Glasgow School of Art, entre a tragédia e a esperança

Ontem, foram muitos os que ficaram estarrecidos face às imagens do incêndio na Glasgow School of Art, às chamas e ao fumo que saía pelo telhado, fazendo com que se receasse o pior.

Incêndio na Glasgow School of Art. 23 maio 2014

O edifício, projetado por Mackintosh entre 1899 e 1909, era considerado um dos principais edifícios do início do século XX, precursor de uma nova mentalidade arquitetónica, fazendo a ligação entre a complexidade da Arte Nova e o despojamento do Modernismo.

Charles Rennie Mackintosh (1852-1926), que é geralmente reconhecido pelas cadeiras de espaldar alto, foi bem mais do que isso. Aguarelista, escultor e arquiteto escocês, criou algumas das mais extraordinárias peças de design com uma linguagem estética entre o Arts and Crafts e a Arte Nova, que evolui para uma expressão particular e inédita que o define como um percursor do Modernismo. Na sua obra, são relevantes as influências das tradições escocesa e neogótica e o exotismo japonês. Reinterpretou os formulários da Arte Nova, conferindo-lhe um cunho pessoal expresso em arabescos e estilizações do mundo vegetal, de linhas marcadamente ascensionais, de ondulações suavizadas, evitando contrastes formais fortes e combinando elementos simétricos e assimétricos.

Biblioteca da Glasgow School of Art. Foto: Ben Blossom, s.d

Biblioteca da Glasgow School of Art.
Foto: Ben Blossom, s.d

A biblioteca, um espaço amplo primorosamente trabalhado, era um dos vestígios mais impressivos da época. Tinha sido restaurada em fevereiro deste ano. Ficou, agora, completamente destruída. Será possível reconstituir, mas perdeu-se o conteúdo porque a lógica de um espólio elaborado ao longo dos anos é certamente irrecuperável.

Não foi só o passado que se perdeu: os trabalhos dos alunos também terão sido consumidos pelo fogo, incluindo os que tinham sido entregues no final do ano letivo. Alguns alunos terão perdido a totalidade dos trabalhos feitos ao longo do curso.

Mas, apesar de tudo, não aconteceu o pior como se temia: o edifício, cuja estrutura não ficou irremediavelmente danificada, pode ser recuperado, os arquivos foram preservados e o alento dos professores e alunos, depois do desgosto inicial, ganha um novo ímpeto. Como acaba de afirmar Muriel Grey, presidente da escola, ao falar de “the delight in seeing most of our beloved building bruised and battered but most certainly not destroyed” (Gray, 2014, 24 maio).

Ao olhar agora para as imagens que nos chegam, é forçoso acreditar na fénix que aqui irá renascer. Mas também é inevitável recordar que Mackintosh morreu quase na miséria, a vender aguarelas para poder subsistir.

Uma oportunidade para refletir na forma como cuidamos do património que está ao nosso alcance e o que fazemos para o merecer e salvaguardar a sua memória e dignificar o seu criador. Geralmente, basta ir ao encontro dos vestígios do passado, das culturas, das tradições, dos patrimónios que nos foram legados e buscar o seu conhecimento. Basta estar atento.

Gray, M. (2014, 24 maio). Statement from Muriel Gray on the state of the Mackintosh Building.

Fontes das imagens:
[Incêndio] http://www.dailymail.co.uk/news/article-2637430/Firefighters-tackle-major-blaze-listed-building-leading-European-art-school-started-projector-exploded.html
[Biblioteca] http://benblossom.com/Glasgow-School-of-Art

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