Há quarenta anos: o património, a minha terra e eu

Luís Raposo publicou ontem, 24 de abril, no Público, um artigo com o título “O 25 de abril e e a (re)invenção do património cultural português”.

Não tenho memórias nítidas do “antes-depois” do 25 de abril, em 74 não imaginava o que fosse “estruturalismo, marxismo e demais «ismos»”, apesar de conhecer “tons do Adriano, do Zeca ou do Fanhais”, que ouvia regularmente no colégio de freiras onde estava interna, porque na minha terra não havia escola de Ciclo Preparatório, sem imaginar que a maioria deles estava proibida. Também não tinha ideia do que fosse património, nem creio que as pessoas à minha volta tivessem alguma ideia do que se tratava, confirmando a constatação de Pedro Canavarro, citado aqui por Luís Raposo, de que “o próprio conceito de «património cultural» era ainda, em grande medida, ignorado”.

Estômbar, antes do 25 de abril

Estômbar, antes do 25 de abril

Por essa altura, lembro-me da reverência com que, na minha aldeia, o Padre Silvério e o Senhor Mourinho, autênticas instituições locais, falavam dos senhores de Lisboa que, às vezes, passavam por lá e elogiavam a antiguidade da igreja, a raridade das colunas escondidas atrás do guarda-vento, a preciosidade de um Cristo em marfim… Mas lembro-me, também, que se a igreja nos parecia antiga, desconfiávamos da importância das colunas em que apenas víamos umas figuras mal feitas e incompreensíveis e, pelo sim pelo não, alguém se apressou a guardar o Cristo na casa de uma zeladora.

Era uma aldeia de gente pobre: não houve casas ocupadas, até porque a única casa de gente rica continuou a impor respeito e ninguém teve coragem de lá ir espreitar, apesar de só ser ocupada nas férias e todos sabermos quando lá estava a família porque apareciam na missa do domingo a ocupar o banco da frente.

E mais tarde, lembro-me do incómodo provocado pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais que, desatenta de cultos e devoções, escondeu a capela do Santíssimo para restaurar a talha dourada e do descontentamento que provocou quando finalmente a descerrou. E lembro-me de, em seguida, ter havido um peditório para se arranjar os altares que faltavam, ao gosto local, com umas purpurinas que deixavam tudo mais dourado e bonitinho.

A maior parte dos meus colegas da escola primária não continuou os estudos. A maioria de nós nunca foi a um museu, nem frequentou bibliotecas. Nas nossas casas, não costumava haver livros, nem isso era uma necessidade numa aldeia que, nessa altura, ainda tinha os esgotos a céu aberto. Alguns de nós – tão poucos! – aproveitávamos com avidez a ida da carrinha da Gulbenkian que aparecia a dias certos, mas esparsos, no largo do Poço. Não íamos ao teatro, mas não perdíamos uma récita. Não íamos ao cinema e quase não víamos televisão porque eram poucas as casas que tinham esse luxo.

Boneca de trapo com chapéu, feito pela menina Marianita, com  empreita fina, feita pela menina Ema.

Boneca de trapo com chapéu, feito pela menina Marianita, com empreita fina, feita pela menina Ema.

O nosso maior orgulho identitário era a Casa de Trabalho, onde as “meninas”, mulheres que tinham ficado solteiras, garantiam a sua árida e frugal independência, a fazer empreita: a cozer, tingir e ripar a palma, a entretecê-la, branca e colorida, em longas fiadas, a cortar as repas, a corrê-la com búzios, a coser dando-lhe forma de chapéus, de sacos e malas, taças… Eram o orgulho que distinguia a nossa terra das restantes, porque só lá é que se fazia empreita de primeira, muito fina, e de segunda, um pouco mais larga, e só lá é que ela era bordada com fio de palma.

Há quarenta anos, em Estômbar, era assim.

Não me lembro do “movimento das Associações de Defesa do Património (que chegaram a ser muito mais de uma centena), o qual percorreu como vendaval o país na segunda metade dos anos de 1970 e inícios da década seguinte” – mas continuava interna num colégio, que foi pacificamente ocupado uma tarde e voltou tudo depois à normalidade do nosso quotidiano.

Mas o vento da mudança soprou inexoravelmente.

A terra teve direito a uma escola  básica do 2.º e 3.º ciclos, o ensino tornou-se obrigatório libertando os adolescentes de uma maturação precoce no mundo do trabalho, a televisão entrou no quotidiano de todos. O vento da mudança despertou a curiosidade, a vontade de conhecer para lá dos limites apertados que, durante décadas, nos tinham sido impostos. Despertou a consciência de um passado coletivo e do património cultural a preservar. Creio que terão sido as Associações de Defesa do Património a desencadear, no coletivo dessa terra provinciana, o princípio democrático do direito à cultura e da posse comum desse património.

Lentamente, tornámo-nos globais, num processo de igualização que foi, também, de uniformização. Assumimos os valores gerais que são memória de todos, mas perdemos as caraterísticas particulares da nossa identidade mais particular. Perdemos a memória dos nossos costumes, das nossas lendas, dos pequenos gestos e hábitos que distinguiam o nosso quotidiano da vida dos nossos vizinhos próximos ou longínquos. As “meninas” da empreita morreram, a Casa de Trabalho e a cerca foram destruídas para edificar um Centro de Dia. Das “meninas” Conceição e Gertrudes, ficou-nos a voz num Canto de Natal, gravado por Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça.

Sinais dos tempos e a inexorável perda de algumas memórias trocadas por outras de força maior. Como Luís Raposo, mantemos a viva a certeza de que “Os sinos das aldeias tocarão de novo, se os povos sentirem que, tal como dos seus baldios, estão também a ser desapossados da sua memória, condição vital da sua saúde.” Em Estômbar, os sinos nunca deixaram de tocar.

Nota: todas as citações são retiradas do artigo de Luís Raposo.
Raposo, L. (2024, 24 abr.) O 25 de Abril e a (re)invenção do património cultural português. Público: Cultura.

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