Aleijadinho, virtuoso e virtual

(2014). Aleijadinho 3D [sítio eletrónico]. São Paulo: da Universidade de São Paulo (USP); Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC).

Aleijadinho, é alcunha de Antonio Francisco Lisboa (1730-1814), aludindo à deficiência física do mulato nascido no Brasil colonial, de cuja vida pouco se sabe. A mais antiga notabiográfica é póstuma, uma biografia escrita por Rodrigo José Ferreira Bretas cerca de 40 anos depois da morte supostamente apoiada em documentos e depoimentos contemporâneos, o que secundariza a cronologia dos factos para um registo secundário ao estudo da obra daquele que é unanimemente reconhecido como um dos artistas matriciais brasileiros e um dos maiores expoentes do Barroco e Rococó brasileiros. É consensual a filiação do arquiteto português Manuel Francisco Lisboa e de uma das suas escravas africanas, tal como parece certo que a doença o desfigurou, deteriorou o humor e o obrigou a trabalhar com as ferramentas presas às mãos enfermas.

Aleijadinho 3D [sítio eletrónico]. página de acolhimento.

Aleijadinho 3D [sítio eletrónico]. página de acolhimento.

Enquanto se começa a admitir várias identidades sob a mesma designação e surgem advertências acerca dos falsos, alguns deles expostos em museus, é notícia um projeto de investigação inovador no contexto das comemorações do bicentenário da morte do Aleijadinho.

Processo de digitalização 3D

Processo de digitalização 3D

O projeto “Ajeijadinho 3D” consiste na digitalização 3D das obras do escultor e foi realizado pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da Universidade de São Paulo (USP), teve o apoio da Comissão de Cultura e Extensão do ICMC, da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP e do Museu de Ciências da Universidade.

O projeto, à partida, não é inédito, uma vez que o mapeamento 3D tem vindo a ser aplicado a obras patrimoniais de valor excecional. O que é invulgar é a dimensão do projeto, que abrange as esculturas e adornos no Adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, e as das igrejas da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, da Nossa Senhora do Carmo, e a de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia, em de Outro Preto, as dimensões e posicionamento das imagens em locais de difícil acesso e a localização ao ar livre de parte delas. Além disso, os locais não foram isolados, pelo que os trabalhos decorreram na presença de turistas e curiosos. Todos estes fatores originavam variáveis que interferiam na metodologia processual obrigando a reconfigurações do plano de trabalho.

A digitalização, que decorreu ao longo de uma semana no final do mês de julho de 2013, foi feita com um equipamento especial da Leica Geosystems para permitir a captura em diferentes ângulos e a partir de distâncias entre 10 e 30 metros. O processamento da informação recolhida implicou, além da triangulação das malhas de pontos (inicialmente 440 milhões de pontos reduzidas para cerca de 10 milhões), a coloração feita pela Imprimate Impressões 3D, a partir de fotos coloridas de diferentes ângulos de cada uma das obras, a decimação e a modelagem 3D para compensação de carências, através do software livres, respetivamente o MeshLab e o Blender.

Além de ser uma das componentes de um programa mais vasto de estudo e preservação das obras de Aleijadinho, o projeto tem, como objetivo, a difusão cultural deste património. Para isso, foi criado um sítio eletrónico onde a informação está a ser disponibilizada, permitindo a manipulação virtual das esculturas (e, também, embora menos interessante, dos adornos). Como aspeto negativo, regista-se o facto de não prever o aumento da imagem, o que é justificado pelo peso excessivo face às contingências da disponibilização na web.

Apesar disso, que assombro a evolução destes projetos ao longo das últimas duas décadas: há precisamente duas décadas, dávamos em Portugal os primeiros passos na utilização das novas tecnologias nos inventários de museus.

Fonte: http://www.aleijadinho3d.icmc.usp.br/index.html 

Rodrigues, J. et al. (2013). Aleijadinho 3D: tecnologia na difusão e preservação do patrimônio cultural, pp, 1-10. In Anais do VII SIMP: Convenção do Patrimônio Imaterial: 10 anos depois. Disponível em: http://www.aleijadinho3d.icmc.usp.br/projeto.html
Fonte da imagem [Processo de digitalização 3D]:http://www.em.com.br/app/noticia/tecnologia/2014/05/02/interna_tecnologia,524589/usp-cria-acervo-digital-em-3d-das-obras-de-aleijadinho.shtml

2 thoughts on “Aleijadinho, virtuoso e virtual

  1. Profª Isabel Roque: Parabéns pelos trabalhos que tem publicado no seu interessante e actualizadíssimo site.
    E hoje, muito obrigada por ter-me «conduzido» a esta DESCOBERTA DO Aleijadinho/digitalização3D

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