research/collection_online/collection_object_details.aspx?assetId=384490&objectId=736260&partId=1
http://www.weather.com/travel/vintage-photos-tourists-traveling-style-20140116

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