O revés do património ou a vã glória de um marquês benfiquista

O património é a herança do passado que mantemos viva para transmitir às gerações futuras. Por isso, é um sistema orgânico que se regenera, feito de reconstruções e adições que se sobrepõem a espaços vazios deixados por fragmentos que se perdem, ou se destroem, e morrem. É um património que se regenera através de sedimentos de emoções que lhe marcam a diacronia e o transformam numa narrativa em permanente construção. Temos a memória que preservamos e apenas possuímos o património que merecemos.

Estátua do Marquês de Pombal com a camisola do Benfica. Marquês de Pombal, Lisboa  Foto: Lusa

Estátua do Marquês de Pombal com a camisola do Benfica.
Foto: Lusa

Adeptos benfiquistas no monumento ao Marquês de Pombal, em Lisboa. Foto: Lusa

Adeptos benfiquistas no monumento ao Marquês de Pombal, em Lisboa.
Foto: Lusa

Ao ver as imagens da estátua do Marquês de Pombal dilacerada pela euforia de adeptos de um clube de futebol, é justo que nos perguntemos que indício de nós, enquanto povo e cultura, se revela aí? O que leva alguns indivíduos a extravasar o entusiamo sem peias, nem barreiras? O que os levou a sobrepor a vitória de um campeonato ao património consolidado, documento e homenagem a um homem e a uma época da nossa história – polémica ou não, goste-se ou não da personagem, goste-se ou não da obra de arte – e a vestir a camisola do Benfica ao Marquês de Pombal e a grafitar-lhe o pedestal?

Hoje, a questão reside essencialmente nisto: mais do que (ou para além de) condenar liminarmente o ato de transgressão, importa questionar o significado que a transgressão encerra.  Considerando que “the significance of contemporary graffiti vandalism is not lost by strategies that view it primarily as conservation sacrilege” (Merril, 2011, 60), surgem novas propostas de abordagem, nomeadamente “appreciating the intangible nature and sub-cultural value of certain forms of «vandalism»” (Id., ibid.).

A intervenção de alguns adeptos pode ser considerada como um signo da subcultura (ou de anticultura) de uma tribo urbana. Porém, foge ao enquadramento da subcultura enquanto particularização diferenciada da cultura dominante. Ao ter ocorrido perante a complacência de todos os observadores, incluindo os não-adeptos, ultrapassou os limites da circunscrição minoritária para atingir a maioria da sociedade que não só aceitou e incorporou essa manifestação eufórica, massivamente divulgada através dos meios de comunicação e das redes sociais, como demorou a reagir, demarcando-se do ato ou opondo-se a ele. Registou-se uma conivência passiva, mesmo por parte dos opositores clubísticos, eles próprios legitimadores deste tipo de intervenção e revendo-se nela em idênticas situações de vitória, com uma ação que parecia impulsiva e reativa a uma circunstância atípica e galvanizadora. Contudo, a ação não foi determinada por um impulso uma vez que havia sido anunciada no próprio local, nem a circunstância se pode dizer atípica, dado que todos os anos há vitórias em campeonatos a suscitar celebrações e excessos.

Agora, no rescaldo do acontecimento e das suas (in-)consequências, importa que nos questionemos acerca da nossa noção de património coletivo. A utilização do monumento não teve um propósito de rutura, mas consistiu numa mera apropriação como suporte material da mensagem. Porque o mais absurdo é que não houve a intenção deliberada de o atacar, mas uma profunda inconsciência acerca disso. Quem subiu ao topo da estátua para vestir o Marquês com a camisola do Benfica, quem escreveu as expressões clubísticas sobre a pedra não pretendeu desvirtuar o património coletivo, nos seus aspetos materiais e intangíveis, mas apenas apropriar-se da sua monumentalidade e integrar um dos mais representativos símbolos urbanos numa legitimada e autorizada (!) manifestação de júbilo. Não foi, portanto, um ato assumido de subcultura ou uma manifestação de contracultura, mas um ato rudimentar e inconsistente de incultura.

