A era digital e as narrativas na nova museologia

A nova doutrina museológica trouxe a narrativa, a capacidade de “contar uma história” para um plano central da experiência no museu. Os guiões expositivos, como o do Museu de Quay-Branly ou o do Louvre Lens, tendem a abandonar a lógicas das sequências espácio-temporais ou estilísticas, para tentar uma dialética mais fluida e abrangente, na qual o visitante possa seguir diferentes perspetivas e cruzar vários registos culturais. Outra estratégia passa pela utilização de equipamentos museográficos complementares, como os audio-guias ou os vídeos e, agora, os dispositivos interativos com jogos de realidade aumentada e virtual.

Museu virtual Europeana

Museu virtual Europeana

Em dezembro passado, no blog da Europeana, Wiebe de Jager arriscava: “2014: the breakthrough of virtual reality?” (Jager, 2013, 11 dez). Considerando o desenvolvimento da tecnologia de realidade virtual (VR) e dos óculos imersivos 3D, a progressiva redução dos custos tendo em vista o generalizado consumo doméstico, começam a desenhar-se novas oportunidades para os museus.

Projeto Lisboa antes do terramoto de 1755

Projeto Lisboa antes do terramoto de 1755

A first step would be to recreate existing museums online so that people from all over the world could visit them from exactly where they are. And then each of us could curate collections and put them in an environment of our choosing: how about looking at some of Rembrandt’s paintings in one of the workshops he worked in? Or what about a museum in which you could change the entire collection with a press of a button? How about stepping into a painting from Monet and being able to walk around the water-lily pond? (Jager, 2013, 11 dez).

Em Portugal, começam a desenvolver-se alguns projetos que, apesar de parecerem incipientes face a alguns programas corporativos, envolvendo recursos humanos e financeiros de grande envergadura, confirmam a adesão às novas tecnologias. No âmbito dos projetos em curso, distinguem-se: o LX Conventos: Da cidade sacra à cidade laica, cujo objetivo é estudar, de forma sistemática e integrada, o impacto da extinção das ordens religiosas no desenvolvimento, funções e imagem da nova cidade liberal, que se define principalmente como secular; o Lisboa antes do terramoto de 1755, que se propõe criar uma modelação em 3D da zona ribeirinha da cidade de Lisboa atingida pelo terramoto de 1755, compreendendo o paço real da Ribeira, entre a Rua da Capela, a Praça da Patriarcal, a Torre do Relógio, a Casa da Ópera e o espaço confinante da Ribeira das Naus. Enquanto o primeiro trata de um fenómeno determinante para a história da museologia, o segundo está diretamente relacionado com o Museu da Cidade, em Lisboa.

O projeto Lisboa antes do terramoto de 1755 está a ser desenvolvido, desde 2010, pelo Centro de História da Arte e Investigação Artística  (CHAIA) da Universidade de Évora, com a parceria da empresa Beta Technologies, usando a tecnologia Second Life® do ambiente virtual Kitely. A criação dos modelos 3D é feita a partir da maqueta feita por Ticiano Violante, entre 1955 e 1959, para integrar a exposição “Reconstrução da Cidade depois do Terramoto de 1755” e que se encontra atualmente no percurso expositivo do Museu da Cidade. O museu reivindica a autoria da conceção do projeto de reconstituição, do levantamento iconográfico e da investigação histórica em que a modelação tridimensional se baseou (Museu da Cidade, 2008). A partir daí, o projeto prosseguiu sem a intervenção do museu, até ao acolhimento de um posto multimedia para a apresentação dos resultados, onde as volumetrias parecem demasiado esquemáticas e fictícias, a informação relativa aos monumentos se adivinha incipiente e as fontes não são referidas.

A questão que se coloca é acerca dos benefícios do projeto: quais as vantagens, o que acrescenta ao conhecimento, sobretudo no cotejo com outras fontes de informação pré-existentes em suporte analógico, como a maqueta ou a coleção de gravuras e pinturas expostos no museu? No que respeita à produção de conhecimento acerca da cidade de Lisboa antes do Terramoto, o benefício é ínfimo, mas é mais expressivo no âmbito da atualização do meio de transmissão digital, por parte do museu, e da aquisição interativa da informação, por parte do público.

Referências bibliográficas:
Jager, W. de (2013, 11 dez.) Virtual reality and the museum of the future. Europeana blog. Acedido em:  http://blog.europeana.eu/2013/12/virtual-reality-and-the-museum-of-the-future/
Museu da Cidade. (2008). Reconstituição 3D de Lisboa antes do Terramoto de 1755. Museu da Cidade. Retrieved May 23, 2014, from http://www.museudacidade.pt/investigacao/projectos/Paginas/Projecto1.aspx

Fontes das imagens:
Museu virtual da Europeana: http://blog.europeana.eu/2013/12/virtual-reality-and-the-museum-of-the-future/
Imagem projeto Lisboa antes do terramoto de 1755 processada a partir de: http://www.museudacidade.pt/investigacao/projectos/Paginas/Projecto1.aspx

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