A pintura de Rothko reposta na Tate Modern, um museu desadequado à obra de Rothko?

A obra Black on Maroon, de Mark Rothko, que tinha sido vandalizado em outubro de 2012, voltou a ser exposta na Tate Modern, depois de 12 meses de restauro.

Recolocação da obra «Black on Maroon, 1958», de Mark Rothko, na Tate Modern de Londres

Recolocação da obra «Black on Maroon, 1958», de Mark Rothko, na Tate Modern de Londres Foto: Reuters

O ataque tinha sido um ato contestatário de um jovem polaco, Wlodzimierz Umaniec, que se afirmava como ativista de um movimento autointitulado “amarilismo” e, paradoxalmente, grande admirador da obra de Rothko.  De acordo com o que então foi divulgado, Umaniec estivera cerca de duas olhas a olhar para o quadro, antes de o marcar com o próprio nome e as palavras “a potential piece of yellowism” [uma possível peça do amarilismo] escritos em tinta preta. Assumiu sempre o que fez, mas não como vandalismo, equiparando o que fizera a ações idênticas de Marcel Duchamp ou Damien Hirst, numa justificação que se torna estafado em situações semelhantes.

O método de pintura de Mark Rothko, com a sobreposição de finas velaturas de um composto de óleo, pigmentos, resinas e outros elementos, obrigou a um processo de restauro meticuloso e muito experimental, desde a escolha dos solventes a utilizar sem danificar a pintura subjacente à construção de uma réplica da obra para estudar o impacto da obra que atravessou as várias camadas da pintura, chegando a atingir a tela, e estar várias formas de intervenção antes de escolher o método que mais eficaz e com menor  impacto sobre a obra. Todo o processo está documentado e registado no vídeo Restoring Rothko, disponível na em linha e permite conhecer melhor o método do artista.

Detalhes da obra de Rothko vandalizada e restaurada.  Foto: Sam Drake/Tate/PA

Detalhes da obra de Rothko vandalizada e restaurada.
Foto: Sam Drake/Tate/PA

O restauro, afinal, foi bem sucedido a avaliar pelas declarações dos responsáveis do museu, pelos elogios dos familiares de Rothko e pelos comentários que têm vindo a surgir na imprensa e nas redes sociais.

Não obstante, no meio de toda a euforia aclamatória, há um comentário divergente de Jonathan Jones, jornalista e crítico de arte com uma coluna regular no The Guardian, na linha do que já havia escrito em 2012, quando interrogava, também a propósito do ataque à obra de “why are the greatest works attacked?”.  No artigo de hoje (2014, 13 de maio), intitulado “Why Tate Modern should show Rothko a little respect” Jones, reformula a questão em torno da culpabilidade do museu e, sobretudo, questiona o ambiente desconstraído da Tate Modern como elemento propiciador da intervenção de Umaniec: “if the less than conventional atmosphere of Tate Modern as an art museum may encourage a lack of reverence for its art?”. Aponta como exemplo, o facto de há pouco tempo um grupo de crianças brincarem numa obra de Donal Judd, tomando-a por um baloiço.

Quando, no domínio da comunicação cultural, se tem vindo a defender a desconstrução do museu-templo, contemplativo e formal, tornando-o um espaço mutivivencial, este é um ponto de vista pertinente para a reflexão acerca do futuro dos museus. Falamos frequentemente em criar um estilo de comunicação intermuseal (Roque, 2011), mas quais serão os riscos da formalização desta atitude de proximidade à pluralidade dos públicos e das suas expressões ou comportamentos? Este ímpeto de criar alternativas, no espaço do museu, à infindável oferta de estímulos na sociedade pós-moderna acabará por desvirtuar a sua essência ou, mais grave, poderá pôr em causa a função patrimonial de preservação e conservação da coleção? Por outro lado, será viável supor que a contrapartida do museu face às propostas virtuais reside precisamente na solenidade que sugere e impõe? Será possível que a restrição das normas crie um ambiente de solenidade que, além de confirmar o valor excecional ou representacional do objeto exposto e promova a sua segurança e seja, ao mesmo tempo, um fator de sedução para os visitantes?

As questões, inevitavelmente, são transmutáveis em hipóteses a implementar no estudo do fenómeno museal e dos desafios que o museu enfrenta no mundo contemporâneo.

Venham, ou não, a ser comprovadas, a questão de fundo, mais premente e imediata, é outra: que pensaria Rothko acerca da forma como a sua obra é exposta no contexto da Tate Modern? Lembrando os trâmites que envolveram a doação das obras para evitar que fossem decorar as paredes de um restaurante, por ser um ambiente inadequado à sua arte, não parece provável que o aprovasse. Sabendo que Rothko tinha um conceito sublime e espiritualizado, quase místico, da arte, que a sua obra foi um contínuo e trágico processo de depuração e procura da essência, e que pretendia provocar no espetador uma emoção contemplativa, é muito pouco provável que gostasse de ver a forma como os seus quadros se apresentam, quer na Tate, quer nos outros museus, e que não se sentisse pesaroso pela forma como é apreciado.

Tudo isto parece sugerir que talvez haja obras que merecem a solenidade dos museus. Talvez, até, a maioria das obras.

Referências bibliográficas:
Jones, J. (2012, 8 out). Rothko vandalism: why are the greatest works attacked?. Guardian. Disponível em: http://www.theguardian.com/artanddesign/jonathanjonesblog/2012/oct/08/rothko-vandalism-painting-attacked
Jones, J. (2014, 13 maio). Why Tate Modern should show Rothko a little respect. Guardian. Disponível em: http://www.theguardian.com/artanddesign/jonathanjonesblog/2014/may/13/tate-modern-rothko-black-on-maroon-restored
Roque, M.I. (2010). Comunicação no museu. In Magalhães, A. M., Bezerra, R. Z., Benchetrit, S. F., & Museu Histórico Nacional (Brasil). (2010). Museus e comunicação: Exposições como objeto de estudo, pp. 45-66. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional. Disponível em: https://www.academia.edu/4060702/Comunicacao_no_museu

Fonte das imagens:
[Montagem do quadro]: http://www.abc.es/Media/201405/13/Rothko-restaurado–644×462.jpg
[Detalhes do restauro]: http://www.theguardian.com/artanddesign/2014/may/13/tate-modern-unveils-restored-mark-rothko-black-on-maroon

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