É esta inconsciência que parece absurda e o facto de ter sido assim que é um grave indício daquilo que somos ou daquilo em que nos tornamos. Tal como se estranha a inoperância das forças de segurança que se encontravam no local face ao que poderá configurar-se como um crime contra o património.

É também a inconsequência que nos parece estranha: a inscrição “Reservado SLB” assinada pela claque do clube benfiquista “No Name Boys” e “Casal Ventoso” vai ser limpa até ao final da semana numa operação orçamentada entre os 1000 e os 2000 euros, a suportar pela autarquia.

Grafiti no pedestal do monumento ao Marquês de Pombal, em Lisboa. Foto: Maisfutebol

Grafiti no pedestal do monumento ao Marquês de Pombal, em Lisboa.
Foto: Maisfutebol

Terá sido um ato de vandalismo? Mesmo que o tenha sido (foi!) acabou por ser desculpabilizado pela opinião pública, o que nos recorda o desabafo de Ramalho Ortigão, ao defender “o culto da arte” como o último reduto de uma sociedade em crise:

“D’ahi, nos paizes de cultura mental, dominando todos os phenomenos da decadencia moderna, uma effusão de sympathia, de tolerancia, de benevolencia, de perdão, que caracterisa bem o nosso tempo, e de que não ha na historia outro exemplo.” (Ortigão, 174-175)

Foi apenas mais um incidente… E quando os incidentes atingem a arte ou o património, já não nos restam mais redutos.

Referências bibliográficas:
Merrill, O. C. (2011). Graffiti at Heritage Places: Vandalism as Cultural Significance or Conservation Sacrilege?. Time and Mind, 4(1), pp. 59-75. DOI: 10.2752/175169711X12893985693711
Ortigão, R. (1896). O culto da arte em Portugal. Lisboa: A.M. Pereira.

Fontes das imagens:
[Festa benfiquista] http://sicnoticias.sapo.pt/especiais/benfica2014/2014-04-20-benfica-campeao-nacional-pela-33-vez
[Grafiti] http://www.maisfutebol.iol.pt/benfica-liga-benfica-titulos-benfica-titulo-benfica-campeao-benfica-reserva-marques-marques-reservado/534585b90cf22f313c9a0945.html

2 thoughts on “O revés do património ou a vã glória de um marquês benfiquista

  1. interessante.
    dizer que a maioria da sociedade aceitou e incorporou esta euforia é legitimo até certo ponto. aceitaram a euforia, porque a maior parte da sociedade é benfiquista. mas, ainda que a euforia seja aceite (falo como benfiquista!) , a sua manifestação nunca é unanime nem uníssona. nao creio que qualquer adepto deste clube aceite essa manifestação – ela foi, aliás, aqui, corretamente descrita não como ato de vandalismo mas como ato de apropriação de monumentalidade como forma de veicular uma mensagem. se analisarmos bem, esse é o primeiro (talvez o único) ímpeto dos afamados e proliferados tags em graffiti – a apropriação, e não o vandalismo.
    o facto de vestirem o marquês não desvirtua EM NADA o monumento, uma vez que não é um ato invasivo. falando como aluno de património e conservação, adopto a dimensao dupla que todos adotamos de Brandi para o objeto histórico – a dimensao material e a dimensao simbolica. Acredito que, numa perspetiva realista, o vandalismo só pode ser perpetrado sobre a primeira. se a materialidade do património não é invadida, dificilmente se considera vandalismo.
    já dos graffitis no pedestal não se pode afirmar o mesmo – É invasão. É TINTA sobre PEDRA.
    faz lembrar o caso interessante das escadas monumentais em coimbra, palco de mensagens, maioritariamente politicas (escritas com TINTA sobre PEDRA) desde os tempos de contestação anti-ditadura até aos dias de hoje.) … mas há gente que defende que essa “invasão material” faz parte da “dimensão simbólica” do monumento. O que fazer aí?

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