“As coleções criam conexões”: o papel dos museus na sociedade contemporânea

18 de maio, Dia Internacional dos Museus 2014 | ‘Museus: coleções criam conexões

O ICOM (Conselho Internacional de Museus) é uma organização internacional não-governamental criada em 1946, associada à UNESCO e com a missão de promover e proteger o património cultural e natural, tangível e intangível. Atualmente com mais de 30.000 membros em 137 países, o ICOM assume-se como uma rede de profissionais ligados aos museus e ao património, tendo como propósito a cooperação e troca de conhecimentos e metodologias.

Em 1977, o ICOM criou o Dia Internacional dos Museus, a 18 de maio, tendo em vista a sensibilização do público para o papel dos museus no desenvolvimento da sociedade. Com uma adesão crescente desde essa altura, em 2013, cerca de 35.000 museus em 143 países participaram nesta iniciativa.

Este ano, o tema é “As coleções criam conexões” propondo uma reflexão sobre o papel dinâmico do museu na relação que o museu cria com a comunidade, alargada e fluída, dos seus públicos.

ICOM, Dia Internacional dos Museus 2014 Museus: coleções criam conexões

ICOM
Dia Internacional dos Museus
18 maio 2014

Torna-se cada vez mais premente a reflexão acerca do perímetro da função patrimonial do museu no contexto da cultura contemporânea, cada vez mais globalizada, e em vertiginosa mutação de referências, num fenómeno de encurtamento das coordenadas espaço-tempo. É nesse contexto que o museu reivindica a competência de “criar conexões” através das coleções.

O museu, enquanto detentor de um espólio que, para lá dos contornos materiais e formais, é também um “sistema de representação”, tal como definiu Stuart Hall, isto é, “different ways of organizing, clustering, arranging, and classifying concepts, and of establishing complex relations between them” (Hall, 1997, 17). É através do “sistema de representação” inerente à coleção que se cria a rede de conexões com o público-recetor, diretamente implicado no processo.

A “conexão”, ou a comunicação que se estabelece entre o público e o museu através do conjunto de objetos polissémicos, depende do contexto cultural, social, intelectual ou afetivo de cada indivíduo. Tal como na “obra aberta” de Umberto Eco – “«Openness», on the other hand, is the guarantee of a particularly rich kind of pleasure that our civilization pursues as one of its most precious values, since every aspect of our culture invites us to conceive, feel, and thus see the world as possibility.” (Eco, 1989: 104) – também no “sistema de representação” de Stuart Hall, embora o museu codifique a coleção num determinado sentido, é o público que a descodifica (ou não) com uma margem de entendimento variável.

“Cada leitor, no sentido amplo do termo como recetor de uma mensagem, faz uma leitura pessoal de acordo com os seus preconceitos, memórias, motivações e experiências. O autor da obra cria um universo de hipóteses semânticas que apenas se completam através da interpretação do seu recetor.” (Roque, 2012, 218)

Se durante muito tempo, o museu se assumiu essencialmente como detentor e conservador do património, de alguma forma iludindo a função informativa-interpretativa com a ação expositiva, reconhece-se um crescente empenho na divulgação do(s) sentido(s) inerente(s) ao objeto e à coleção. “In any culture, there is always a great diversity of meanings about any topic, and more than one way of interpreting or representing it. Also, culture is about feelings, attachments and emotions as well as concepts and ideas.” (Hall, 1997, 2) Cabe ao museu identificar essa pluralidade semântica e, de alguma forma, torná-la inteligível ou apreensível ao público-audiência, também ele plural, enquanto entidade coletiva constituído por entidades individuais, cada uma com os seus próprios universos de referências, conhecimentos e afetos. No caso particular do museu, o “sistema de representação” descrito por Stuart Hall, pode definir-se como “um sistema de conexões”.

Além de utilizar a coleção como instrumento-código da mensagem que pretende enunciar, valendo-se das inúmeras potencialidades denotativas do objeto, o museu assume a função de “narrador” do património cultural e da memória coletiva de uma comunidade, como salienta o ICOM no comunicado de apresentação do tema do Dia dos Museus 2014 (cfr. ICOM, 2013).

A contemporaneidade pós-moderna vive um equilíbrio instável e desconcertante entre a vertigem da globalização virtual e o fim das “metanarrativas” da época moderna (Lyotard, 1979). Assim sendo, preconiza-se que o museu adquira uma função mediadora entre o indivíduo e a realidade das suas próprias raízes culturais e históricas, criando uma alternativa substancial às inúmeras solicitações e sugestões a que o homem está continuamente sujeito no seu quotidiano.

Através do (re)conhecimento da coleção, ou seja, através da apreensão do sentido que lhe é inerente, o público-audiência adquire a consciência da sua individualidade. “Meaning is what gives us a sense of our identity” (Hall, 1997, 3). A criação desse “sistema de conexões” implica a participação do público-observador, partindo do princípio de que o indivíduo processa o que vê em função do que já viveu. Numa terminologia semiológica, pode dizer-se que, face ao estímulo visual da exposição, o observador anexa-lhe um significante e atribui-lhe um significado ou conceito, concluindo a função de signo inerente a cada objeto. Ao estabelecer conexões, a experiência do museu deixa de ser uma ocorrência meramente visual para se tornar uma vivência relacional em que se introduzem os princípios de arbitrariedade, intencionalidade, cultura, convencionalidade e relacionação com outros signos. Confirma-se, desta forma, o desígnio do museu como fator identitário do público-observador-participante: quem é; quem foi e como se modificou; quem o precedeu e quem o rodeia; o que herdou e o que adquire pelo seu esforço; o que conhece, o que pensa e o que o emociona.

Ao criar um “sistema de conexões” a partir das coleções, o museu fomenta uma nova epistemologia, centrada nos fundamentos da memória (pessoal e coletiva), entendida como a capacidade de adquirir, guardar e recuperar a informação. Num momento da civilização, em que a produção e o acesso à informação são avassaladores, o museu pode fornecer as coordenadas necessárias para que o homem contemporâneo não se perca por entre o acúmulo de dados que o rodeia e não se afaste das referências que o definem.

Considerando que é através dos indivíduos que se atua no coletivo, é possível concluir que o museu, ao fornecer as conexões que permitem centrar cada indivíduo na sua própria realidade, promove o desenvolvimento da sociedade. O desafio está na renovação dos métodos tradicionais da atuação dos museus, encontrando novos modelos de exposição, comunicação e mediação.

 

Referências bibliográficas:

Eco, U. (1989). The open work. Cambridge, Mass: Harvard University Press

Hall, S. (1997). Representation: Cultural representations and signifying practices. London [etc.]: Sage.

ICOM (2013, 15 de out.). Lancement de la Journée internationale des musées 2014: Les liens créés par les collections des musées. Disponível em : http://icom.museum/communiques-de-presse/communique-de-presse/article/translate-to-francais-launch-of-international-museum-day-2014-museum-collections-make-connecti/L/2/

Lyotard, J.-F. (1979). La condition postmoderne: Rapport sur le savoir. Paris: Éditions de Minuit.

Roque, M.I. (2012). O discurso do museu. In Asensio, M., Moreira, D., Asenjo, E., & Castro, Y. SIAM Series Iberoamericanas de Museología: Criterios y desarollos de musealización, 3(7), 215-225. Madrid: Universidad Autónoma de Madrid.

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