Sant Climent de Taüll: a representação virtual como estratégia de musealização

Entre 1919 e 1923, a Junta de Museos de Cataluña procedeu à remoção e transferência de pinturas murais existentes em igrejas catalãs, entre as quais a abside de San Clemente de Tahull (Alta Ribagorça) que, anos antes, havia sido descoberta pelo Instituto de Estudios Catalanes sob um retábulo posterior de feitura gótica.

Abside de Sant Climent de Taüll no MNAC

Abside de Sant Climent de Taüll no MNAC

Removida pela técnica de strappo, introduzida na Catalunha pelo restaurador italiano Franco Steffanoni e que consiste em retirar a camada pictórica e aplicá-la sobre tela, a pintura foi transferida para o Museu Nacional d’Art de Catalunia (MNAC), inicialmente no Parque de la Ciutadella e, desde 1934, nas instalações definitivas do Palácio Nacional que havia sido construído para a mostra de arte espanhola na la Exposición Internacional de 1929, onde se construíram suportes que reproduziam a estrutura arquitetónica do suporte original.

O fresco da abside de Sant Climent de Taüll é considerado uma obra matricial do românico europeu, onde se combinam as representações iconográficas retiradas das visões veterotestamentárias de Isaías e Ezequiel e do relato apocalípticas de S. João. Ao centro da composição simetrizada e circular, ajustada ao suporte da cobertura absidal, domina a representação majestática de Cristo Pantocrator, ladeado pelas primeira e última letras do alfabeto grego clássico (jónico) (α e ω), símbolos do princípio e fim de todas as coisas. Inserido em mandorla, Cristo está sentado no trono com os pés, em V, assentes sobre o globo terrestre e segura na mão esquerda o livro aberto com a inscrição EGO SUM LUX MUNDI (Eu sou a luz do mundo, enquanto a direita se ergue num gesto de bênção com dois dedos ao modo grego. A figura central de Cristo é ladeada pelas figuras dinâmicas de dois anjos que sustentam quatro medalhões circulares com os símbolos do Tetramorfo (o leão de S. Marcos, o homem de S. Mateus, o touro de S. Lucas e a águia de S. João), sendo ainda percetíveis, nos extremos, um serafim e um querubim. Sob o tema celeste, a Igreja universal é representada pelas figuras de cinco apóstolos, S. Filipe, S. Tomás, S. Bartolomeu, S. João Evangelista e Santiago e da Virgem, identificados por inscrição e dispostos sob uma arcada com colunas que separam o campo de cada um.

O esquema iconográfico é recorrente nas composições pétreas dos tímpanos sobre a entrada principal dos templos românicos. O caráter excecional da abside de Sant Climent de Taüll resulta, não só do reduzido número de representações do tema chegados aos nossos dias, como sobretudo do caráter axiomático do convencionalismo e do expressionismo medieval que aqui se deteta. A figura de Cristo é imperiosa, através de uma estruturação geométrica e esquemática de grande impacto visual, em que se destaca o forte hieratismo de influência bizantina e os contrastes cromáticos que acentuam a expressão do rosto e a força vigorosa do corpo.

A transferência para o museu justificou-se na altura pela intenção de impedir os propósitos dos colecionadores norte-americanos, como o magnata William Randolph Hearst, que andavam na região dos Pirenéus a recolher património que era, em seguida, desmantelado, enviado para os Estados Unidos e aí reconstruído pedra a pedra.

Entretanto, a opinião pública local e o crescente interesse pelas pinturas, sublinhado pela crítica ao despojamento da igreja de San Clemente de Tahull, obrigaram a uma solução de consenso e o artista plástico Ramon Millet foi encarregue, em 1959, de criar uma réplica, em escala inferior, no sítio original.

Em 2000, o conjunto românico de Vall de Boí, em que a igreja de St. Climent de Taüll se integra, foi declarado património mundial pela UNESCO, o que determinou a realização de uma avultada ação de restauro, que incluiu a recuperação das pinturas murais originais ocultas sob a reprodução de Ramon Millet, e a musealização do espaço levada a cabo por uma equipa de especialistas de diferentes disciplinas.

No âmbito da musealização, foi levado a cabo um projeto inovador de projeção virtual dos frescos originais conservados sobre as paredes da abside e presbitério. Através de Mapping 3D, uma tecnologia de última geração que consiste na digitalização a laser de três dimensões e em alta resolução e na projeção simultânea de seis projetores de alta resolução, é possível obter, com um elevado índice de precisão e fidelidade, uma recriação dos frescos sobre o local original.

Abside virtual na igreja de Sant Climent de Taüll (Alta Ribagorça)

Abside virtual na igreja de Sant Climent de Taüll (Alta Ribagorça)

A visita à igreja processa-se por ciclos de trinta minutos: 17 de projeção; 10 de animação; 3 para observação da abside em estado natural.

Bibliografia:
Barral, . A. X. (1998). Pintura antiga i medieval. (Art de Catalunya.) Barcelona: Ed. L’isard.
Pagès, M. (2013). Romanesque mural painting in Catalonia. Catalan Historical Review, 6, 45-60. DOI: 10.2436/20.1000.01.85 · ISSN: 2013-407X
Ángel Montañés,  J. (2013, 15 abr.) El ‘falso’ pantocrátor de Sant Climent. El País. Acedido em http://ccaa.elpais.com/ccaa/2013/04/14/catalunya/1365966237_504176.html
Visa, L. (2013, 23 nov.) Sant Climent de Taüll exhibe su nuevo ábside virtual El País. Acedido em http://ccaa.elpais.com/ccaa/2013/11/23/catalunya/1385234204_597211.html

Fontes das imagens:
MNAC: http://www.mnac.cat/colleccio/google_art_project.jsp?lan=001
Igreja de St. Climent de Taüll: http://ccaa.elpais.com/ccaa/2013/11/23/catalunya/1385234204_597211.html

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